PF busca dados sobre presidente do conselho da Camargo Corrêa

PF busca dados sobre presidente do conselho da Camargo Corrêa

Vitor Hallack, presidente do Conselho de Administração da holding, e também Celso Ferreira de Oliveira são citados em documento da Lava Jato sobre contrato da empreiteira com a JD Consultoria, do ex-ministro Dirceu (Casa Civil governo Lula)

Redação

17 de junho de 2015 | 11h00

Por Fausto Macedo, Julia Affonso e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

A Polícia Federal busca informações sobre Vitor Hallack e Celso Ferreira de Oliveira, altos executivos da Camargo Corrêa – empreiteira alvo da Operação Lava Jato por supostamente ter integrado cartel que se apossou de contratos bilionários da Petrobrás.

Hallack é o presidente do Conselho de Administração do grupo Camargo Corrêa. Em despacho datado de 15 de maio, o delegado federal Marcio Adriano Anselmo, que faz parte da força-tarefa da PF na Lava Jato, solicita aos agentes que promovam “diligência para identificação da pessoa de Celso Ferreira de Oliveira e Vitor Hallack”.

A PF mira em contrato da Camargo Corrêa com a empresa JD Assessoria e Consultoria, que era controlada pelo ex-ministro José Dirceu (Casa Civil do governo Lula) – atualmente a consultoria está ‘inoperante’, cessadas todas as suas  atividades, informou o advogado de Dirceu, criminalista Roberto Podval, em petição protocolada em abril na Justiça Federal do Paraná.

PEDIDO INFO SOBRE VITOR HALLACK

É a primeira vez que a PF cita nos autos da Lava Jato os nomes de Celso Ferreira de Oliveira e de Vitor Hallack, do alto escalão da empreiteira. Celso Ferreira de Oliveira foi presidente da Construtora Camargo Corrêa quando da assinatura de contratos com a Petrobrás – hoje, ele é presidente da Construtora Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário. Vitor Hallack é presidente do Conselho de Administração da holding. 

Até aqui, a PF havia centralizado as investigações em três executivos da empreiteira – Dalton dos Santos Avancini, Eduardo Leite e João Ricardo Auller -, todos eles por suspeita de corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

Os três foram presos em novembro de 2014 pela Operação Juízo Final, fase da Lava Jato que mirou exclusivamente o braço empresarial do esquema de propinas na Petrobrás. Avancini e Leite fizeram delação premiada e revelaram importantes informações para a Lava Jato. Eles e Auller estão agora em prisão domiciliar, monitorados por tornozeleira eletrônica, por ordem do Supremo Tribunal Federal.

Não há nos autos indicativo de que a PF suspeita de Oliveira e Hallack como envolvidos em corrupção e propinas no âmbito de contratos da empreiteira com a Petrobrás.

Mas um dos alvos da Lava Jato é a coleção de contratos firmados pela JD Assessoria e Consultoria, empresa do ex-ministro Dirceu.

Em março, a Procuradoria da República pediu ao juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações penais da Lava Jato, que a Camargo Corrêa apresentasse cópia de todos os contratos celebrados com a JD. A empreiteira informa que fechou um único contrato com a consultoria de Dirceu no valor de R$ 844.650, pagos parceladamente entre maio de 2010 e fevereiro de 2011.

“Como é de conhecimento deste Juízo, no curso das investigações e dos processos criminais da assim denominada Operação Lava Jato restou evidenciado a prática, por parte de gestores e administradores da Construções e Comércio Camargo Corrêa, de diversos atos de corrupção e de lavagem de dinheiro em período concomitante às supostas “consultorias” e “assessorias” prestadas pela empresa JD”, sustentou a Procuradoria, na ocasião.

Trecho do contrato assinado entre a Camargo Corrêa e JD, do ex-ministro José Dirceu

Trecho do contrato assinado entre a Camargo Corrêa e JD, do ex-ministro José Dirceu

O pedido foi subscrito pelo procuradores da República Orlando Martello e Diogo Castor de Mattos. Segundo eles, os repasses feitos à empresa de Dirceu se deram no mesmo período da execução do contrato da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária (PR), ‘bem como de diversos outros celebrados pela Construções e Comércio Camargo Corrêa com a Petrobrás’.

O Ministério Público Federal quer ‘identificar as pessoas responsáveis pelas tratativas e pelas negociações relativas aos referidos contratos, indicando as respectivas qualificações (nome, endereço, cargo ocupado e período)’ e ‘todos os pagamentos realizados para a JD Assessoria e Consultoria LTDA., especificando os valores, as datas e as razões de tais pagamentos, bem como anexar os documentos comprobatórios destes pagamentos’”.

“Esclarecer exatamente o objeto do contrato, fornecendo todas as informações disponíveis sobre as suas tratativas, tais como atas de reuniões, registros de e-mails trocados, registros de reuniões marcadas em agendas funcionais e identificação de números de telefones celulares funcionais utilizados por estas pessoas”, pediram os procuradores, em março.

Trechos do contrato da JD e Camargo Corrêa, de abril, mas retroativo a fevereiro de 2010

Trechos do contrato da JD e Camargo Corrêa, de abril, mas retroativo a fevereiro de 2010

A JD faturou R$ 29 milhões em oito anos. Quando essa informação foi divulgada, o ex-ministro Dirceu, por meio de sua assessoria de imprensa, esclareceu. “A JD – Assessoria e Consultoria atuou de 2006 a 2014 prestando assessoria a empresas brasileiras e estrangeiras com foco, sobretudo, em prospecção de negócios no exterior. Foram atendidos cerca de 60 clientes de quase 20 setores diferentes da economia, como indústrias de bens de consumo, telecom, comércio exterior, logística, tecnologia da informação, comunicações e construção civil.”

Segundo a assessoria de Dirceu, “do total faturado pela consultoria, 85% foi gasto com o pagamento de despesas fixas e operacionais e recolhimento de impostos”.

Cópia de primeira nota fiscal emitida da JD para a Camargo Corrêa

Cópia de primeira nota fiscal emitida da JD para a Camargo Corrêa

“A empresa registrou, em média, lucro mensal de R$ 65 mil. O setor industrial foi o mais atendido pela JD, representando 31,79% do total”, destacou a assessoria de imprensa de Dirceu.

“O ex-ministro José Dirceu e a JD Assessoria e Consultoria sempre estiveram à disposição da Justiça e prestaram todos os esclarecimentos solicitados pela 13ª Vara Federal do Paraná no curso da Operação Lava Jato. Conforme já informado à Justiça, a relação comercial da JD com as construtoras investigadas não tem qualquer vínculo com os contratos das empreiteiras com a Petrobrás”, assinalou a assessoria de Dirceu, na ocasião.

A Camargo Corrêa tem reiterado que está à disposição das autoridades para todos os esclarecimentos necessários.

Em abril, a Camargo Corrêa informou à Justiça Federal que celebrou apenas um contrato com a JD Assessoria e Consultoria. A empreiteira apresentou recibos de pagamentos à JD que somaram R$ 844.650 (valor líquido), entre maio de 2010 e fevereiro de 2011. A empreiteira informou ainda que o único contrato com a empresa de Dirceu foi apreendido em 14 de novembro de 2014 pela Polícia Federal, durante busca na empresa. Na ocasião, os executivos Dalton Avancini e Eduardo Leite foram presos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: