PF atribui ‘esquema criminoso’ a Fernando Bezerra

PF atribui ‘esquema criminoso’ a Fernando Bezerra

Efetivo de 220 agentes da Operação Desintegração cumpre 52 mandados de busca e apreensão; investigação identificou que empreiteiras pagaram propinas e quitaram dívidas de 'autoridades públicas'

Pepita Ortega/SÃO PAULO e Patrik Camporez e Breno Pires/BRASÍLIA

19 de setembro de 2019 | 10h34

A Polícia Federal atribui ‘esquema criminoso’ ao senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), líder do Governo no Senado, alvo nesta quinta, 19, de buscas em seu gabinete e em sua residência no âmbito da Operação Desintegração. Em entrevista na entrada do prédio onde mora, em Brasília, o senador informou que colocou o cargo de líder do governo à disposição.

Em denúncia, Bezerra é citado como ‘cliente’ de um esquema de lavagem de dinheiro desviado dos cofres públicos. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Segundo a PF, a investigação busca desarticular um ‘esquema de pagamentos de vantagens indevidas por empreiteiras à autoridades públicas’. Bezerra e seu filho, o deputado Fernando Coelho (DEM/PE), também alvo de buscas, são investigados por suposta ligação com irregularidades e propinas em obras públicas, entre elas a da transposição do São Francisco.

A PF aponta que empreiteiras investigadas assumiam ‘dívidas pessoais de autoridades, principalmente relativas às campanhas eleitorais’.

Um efetivo de 220 policiais federais cumpre 52 mandados de de busca e apreensão por ordem do ministro Luís Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Os federais vasculham endereços ligados a autoridades públicas, ‘beneficiários dos recursos e das empreiteiras envolvidas’.

Polícia Federal revistando pastas e gavetas na Liderança do Governo, no Senado Federal. Foto: Dida Sampaio / Estadão

Segundo a PF, a investigação teve início em 2017, com base nas delações de investigados da Operação Turbulência.

A ‘Turbulência’ foi deflagrada em junho de 2016 contra um grupo especializado em lavagem de dinheiro, em Pernambuco e Goiás, que teria movimentado mais de R$ 600 milhões desde 2010.

Na época, a investigação foi iniciada com base na análise de movimentações financeiras suspeitas detectadas nas contas de algumas empresas envolvidas na aquisição da aeronave Cessna Citation PR-AFA.

Esse avião transportava o ex-governador de Pernambuco e então candidato à Presidência da República, Eduardo Campos pelo PSB, em seu acidente fatal, ocorrido em agosto de 2014.

A PF suspeitava que parte dos recursos que transitaram nas contas de fachada do grupo servia para pagamento de propina a políticos e formação de ‘caixa dois’ de empreiteiras.

Os empresários João Lyra, Eduardo Freire Bezerra Leite e Apolo Santana Vieira fecharam acordo de colaboração com o Ministério Público Federal em 2017.

Lyra era apontado pela Polícia Federal como líder do esquema investigado pela ‘Turbulência’ e como responsável por entregar propina de empreiteiras a Campos.

A Polícia Federal indicou que os colaboradores investigados pela ‘Turbulência’ confirmaram o pagamento de ‘vantagens indevidas’ a autoridades públicas, entre 2012 e 2014.

As operações foram realizadas por empreiteiras que estavam executando obras custeadas com recursos públicos, indica a PF.

‘Cliente’

Em denúncia contra alvos da Operação Turbulência, Bezerra é citado como ‘cliente’ de um esquema de lavagem de dinheiro desviado dos cofres públicos. O grupo investigado teria movimentado mais de R$ 600 milhões desde 2010 e seria supostamente liderado pelo empresário João Carlos Lyra.

Entre os valores que foram lavados pela organização estariam recursos públicos federais desviados dos lotes 9 e 11 do eixo leste do Projeto de Integração do Rio São Francisco, indica a peça da Procuradoria Geral da República em Pernambuco apresentada em agosto de 2016.

O políticos não foi denunciado pela Turbulência. Como detentor de foro privilegiado, é investigado perante a Procuradoria-Geral da República no âmbito do Supremo Tribunal Federal.

Ao todo, o senador é alvo de cinco inquéritos, dois deles por supostos crimes contra a lei de licitações quando era prefeito de Petrolina, dois do período em que era secretário estadual e um da época em que foi ministro.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO ANDRÉ CALLEGARI, QUE DEFENDE FERNANDO BEZERRA E O DEPUTADO FERNANDO COELHO FILHO

“Causa estranheza à defesa que medidas cautelares sejam decretadas em razão de fatos pretéritos que não guardam qualquer razão de contemporaneidade com o objeto da investigação. A única justificativa do pedido seria em razão da atuação política e combativa do senador contra determinados interesses dos órgãos de persecução penal. A defesa ainda não teve acesso ao pedido e à decisão do ministro que autorizou as medidas, mas pode afirmar que as medidas são desnecessárias e extemporâneas”.

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