PF apreende documento com amigo de Temer e vê elo com Angra 3

PF apreende documento com amigo de Temer e vê elo com Angra 3

Nas buscas da Operação Patmos, foi recolhido com o coronel João Baptista Lima Filho dados de movimentação financeira internacional da 'AF Consultant Switzrland', que pode ter relação com corrupção do PMDB em obra de usina nuclear

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Breno Pires e Fábio Serapião

02 de junho de 2017 | 17h32

Obras da Usina Termonuclear Angra 3, no Rio. Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO

A Polícia Federal apreendeu uma pasta com documentos relacionados à AF Consultant Switzrland LTD, nas buscas que realizou na empresa do coronel aposentado da Polícia Militar de São Paulo João Baptista Lima Filho – amigo do presidente Michel Temer -, no dia 18, quando foi deflagrada a Operação Patmos – desdobramento da Lava Jato, decorrente da delação premiada dos donos do Grupo J&F.

“Pasta presta (OURINVEST) com documentos refentes a operações de transferência em moeda estrangeira, confirmações de operações de derivativos, contratos de câmbio, operações de derivativos Banco Ourinvest e AF Consultant Switzerland LTD”, registra o item 02, do auto de apreensão referente ao mandado número 4 expedido pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF).

A ordem era para realizar buscas na sede da Argeplan Arquitetura e Engenharia Ltda., que tem como sócio o coronel Lima Filho, homem de confiança do presidente Temer. O endereço, na Vila Madalena, em São Paulo, foi apontado pelos delatores da J&F como local de entrega de uma caixa com R$ 1 milhão de propina, em dinheiro vivo, em 2014 para uma pessoa indicada pelo presidente Temer conhecido como “Coronel”.

O documento encontrado na recepção da diretoria da Argeplan é de interesse das investigações da Lava Jato, que desde 2015 encontrou elo dos negócios do amigo de Temer com o esquema de corrupção no governo federal, em especial no setor de energia, uma das áreas de domínio político do PMDB.

A Argeplan participa de contrato nas obras da usina de Angra 3, no Rio. O negócio teria envolvido propina na Eletrobrás no esquema de corrupção comandado pelo PMDB na estatal.

A empresa do amigo de Temer participa do contrato “Eletromecânico 1: Área Nuclear da Usina”, assinado pela finlandesa AF Consult LTD em 24 de maio de 2012, dois anos após a abertura de concorrência internacional, pelo valor de R$ 162.214.551,43.

Por exigência contratual, a finlandesa teve de subcontratar parcerias nacionais. Foram escolhidas a AF Consult Brasil, criada em 2006, e a Engevix Engenharia, que teve executivos condenados em dois processos da Lava Jato.

A Argeplan entra no negócio como sócia da finlandesa AF Consult na constituição da AF Consult Brasil, que funciona em um escritório em São Bernardo do Campo (SP). Lima atua comercialmente em nome da Argeplan desde 1980, mas entrou como sócio efetivo em 2011 – um ano antes do contrato da AF Consult em Angra 3.

Com custo estimado em R$ 14 bilhões e obras atrasadas, Angra 3 envolveu propinas de 1% nos contratos ao partido de Temer, segundo relataram à força-tarefa delatores das empreiteiras UTC, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa. A obra, sob responsabilidade da Eletronuclear (controlada pela Eletrobrás), foi dividida em vários pacotes contratuais.

Para os investigadores, o documento relacionado à “AF Consultant Switzrland” pode ter relação com o contrato de Angra 3 e foi levado da sede da Argeplan, em um dos malotes da Patmos.

Mensagens. Ex-assessor de Temer na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, Lima tem o nome citado em uma troca de e-mails de executivos da Engevix sobre negociações do contrato de Angra 3.

Era agosto de 2014, período anterior ao primeiro aditivo do contrato da finlandesa, aumentando em 4% o valor original. “Em 21 de agosto de 2014, Samuel Fayad, funcionário da Engevix, encaminha um e-mail ao denunciado José Antunes Sobrinho (sócio da Engevix) dizendo que Othon Luiz (Pinheiro da Silva, ex-presidente da Eletronuclear) iria convocar as pessoas de Roberto e Lima para fechar o assunto do aditivo, e que José Antunes também seria convidado para reunião”, registra documento da força-tarefa da Lava Jato. “Roberto” é Roberto Liesegang, suíço representante da AF, e “Lima”, o amigo de Temer.

Em 18 de outubro, Sobrinho volta a falar sobre “aditivo” e dá como resolvido o assunto – o aditivo da AF Consult seria assinado em 8 de dezembro de 2014.

Para a Lava Jato, o ex-presidente da Eletronuclear, que seria sustentado no cargo pelo PMDB, “atuou ou se omitiu em favor dos interesses da empresa, recebendo vantagens indevidas”.

O processo relativo à usina de Angra 3 foi aberto pelo juiz Sérgio Moro, em Curitiba, e remetido à Justiça Federal no Rio, para o juiz Marcelo Bretas. Em agosto do ano passado, o magistrado condenou o ex-presidente da Eletronuclear a 43 anos de prisão.

Nos documentos encontrados na sala do amigo de Temer, a Polícia Federal recolheu ainda uma cópia da sentença de Bretas, encadernada. Lima Filho não foi réu nesse processo, nem a Argeplan é citada. Mas o contrato da AF Consulting integra os negócios de Angra 3 que teria rendido propinas para agentes públicos.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou em manifestação enviada ao STF, em 2016, que “há reluzentes indícios de que o ocorrido no âmbito da Petrobrás se refletiu no setor elétrico, por meio da Eletrobrás”.

O advogado da Argeplan que acompanhou as buscas, Cristiano Rego Benzota de Carvalho, foi procurado, mas não foi localizado.

A Eletrobrás determinou apurações internas e externas nos contratos de Angra 3 e de outras áreas, incluindo o da AF Consult. Os representantes da empresa não foram localizados.