PF dá 5 dias para empreiteiras explicarem depósitos para doleiro da Lava Jato

Pelo menos R$ 31,5 milhões foram repassados para duas empresas de fachada de Alberto Youssef

Redação

13 de outubro de 2014 | 18h05

Fausto Macedo e Ricardo Brandt

A Polícia Federal requereu de um grupo de empreiteiras citadas na Operação Lava Jato informações sobre valores repassados a duas empresas de fachada do doleiro Alberto Youssef. As transferências somam pelo menos R$ 31,5 milhões. A PF suspeita que as transações podem caracterizar lavagem de dinheiro “tendo por antecedentes crimes praticados contra a Petrobrás”.

Os valores foram depositados em contas da GFD Investimentos e MO Consultoria. Elas são duas das quatro empresas de fachada controladas pelo doleiro – as outras duas são a Empreiteira Rigidez e a RCI Software.

A PF abriu inquéritos específicos para apurar a origem, natureza e finalidade das transferências bancárias efetuadas pelas empreiteiras – individualmente ou em consórcios – do ramo de construção de obras para contas supostamente controladas pelo doleiro.

Os dados sobre as movimentações financeiras constam de quebras judiciais de sigilo bancário. O rastreamento identificou vários depositantes nas contas das empresas de Youssef.

A PF já intimou as empreiteiras, com prazo de cinco dias, nos inquéritos específicos para esclarecer “a natureza e o propósito das transações, juntando ainda a documentação pertinente, contratos e notas que os amparam, bem como para demonstrar a efetiva prestação do serviço contratado”.

“Observo que há indícios veementes de que as empresas GFD Investimentos, MO Consultoria, Empreiteira Rigidez e RCI Software seriam utilizadas por Alberto Youssef para lavagem de dinheiro, mediante emissão de notas fiscais fraudadas, já que as empresas inexistiriam de fato ou pelo menos não teriam condições de prestar qualquer serviço real ou fornecer qualquer mercadoria real”, assinalou o juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato.

Para o magistrado, o pedido da PF às empreiteiras é “medida é razoável já que as empresas depositantes mantém registros documentais de transações vultosas e poderão, querendo, esclarecer o ocorrido”.

“Se as transações tiverem causa lícita, será fácil produzir o esclarecimentos e prova necessária”, pondera Sérgio Moro.

O juiz assinala que várias empreiteiras “já peticionaram nestes autos e em outros, requerendo acesso à investigação e manifestando sua intenção de colaborar”. No despacho, o magistrado lista 12 empresas e consórcios, com depósitos em duas das firmas de fachada do doleiro. Entre elas dois consórcios que foram contratados nas obras da Refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco – alvo de uma das ações penais da Lava Jato – e na Secretaria de Habitação da Prefeitura de São Paulo, durante o governo do ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD).

Da lista com 12 empresas que fazem transferências para as firmas de fachada de Youssef (GFD e MO Consultoria), duas são feitas por firmas que para a PF são do próprio doleiro. A Piemonte Empreendimentos Ltda., que passou R$ 8,5 milhões para a GFD. E outra é a Treviso Empreendimentos Ltda., que depositou R$ 4,4 milhões.

Das empresas que são de terceiros, a que fez o maior aporte de recursos das empresas de fachada do doleiro é a Investminas Participações S.A, do ex-ministro do governo Collor Pedro Paulo Leoni Ramos, o PP – controlador do grupo GPI Investimentos, também investigado na Lava Jato. A empresa depositou ao todo R$ 4,3 milhões na MO Consultoria.

VEJA A LISTA DE TRANSFERÊNCIAS IDENTIFICADAS PELA PF

1) Depósitos de R$ 8.530.918,57 na conta da GFD Investimentos por parte da empresa Piemonte Empreendimentos Ltda.;

2) Depósitos de R$ 4.400.000,00 na conta da GFD Investimentos por parte da empresa Treviso Empreendimentos Ltda.;

3) Depósitos de R$ 2.533.950,00 na conta da GFD Investimentos por parte de Consórcio Mendes Júnior MPE SE;

4) Depósitos de R$ 3.021.970,00 na conta da GFD Investimentos por parte de Mendes Jr. Trading E Engenharia;

5) Depósitos de R$ 4.317.100,00 na conta da MO Consultoria por parte de Investminas Participações S/A;

6) Depósitos de R$ 3.260.349,00 na conta da MO Consultoria por parte de Consórcio RNEST O. C. Edificações, capitaneado pela empresa Engevix Engenharia S/A;

7) Depósitos de R$ 1.941.944,24 na conta da MO Consultoria por parte de Jaraguá Equipamentos Industriais;

8) Depósitos de R$ 1.530.158,56 na conta da MO Consultoria por parte de Galvão Engenharia S/A;

9) Depósitos de R$ 619.410,00 na conta da MO Consultoria por parte de Construtora OAS Ltda.;

10) Depósitos de R$ 563.100,00 na conta da MO Consultoria por parte da OAS Engenharia e Participações S/A;

11) Depósitos de R$ 435.509,72 na conta da MO Consultoria por parte da Coesa Engenharia Ltda.;

12) Depósitos de R$ 431.710,00 na conta da MO Consultoria por parte de Consórcio SEHAB (Constran e OAS).

COM A PALAVRA, O GRUPO TREVISO

O criminalista José Roberto Batochio, que representa o Grupo Treviso, declarou que a companhia não pertence E nunca pertenceu, ao doleiro Alberto Youssef. “O Grupo Treviso está no mercado há 30 anos, dos quais 20 anos foi representante exclusivo da Pirelli no Brasil, é um grupo de prestígio no mercado”, disse Batochio.

Segundo o criminalista, Youssef procurou a direção do Grupo Treviso apresentando-se como empresário bem relacionado com autoridades judiciárias e ofereceu participação em um empreendimento de controle de gás poluente de automóveis. Batochio explica que o Grupo fez uma avaliação técnica e recusou a proposta.

Tempos depois, esclarece o advogado, Youssef voltou à carga oferecendo um outro negócio, participação em um hotel localizado em Aparecida, no Vale do Paraíba (SP). O doleiro argumentou que um dos sócios do hotel era a Igreja Católica. Destacou, ainda, que o papa Francisco estava para vir ao Brasil e havia a perspectiva de grande movimento de turistas por causa da Copa do Mundo.

“O negócio foi fechado, mas Youssef não cumpriu o cronograma por isso o grupo Treviso rescindiu o contrato”, informou Batochio.

Segundo o criminalista, a GFD Investimentos –  uma das empresas de Youssef –  devolveu uma parte do valor investido ao Grupo Treviso, via rede bancária.

Outra parcela do valor não foi devolvida pelo doleiro, por isso o Grupo Treviso ingressou com uma ação de cobrança na Justiça, distribuída para a 13ª Vara Cível.

Na mesma época em que ofereceu negócio relativo ao hotel de Aparecida, Youssef apresentou ao Grupo Treviso outra proposta, para participação em um hotel em Porto Seguro, na Bahia. , O doleiro disse que iria arrematar cotas em um leilão judicial, mas também ai, o Grupo Treviso rescindiu o contrato porque Youssef não cumpriu sua parte no acordo. Houve, ainda, uma terceira tentativa de parceria para aquisição de um condomínio de escritórios em Curitiba (PR).

“Todos os negócios foram frustrados”, afirma José Roberto Batochio.

Segundo o criminalista, o Grupo Treviso chegou a repassar quase R$ 12 milhões para a GFD, de Youssef. “Todas as transferências foram feitas através de TED (Transferência Eletrônica Disponível) para a conta corrente da GFD. Desse total, Youssef devolveu cerca de R$ 5 milhões, tudo devidamente contabilizado, tramitado através da rede bancária.”