Perspectivas para a cena fintech brasileira em 2020

Bruno Diniz*

20 de dezembro de 2019 | 12h00

Com o ano se aproximando do fim, é hora de fazermos um balanço do que passou e traçarmos alguns possíveis cenários para o ecossistema fintech brasileiro no começo da próxima década.

O ano de 2019 foi marcado por grandes investimentos que deram gás adicional para algumas fintechs veteranas em seu intenso processo de crescimento, como foi o caso do Nubank, Creditas e Neon. Observamos também um intenso fluxo de investimento para iniciativas mais early stage, fazendo com que esse ano fosse um dos melhores em termos de funding e quantidade de deals (negócios) no setor de todos os tempos.

O espaço fintech também passou a estar bem mais povoado. Segundo diferentes relatórios, o país ultrapassou a marca de 600 fintechs esse ano, uma posição que coloca o Brasil no topo da América Latina nesse quesito.

Avanços no campo regulatório

Outro ponto importante desse ano foi o intenso movimento dos reguladores no planejamento e desenho de uma nova infraestrutura e regras visando trazer inovação para o segmento financeiro, tais como:

1) A regulamentação do Open Banking

2) A criação de Sandboxes regulatórios

3) O Cadastro Positivo

4) A Duplicata escritural eletrônica

5) O novo padrão de pagamentos instantâneos

6) Regulamentação dos serviços de saques e aportes

Enquanto 2019 foi o ano de montar as novas bases regulatórias, 2020 será o ano de executar e colocar em ação essas iniciativas, começando um dos mais profundos movimentos de transformação e modernização do segmento financeiro local. Dentre todas as iniciativas, apenas o Open Banking não deve tomar efeito completo no próximo ano, já que terá algumas fases de implementação antes de estar completamente em operação.

Todo esse movimento dos reguladores foi feito de forma exemplar pela CVM, o Banco Central e a SUSEP, com proximidade das partes interessadas, tais como associações representativas, bancos, fintechs e demais instituições financeiras. Algo bastante positivo e alinhado com a sociedade civil.

Além disso, no campo das regulamentações mais amplas, tivemos a discussão de duas iniciativas importantes nesse ano que favoreceram as startups de modo geral e, por consequência, as fintechs:

1) MP da Liberdade Econômica

2) Marco Legal das Startups

Um novo momento das ações de corporate venturing no país

Outro movimento que tende a ganhar mais corpo são as iniciativas de corporate venturing no país – nome dado à aproximação entre grandes corporações e startups – aproximações essas que podem tomar forma como Hackathons (maratonas de programação), Programas de aceleração, Laboratórios e hubs de inovação, ou investimentos em novas companhias através de um fundo de corporate venture. Vimos um crescimento de todas essas diferentes iniciativas esse ano, culminando inclusive na vinda de aceleradoras globais como a Plug & Play para o Brasil em parceria com instituições locais, além do nascimento de novos laboratórios para teste de tecnologia pelos bancos e espaços de interação entre startups e grandes instituições.

No entanto, quando falamos de corporate venture capital, o Brasil ainda tem muito que avançar. Para se ter uma ideia, até o fechamento do 3º trimestre, os fundos de corporate venture capital foram responsáveis por 1/3 de todo investimento feito em fintechs no mundo, de acordo com dados da Consultoria CB Insights. Só nos Estados Unidos aconteceram 45 diferentes investimentos em fintechs por grandes bancos no ano de 2018, sendo que os bancos JP Morgan e Goldman Sachs foram as instituições mais ativas nesse quesito.

No Brasil ainda estamos longe dessa média, mas é possível que vejamos uma intensificação de movimentos nessa direção a partir de 2020, marcando um novo momento de maturidade do ecossistema local.

América Latina no radar internacional e movimentações internas

Ainda em 2019 o mundo descobriu o ecossistema de startups do Brasil e da América Latina, trazendo vários fundos de Venture Capital para a região. A percepção de que o país está em rota de retomada financeira e possui várias oportunidades de negócio quando comparado à outras partes do mundo reforçou a tese desses fundos. O Softbank foi um dos fundos de investimento que atuou de forma intensa em grandes rodadas no segmento (Creditas e Banco Inter).

Essa percepção positiva atraiu também fintechs estrangeiras, como os neobanks N26 e Revolut, que devem iniciar suas operações por aqui em 2020, além de outros players da Europa, América do Norte e da própria América Latina (que ensaiam uma expansão para o Brasil).

A atividade de fusões e aquisições também começaram a decolar em 2019. Tivemos movimentos interessantes de aquisição de participação em fintechs por grandes corporações, como foi o caso ocorrido entre EWally e Banco Carrefour e a BluPay e Valid. Além disso, vimos grandes Fintechs adquirindo outros players para expandir sua oferta de produtos, como a aquisição da Creditoo pela Creditas e da MEI Fácil pelo Neon. A expectativa é que vejamos mais movimentos como esse no próximo ano, especialmente de grandes players como o Nubank, que já manifestou publicamente a possibilidade de realizar aquisições.

Uma nova década para o segmento financeiro no Brasil

Todos os fatos apresentados anteriormente me levam a crer que 2020 marcará o início de uma nova era para o segmento financeiro no brasil, exigindo alterações ainda mais profundas na forma de atuação das instituições tradicionais e abrindo a possibilidade de solucionarmos antigos problemas de inclusão financeira e acesso à produtos e serviços no país, por meio da atuação de agentes totalmente novos e modelos de negócios que ainda não conseguimos visualizar claramente no momento (e que estão sendo possibilitados pelos avanços regulatórios, culturais e tecnológicos que acontecem nesse exato momento).

Players de fora do segmento financeiro também marcarão mais presença no jogo dos serviços financeiros digitais, em um cenário no qual iremos consumir com mais frequência ofertas de varejistas, empresas de telecom e empresas de tecnologia, anteriormente feitas apenas por fintechs e bancos. E os próprios bancos, muitas vezes, proverão infraestrutura para esses outros players, possibilitando sua atuação nessa nova arena. A atividade de BaaS (Banking as a Service) deve se intensificar e tornar uma fonte de recursos e atividade importante para alguns bancos, sobretudo para aqueles de pequeno e médio porte no país. No exterior isso já pode ser visto nas parcerias forjadas entre empresas como Amazon e JP Morgan, Apple e Goldman Sachs, e Google e Citibank.

Será o começo de uma nova década de transformações, possivelmente a mais acelerada de todas, após cerca de 6 anos de movimentos continuados que nos trouxeram até aqui. Definitivamente teremos novos e emocionantes anos pela frente!

*Bruno Diniz, especialista em Fintech, é cofundador da Spiralem (consultoria especializada em inovação para o mercado financeiro), head do Comitê Fintech da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) e professor de fintech na Fundação Getúlio Vargas e no MBA da Universidade de São Paulo (USP)

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