PF achou só uma caixa postal no endereço da empresa de operador de petista

PF achou só uma caixa postal no endereço da empresa de operador de petista

MSM Consultoria - na cidade de Paulista, próxima do Recife -, do empresário Mário Beltrão, amigo e investigado por suposta captação de propina de R$ 1 milhão para senador Humberto Costa, em 2010, foi alvo de mandado de buscas em março, segundo relatório agora juntado a inquérito que investiga o petista

Luiz Vassallo

28 de outubro de 2017 | 15h00

A Polícia Federal constatou que a MSM Consultoria, do empresário Mário Beltrão, amigo e investigado por operar propina de R$ 1 milhão ao líder da oposição no Senado, Humberto Costa (PT), é sediada em uma caixa postal de um pequeno escritório na cidade de Paulista, na Grande Recife. Quando bateram à porta do estabelecimento, em março, investigadores descobriram que todas as encomendas ao local são redirecionadas à casa de Beltrão, em um condomínio luxuoso em frente ao mar da capital pernambucana, informa relatório da PF agora juntado ao inquérito que investiga o petista.

Documento

A MSM recebeu R$ 1,3 milhão da Odebrecht em 2010 e 2011 e manteve contratos com a White Martins, outra prestadora de serviços à Petrobrás, por três anos. Delatores afirmam que contratos foram fictícios, a título de propinas em benefício do seu ‘amigo de infância’ senador.

Endereços ligados a Márcio Beltrão foram alvo de busca e apreensão em março, no âmbito da Operação Satélites, que mira pessoas que orbitam em torno dos senadores Renan Calheiros (PMDB-AL), Humberto Costa (PT-PE), Eunício Oliveira (PMDB-CE) e Valdir Raupp (PMDB-RO). Ele é investigado por usar suas empresas, Engeman e MSM Consultoria, para captar propinas ao petista.

O mandado de busca e apreensão contra a MSM Consultoria e Serviços de Engenharia e Arquitetura Ltda-ME, expedido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, era endereçado à Caixa Postal de número 4351, em uma loja na Avenida Cláudio José Gueiros Leite.

Lá, o ministro esperava que se coletassem provas referentes à ‘prática de crimes contra a administração pública e de lavagem de dinheiro, além de outros a ele correlatos, como associação criminosa e organização criminosa’, e, especificamente, ‘registros e livros contábeis e fiscais, formais ou informais, agendas, ordens de pagamento, documentos relacionados à manutenção e movimentação de contas bancárias no Brasil e no exterior, em nome’ de Beltrão ‘ou de terceiros, contratos, notas fiscais, recibos de quaisquer documentos referentes à solicitação e ao recebimento de vantagem indevida e na ocultação de valores’; ‘arquivos eletrônicos de qualquer espécie, bem como seus respectivos suportes físicos, tais corno HDs, laptops, tablets, notebooks, pendrives, CDs, DVDs, smartphones, telefones móveis, agendas eletrônicas, quando houver suspeita de que contenham material probatório relevante’; ‘valores em espécie em moeda estrangeira ou em reais de valor igual ou superior a R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), se localizados em endereços de pessoas físicas, ou RS 200.00,00 {duzentos mil reais), se localizados em endereços de pessoas jurídicas , desde que não seja apresentada prova documental cabal de sua origem licita’ e ‘objetos relacionados aos fatos, especialmente envolvendo Humberto Costa e Mário Beltrão ou dele provenientes, que suscitem suspeita de constituírem produto de lavagem de dinheiro’.

A Polícia Federal compareceu ao endereço às 07h30 no endereço da caixa postal. No mandado, ao invés de 4351, constava o número 163. Segundo o agente especial Sérgio Luis Gois Cavalcanti, ‘no local funciona uma das unidades do escritório virtual Multioffice Business Services’ e, quando os investigadores chegaram ao local, perceberam se tratar ‘de uma pequena loja, pertencente a uma galeria de estabelecimentos comerciais diversos’.

Naquele horário, ninguém foi encontrado, porque a loja só abriria duas horas e meia depois, como dizia um aviso pendurado em sua porta. Os agentes então tiveram que usar seus celulares pessoais e ligaram, sem sucesso, para os números de telefone que apareciam na fachada do local.

Quando, finalmente, com ajuda de outro agente da PF, foram atendidos pelo dono do estabelecimento, descobriram com ele que sequer existia a caixa postal com aquele número na Multioffice Business Services, ‘sendo as ali presentes numeradas do número 01 ao 84’.

Apesar de a caixa postal não existir, o proprietário do estabelecimento confirmou que recebia encomendas por Beltrão e as encaminhava para um apartamento em um edifício na Avenida Boa Viagem, Recife. O motoboy que levava as encomendas, segundo o dono da loja, era sempre atendido por Márcia Nogueira – que é filha de Mário.

Foto: Apartamento ligado a Mário Beltrão, em Recife, com vista para o mar.

Em depoimento nos autos do inquérito, Márcia afirmou ‘que a MSM não tem sede, tampouco funcionários e que a MSM já teve relacionamento com a White Martins, mas não sabe dizer qual’.

Já Mário diz que , na MSM, ‘realiza análise de projetos; assessoria técnica, focando na venda de equipamentos (comissão – pois não os compra e revende)’. “Aduziu, por fim, que fatura pouco com a MSM, mas faz antecipação dos lucros durante o ano”, consta nos autos.

Segundo delatores da Odebrecht, a empreiteira firmou contratos supostamente fictícios nos valores de R$ 687 mil e R$ 659 mil com a MSM Consultoria em benefício de Humberto Costa (PT), supostamente oriundos de um suposto caixa de R$ 30 milhões com o ex-diretor da estatal, Paulo Roberto Costa.

Os valores correspondem a 1% dos contratos de contratos firmados entre a Petroquisa e o Grupo Odebrecht.

Em petição ao Supremo Tribunal Federal, o ex-procurador-geral Rodrigo Janot chegou a dizer que ‘malgrados os pagamentos feitos pela White Martins, observam-se dos autos elementos indicativos de que a MSM, que não funcionava efetivamente e só existia como uma caixa postal, não prestou nenhum serviço efetivo, o que revela forte evidência de que era utilizada para emissão de notas fiscal ideologicamente contrafeitas e recebimento de valores para posterior pagamento de propina e branqueamento de capitais.

COM A PALAVRA, WHITE MARTINS

A White Martins esclarece que jamais fez doação para qualquer campanha do senador Humberto Costa do PT-PE.

COM A PALAVRA, BELTRÃO

A reportagem tentou, sem sucesso, contato com Mário Beltrão. O espaço está aberto para sua manifestação.

COM A PALAVRA, HUMBERTO COSTA

“O senador Humberto Costa espera há quase três anos pela conclusão das apurações, com as quais colaborou em todos os sentidos e em todas as etapas. É um inquérito baseado na acusação de um réu confesso, que mudou seis vezes sua versão sobre o fato inicial. A própria Polícia Federal solicitou o arquivamento do caso, que recebeu, por parte do então procurador-geral da República, um pedido de prorrogação. No entanto, até a presente data, nada de conclusivo foi apresentado e o inquérito segue aberto à espera de um desfecho, que o senador tem certeza ser favorável a ele, em razão de serem absolutamente inverídicas as acusações em que se funda.”

Tudo o que sabemos sobre:

Humberto Costaoperação Lava Jato

Tendências: