PF acha pista de propinas da Odebrecht a ‘Barba Branca’, ‘Barba Preta’, ‘Barba Verde’, ‘Lili’, ‘Americano’, ‘Velho’…

PF acha pista de propinas da Odebrecht a ‘Barba Branca’, ‘Barba Preta’, ‘Barba Verde’, ‘Lili’, ‘Americano’, ‘Velho’…

Série de e-mails que indicam pagamentos a 'diversos interlocutores' foi recuperada de computador do então presidente da Supervia, controlada pela maior empreiteira do País

Julia Affonso, Mateus Coutinho e Ricardo Brandt

06 de agosto de 2016 | 05h00

Prédio da Odebrecht em São Paulo. Foto: Jf Diório/ Estadão

Prédio da Odebrecht em São Paulo. Foto: Jf Diório/ Estadão

A Polícia Federal apreendeu, durante a Operação Xepa, a 26ª fase da Lava Jato, em março deste ano, e-mails que indicam pagamento de propinas. As mensagens foram capturadas em um computador na casa do então presidente da Supervia, Carlos José Vieira Machado da Cunha. A Supervia é uma empresa de transporte ferroviário que desde 2011 é controlada pela Odebrecht.

Em meio aos documentos apreendidos, estão e-mails de Carlos José Cunha ‘para diversos interlocutores, solicitando transferências de recursos a pessoas diversas’.

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Segundo a PF, entre os interlocutores das mensagens estão executivos que trabalhavam no Setor de Operações Estruturadas, o aparato secreto da Odebrecht para pagamento de propinas, segundo a Lava Jato.

“Verifica-se que em sua grande maioria os pagamentos envolvem o Aeroporto de Santos Dumont (SDU), enquanto três envolvem o Aeroporto de Goiânia”, aponta o relatório da Federal. Na época das mensagens, Carlos Cunha atuava na Odebrecht Infraestrutura e participou das obras do aeroporto de Santos Dumont tocadas pela empreiteira.

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Com base nos e-mails, a PF montou uma tabela com valores enviados entre 2003 e 2007 em um total de R$ 7.660.324,00. Os repasses variaram entre R$ 10 mil e R$ 300 mil.

A tabela é dividida em seis colunas: folha, data, valor em R$, recebedor, local da remessa e obras. Na lista dos recebedores estão ‘Barba Branca’, Barba Preta’, ‘Barba Verde’, ‘Barba Negra’, Lili, Americano, Velho e BB com 1,95.

Não é a primeira vez que a Lava Jato se depara com codinomes. Desde seu início, em 2014, a investigação revelou que não apenas os doleiros e lobistas utilizavam apelidos para se identificar, como os próprios empreiteiros utilizavam nomes cifrados em seus diálogos e anotações para se referir, inclusive a políticos. No caso da Odebrecht, a prática era corriqueira no chamado “departamento da propina”, um dos alvos da investigação que busca decifrar o grande fluxo de caixa 2 arquitetado pela maior empreiteira do País.

 

Em relação aos novos apelidos encontrados, a PF suspeita que, pelo menos dois deles, podem ser referência a dois ex-presidentes da Infraero: o ex-deputado do PT Carlos Wilson Rocha (morto em 2009), que ocupou o cargo de 2003 a 2006, e o seu sucessor, tenente brigadeiro José Carlos Pereira, que ficou no cargo até 2007.

“O nome Wilson, os pagamentos em Recife e o primeiro codinome ‘Número 1’ sugerem que ‘Americano’ seja Carlos Wilson Rocha de Queiroz Campos, e ‘Velho’, ‘Americano Velho’ sejam seu sucessor José Carlos Pereira, já que a primeira remessa a ‘Velho’ foi feita entre abril e maio de 2006, após José Carlos Pereira assumir a presidência”, aponta a Polícia Federal.

O total de pagamento para ‘Barba Branca’, segundo a Federal, é de R$ 3,424 milhões. As remessas teriam sido feitas no Rio de Janeiro, em São Paulo e Brasília.

“O total de pagamento para Barba Preta e Barba Negra (supondo serem o mesmo) é de R$ 315 mil, sendo que as remessas ocorreram no Rio de Janeiro. Há duas entregas para Barba Negra, no Rio de Janeiro, que ao lado do nome está escrito Lili. Já para Lili, o total de pagamentos é de RS 530 mil, sendo que as remessas ocorreram em sua maioria no Rio de Janeiro, sendo apenas uma em São Paulo”, aponta a PF no relatório.

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A Federal detalhou todos os pagamentos. “Para Barba Verde há dois pagamentos que somam o valor de R$ 36 mil, sendo o pagamento no Rio de Janeiro. Velho teve dois pagamentos, sendo que um não há valor descrito e o outro foi de R$ 194 mil, feito em São Paulo. O nome Velho aparece também associado no codinome Americano (Velho), cujo somatório de pagamentos é de R$ 1,309 milhão, sendo a maioria dos pagamentos em São Paulo e apenas um no Rio de Janeiro. Os pagamentos para Americano perfazem um total de R$ 1.822.324,00, sendo o único a receber pagamentos envolvendo o aeroporto de Goiânia, recebendo em Recife e São Paulo.”

O relatório destaca ainda que segundo um dos e-mails apreendidos, ‘Americano’ era antes chamado de ‘Número 1’, mas por orientação do executivo Benedicto Júnior, ligado à Odebrecht, passou a ser chamado de ‘Americano’.

Nenhuma das empresas citadas quis comentar o caso.

COM A PALAVRA, A INFRAERO:

“A direção da Infraero desconhece os fatos e detalhes relacionados as investigações citadas. Entretanto, esclarece que está à disposição para ampla apuração dos fatos e responsabilidades.”

 

 

 

 

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