PF aponta R$ 1,1 milhão de empresa de Dirceu para escritório de deputado petista

PF aponta R$ 1,1 milhão de empresa de Dirceu para escritório de deputado petista

Rastreamento mostra que, entre 2009 e 2014, a JD Assessoria, do ex-ministro da Casa Civil (Governo Lula), pagou Unicon Serviços Contábeis que tem como sócio Enio Tatto, da Assembleia Legislativa de São Paulo

Redação

07 de agosto de 2015 | 05h00

Enio Tatto. Foto: Eliaria Andrade/Estadão

Enio Tatto. Foto: Eliaria Andrade/Estadão

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

Rastreamento da Polícia Federal na Operação Pixuleco, 17.º capítulo da Lava Jato que prendeu José Dirceu, revela que a JD Assessoria e Consultoria, do ex-ministro-chefe da Casa Civil (Governo Lula), pagou R$ 1,161 milhão para a Unicon-Serviços Contábeis Ltda, da qual é sócio o deputado estadual Enio Tatto (PT), primeiro secretário da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Os repasses ocorreram entre janeiro de 2009 e dezembro de 2014 – período em que Dirceu foi processado, condenado e preso no Mensalão por corrupção ativa.

Bob Marques. Foto: Gabriela Bilo/Estadão

Bob Marques. Foto: Gabriela Bilo/Estadão

Os documentos que mostram as relações da JD com a Unicon foram anexados pela Polícia Federal nos autos da Pixuleco, que prendeu também Roberto Marques, o Bob, braço direito de Dirceu.

Bob é funcionário efetivo da Assembleia paulista desde 28 de maio de 1986. Trabalhou na LIderança do PT. Desde 15 de março de 2003 está lotado no Gabinete da 1.ª Secretaria, que o deputado Enio Tatto assumiu há dois anos e meio.

A PF esmiuça todos os negócios da JD porque suspeita que a empresa do ex-ministro, já desativada, foi usada para captar propinas do esquema de corrupção na Petrobrás por meio de consultorias fictícias. Em oito anos a JD faturou R$ 39 milhões. A PF trabalha com a hipótese de que parte dessa receita teve origem em pagamentos ilícitos de empreiteiras que teriam sido beneficiadas em contratos com a Petrobrás.

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Os investigadores dizem que pelo menos R$ 21,3 milhões a JD recebeu por meio de depósitos mensais e ininterruptos de três grupos empresariais.

Nos autos da Pixuleco, a Polícia Federal transcreve a constituição da Unicon Serviços Contábeis, de 14 de novembro de 1997, situada na Chácara Santo Antônio, São Paulo, zona sul. O deputado é ‘um dos sócios da empresa’.

Yolanda Tatto, mulher do deputado Enio Tatto, é sócia da Unicon. Ela destaca que a Unicon respondeu pela contabilidade da JD desde a sua fundação.

Yolanda Tatto rechaça enfaticamente qualquer suspeita sobre os valores que a Unicon recebeu da empresa de Dirceu. “Nunca recebi propinas. O valor de R$ 1,161 milhão corresponde ao pagamento de honorários contábeis mensais.”

Ela ressalta que o marido é sócio cotista da Unicon, porque também é contador, mas afirma. “Nos últimos 17 anos ele (Enio Tatto) passou aqui umas cinco vezes para tomar café e foi muito. Nem meu marido nem eu recebemos da Lava Jato. A Unicon recebeu as mensalidades porque cuidamos da empresa dele (José Dirceu) e da pessoa física dele, além de outros trabalhos que eu desenvolvia, alterações contratuais, certidões negativas, consultoria para a área tributária que ele (ex-ministro) me pedia. Não pagaram para o meu marido, pagaram pelos serviços contábeis que prestei.”

Yolanda Tatto anota que a Unicon mantém um quadro de 32 funcionários e uma carteira de 300 clientes.Ela observou que nos últimos meses tem se dedicado a esclarecer ao Ministério Público Federal e à Receita questões relativas às atividades da JD Assessoria. “(JD) tinha, em média, 28 funcionários com INSS e FGTS pagos. Eu respondo pela parte técnica e contábil (da JD).”

COM A PALAVRA, A UNICON SERVIÇOS CONTÁBEIS

A Unicon Serviços Contábeis Ltda responde pela contabilidade da empresa JD Assessoria e Consultoria Ltda desde sua fundação conforme contrato de prestação de serviços. Diferente do que está sendo divulgado, o valor de R$ 1,161 milhão corresponde ao pagamento de honorários contábeis mensais de janeiro de 2009 a dezembro de 2014, período de 72 (setenta e dois) meses consecutivos contemplados na quebra de sigilo fiscal e bancário. Esse montante corresponde ainda a honorários de alterações contratuais, emissão de certidões negativas e reembolso de taxas, todos compatíveis com os valores praticados no mercado. A Unicon Serviços Contábeis Ltda., se solicitada, apresentará às autoridades competentes toda e qualquer documentação que comprove o histórico dos trabalhos realizados e dos valores recebidos e tributados na forma da lei. Esclarecemos que a Unicon atua desde 1997, possui 26 funcionários e seu quadro societário é composto pelo deputado estadual Enio Francisco Tatto, afastado da administração e de qualquer função técnica da empresa desde 2000, e a Sra. Yolanda Nunes Rocha Tatto, contadora e administradora de empresas que exerce a gestão desde sua fundação. Salientamos ainda que o Sr. Jair José Tatto, técnico contábil, retirou-se da sociedade em fevereiro de 2003, não exercendo qualquer atividade ou função na empresa desde então.

