Peritos dizem a Temer que não aceitam ‘retrocesso’ na independência da PF

Peritos dizem a Temer que não aceitam ‘retrocesso’ na independência da PF

Em nota pública, após presidente mandar abrir inquérito sobre suposto 'vazamento' de informações sigilosas, entidade dos peritos criminais federais destaca que 'o gargalo do combate ao crime no Brasil está nos crimes que não ocorrem em flagrante'

Fábio Serapião/BRASÍLIA e Luiz Vassallo

28 de abril de 2018 | 05h24

Michel Temer. Foto: Dida Sampaio/Estadão

temer

Os peritos criminais federais reagiram enfaticamente às declarações do presidente Michel Temer que atribuiu a integrantes da corporação ‘vazamentos’ de informações sigilosas do inquérito que o investiga por suposto favorecimento a empresas do setor portuário. O presidente disse que é alvo de ‘perseguição criminosa disfarçada de investigação’.

“O Brasil teve, nos últimos anos, um grande avanço no esforço de combate à corrupção”, assinalam os peritos por meio de sua entidade de classe, a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais.

A nota dos peritos não cita Temer, mas foi divulgada logo após suas declarações.

Em sua fala, Temer não apontou nomes, mas disse nesta sexta-feira, 27, que os ‘vazamentos’ não têm origem institucional. Ele citou o ‘presidente’ do inquérito – delegado Cleyber Malta.

Temer pediu ao ministro da Segurança Pública Raul Jungmann que investigue o que acredita ser ‘vazamento’ para atingi-lo.

Os delegados federais, também por meio de sua entidade de classe (Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, ADPF), reagiram às palavras do presidente e a ele recomendaram ‘serenidade’.

“É muito comum que investigados e suas defesas busquem, por todos os meios, contraditar as investigações. Entretanto, é necessário serenidade, sobretudo daquele que ocupa o comando do país, para que suas manifestações não se transformem em potenciais ameaças e venham a exercer pressão indevida sobre a Polícia Federal.”

Os peritos não deixaram por menos. “O desafio, neste momento, é avançar ainda mais nas investigações. Por isso, é preciso rechaçar qualquer possibilidade de retrocesso na independência investigativa que tem permitido à Polícia Federal conseguir bons resultados”, declarou Marcos Camargo, presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais.

“O gargalo do combate ao crime no Brasil, hoje, está nos crimes que não ocorrem em flagrante e dependem de investigação para serem elucidados. É o caso do colarinho branco, dos crimes sexuais e dos homicídios”, segue Marcos Camargo.

Os peritos destacam que ‘é fundamental o investimento no desenvolvimento científico da investigação policial focado nas provas dos crimes’.

“Essa é a forma de reforçar a produção da prova material isenta como elemento fundamental dos processos. A perícia criminal indica culpados e também inocentes, dando elementos para que sejam evitados os erros judiciais e mantida a eficiência e credibilidade do sistema de Justiça.”
“Não podemos aceitar, portanto, nenhum retrocesso na independência investigativa da PF.”

LEIA A ÍNTEGRA DA NOTA DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS PERITOS CRIMINAIS FEDERAIS (APCF)

“O Brasil teve, nos últimos anos, um grande avanço no esforço de combate à corrupção. O desafio, neste momento, é avançar ainda mais nas investigações. Por isso, é preciso rechaçar qualquer possibilidade de retrocesso na independência investigativa que tem permitido à Polícia Federal conseguir bons resultados.”

“O gargalo do combate ao crime no Brasil, hoje, está nos crimes que não ocorrem em flagrante e dependem de investigação para serem elucidados. É o caso do colarinho branco, dos crimes sexuais e dos homicídios.”

“Para isso, é fundamental o investimento no desenvolvimento científico da investigação policial focado nas provas dos crimes. Essa é a forma de reforçar a produção da prova material isenta como elemento fundamental dos processos. A perícia criminal indica culpados e também inocentes, dando elementos para que sejam evitados os erros judiciais e mantida a eficiência e credibilidade do sistema de Justiça.”

“Não podemos aceitar, portanto, nenhum retrocesso na independência investigativa da PF.”
Marcos Camargo, presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF)

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