Unicon Serviços Contábeis Ltda

Yolanda Nunes Rocha Tatto

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DE IMPRENSA DA 1.ª SECRETARIA DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE SÃO PAULO

Roberto Marques é funcionário efetivo da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) desde 28/05/1986. Ou seja: ingressou no Legislativo paulista via concurso público para o cargo de Agente Legislativo de Serviços Auxiliares.

De lá para cá trabalhou em diversos setores da Alesp e em diferentes cargos. Esteve lotado em Gabinete de Liderança Partidária, no Gabinete da 1ª Secretaria, em Gabinete de Deputado e, ainda, na administração interna da Alesp.

Entre os cargos que ocupou estão o de Agente Legislativo de Serviços Auxiliares, o de Auxiliar Legislativo de Serviços Operacionais e o de Assessor Especial Parlamentar.

Está lotado no Gabinete da 1ª Secretaria desde 15/03/2003, há mais de 12 anos. Presentemente responde pelo expediente da 1ª Secretaria no que diz respeito à relação institucional da Alesp com órgãos de Estado, onde acompanha proposituras oficiais (Requerimento de Informação, Ofício,) formuladas por parlamentares para secretarias e outros setores da administração pública.

Assessoria de Imprensa

1ª Secretaria

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DE IMPRENSA DO EX-MINISTRO JOSÉ DIRCEU

NOTA 1 – Sobre três maiores pagadores à JD Assessoria e Consultoria

A assessoria do ex-ministro José Dirceu informa que é equivocada e sem qualquer fundamento a afirmação, registrada pelo blog, de que a JD Assessoria e Consultoria teria faturado “R$ 21,3 milhões em depósitos mensais e ininterruptos realizados por apenas três grupos empresariais”.

Embora a reportagem não esclareça quais seriam as três empresas nem a fonte da informação, basta lembrar que a relação e os valores de todos os contratos da JDA tornaram-se públicos quando a Justiça Federal do Paraná levantou, ainda em março, o sigilo sobre as informações, recebendo ampla atenção de toda a mídia nacional.

Entre os três maiores contratos da empresa do ex-ministro, existe apenas uma construtora investigada na Operação Lava Jato, a UTC, que faturou contra a JDA R$ 3,086 milhões, entre 2012 e 2014, conforme contratos e notas fiscais encaminhada à Justiça. A empresa com maior faturamento contra a JDA é um laboratório farmacêutico brasileiro e a segunda, uma multinacional mexicana.
Em nota divulgada na segunda-feira (3), o advogado Roberto Podval também já havia alertado para o cálculo equivocado apresentado pela Polícia Federal sobre os supostos recebimentos ilícitos por meio da JDA. Na coletiva daquela manhã, o delegado Márcio Anselmo afirmou que o montante chegaria a R$ 39 milhões. “Esse é o total faturado pela empresa em 8 anos de atividade, quando atendeu a cerca de 60 clientes de quase 20 setores diferentes da economia”, diz Podval. “Não há qualquer razoabilidade imaginar que os pagamentos de multinacionais de diversos setores da indústria teriam relação com o suposto esquema criminoso na Petrobras.”
Desde 2006, a JDA foi contratada por empresas como a Ambev, Hypermarcas, Grupo ABC, Telefonica, EMS, além dos empresários Carlos Slim e Gustavo Cisneros. Todos, quando procurados pela imprensa, confirmaram a contratação do ex-ministro para orientação de negócios no exterior ou consultoria política.

NOTA 2 – Sobre o escritório Unicon Contabilidade

A assessoria do ex-ministro José Dirceu informa que a Unicon é a empresa responsável pela contabilidade da JD Assessoria e Consultoria desde sua fundação. Os pagamentos à Unicon são relativos aos serviços prestados em todo o período.

NOTA 3 – Sobre contrato com empresa de Zaida Sisson

A assessoria do ex-ministro José Dirceu refuta com veemência a ilação, apontada por investigadores da Operação Lava Jato, segundo registra este blog, da existência de “uma triangulação entre a JDA e a consultora Zaida Sisson em um esquema de propina oculto em forma de consultoria”.

“Não há nada mais inverossímil. Pelo contrário, a parceria com a consultora Zaida Sisson só comprova, além da documentação já apresentada pela defesa, que o ex-ministro efetivamente prestou consultoria, no Peru, para construtoras investigadas na Lava Jato”, afirma o advogado Roberto Podval. “O detalhamento do trabalho prestado pela JDA e por Zaida Sisson depõe contra a tese dos investigadores de que os contratos do ex-ministro com as empreiteiras seriam mera fachada para recebimentos ilícitos oriundos da Petrobras”.

Zaida Sisson trabalhou em parceria com o ex-ministro na prospecção de negócios no Peru para clientes da JD Assessoria e Consultoria, conforme a defesa de José Dirceu vem afirmando publicamente desde janeiro. No período de parceria, a empresa de Zaida Sisson no Brasil, a Blitz Trading recebeu da JDA R$ 364,3 mil por seus serviços prestados.

A JDA prestou consultoria no Peru às construtoras Engevix, OAS, Galvão Engenharia e UTC, que já reconheceram publicamente a razão da contratação. Todas as informações sobre os contratos foram encaminhadas pela defesa do ex-ministro à Justiça Federal do Paraná.

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