Perdemos a paixão pelo Brasil?

Perdemos a paixão pelo Brasil?

Tarsia Gonzalez*

21 Julho 2018 | 10h00

Tarsia Gonzalez. FOTO: Christoph Reher

Eu acredito que esta seja a principal pergunta que devemos nos fazer em um ano de eleições presidenciais. Onde estão as pessoas realmente apaixonadas pelo Brasil?

Como brasileiros, nos unimos em um único coro pela Copa do Mundo, que acabamos não trazendo para casa. Agora, é a hora de nos unirmos novamente, em busca dos corações apaixonados que podem reerguer o nosso país. Olhar para o passado não adianta mais, precisamos olhar para o presente e, com braço forte, construir um novo país. Mas será que ainda nos sentimos capazes? Ou nossas seguidas decepções nos fizeram perder a confiança em nossa força como pátria, como um conjunto em busca de um mesmo ideal?

Se olharmos para o exemplo do futebol, vimos países com muita história no esporte e que foram para casa antes de nós tendo seus jogadores recebidos com louros em casa. Apesar de terem sido aplaudidos no aeroporto, nossos meninos do futebol sofreram, e sofrem, duras críticas. Não é difícil ouvir um “estão jogando lá fora, já não tem amor pelo Brasil”, como se essa realidade não fosse comum a todas as outras seleções.

E eu questiono: ao vestir a camisa verde e amarela, alguém consegue ficar impune? Alguém consegue deixar de se sentir brasileiro, será que chegamos a esse ponto? Onde está a paixão pelo nosso país? Eu sei, já estamos saturados de tantas notícias sobre corrupções e sobre como o sistema econômico e político do Brasil “funcionava”. Falo assim porque me nego a acreditar que nada vai mudar. Meu coração entristece quando escuto grandes empresários dizerem: “nosso país não tem jeito, tudo vai continuar como está”.

Da mesma forma, quando tomo conhecimento, por notícias, que grandes empresas estão fechando, multinacionais estão deixando o país, que o número de desempregados cresce e que existe uma debandada de recursos financeiros para o exterior. Para mim, essa é a imagem que simboliza nossa perda de paixão pelo Brasil, o fato de que deixamos de acreditar, que os sonhos de milhões de brasileiros estão se esfacelando. É uma situação realmente triste.

Outro dia, me recordei da nossa relação com o país, com a pátria brasileira na nossa infância, de como me senti feliz quando fui escolhida para hastear a bandeira na hora do hino, na escola. Lembro como se fosse hoje todos cantando “Brasil, um sonho intenso, um raio vívido de amor e de esperança à Terra desce, se em teu formoso céu risonho e límpido, a imagem do cruzeiro resplandece”, e me pus a chorar. Quero de volta essa sensação de orgulho pelo país.

Temos a oportunidade de construir um novo Brasil, para a próxima década e este Brasil que será totalmente diferente de tudo que aconteceu nos últimos 50 anos, em termos de sociedade, política, um país de transformação. Mas precisamos, para isso, de líderes apaixonados e com valores para continuarmos lutando por uma realidade sócio econômica sustentável. Com duas décadas de experiência em gestão de pessoas, à frente de uma das principais empresas de transporte de cargas do País e prestes a lançar meu primeiro livro, posso dizer com todas as letras: é possível.

É preciso, para voltarmos a ter um crescimento maduro e sólido, organizar a casa. Temos muito trabalho a fazer para sairmos da crise rumo ao sucesso. Precisamos de uma estratégia quase milagrosa para a retomada de mercado, acabar com a arrogância política que nos levou ao atual declínio econômico. Precisamos de humildade, de novos nomes para atender a tantas demandas, de líderes que conquistem novamente a confiança da família Brasil.

Fazemos parte de uma família gigante e brasileiro é nosso sobrenome. Então, aqueles que escolhemos como líderes são como nossos pais. São exemplos que nos direcionam em nossas escolhas e caminhos, mas pais ausentes e preocupados apenas consigo mesmos formam famílias despreparadas, que não sabem para onde ir, não têm mais a confiança necessária para tomar decisões assertivas. É assim que estamos nos sentindo, a tão pouco tempo das eleições.

É vital para nós, brasileiros, encontrarmos esses líderes com caráter e honra, e humildade suficiente para entenderem que podemos, com respeito e ética, reerguer de forma apaixonada nosso país e construir um legado de honestidade e justiça para as próximas gerações. Por isso sigo investindo na conversa com a juventude, na impulsão da confiança em novas lideranças, trabalhar esses jovens para que sejam adultos melhores do que nós somos, A única solução é olhar para o futuro e promover a gestão da emoção, só quando começarmos a olhar para dentro e também para as novas gerações, reiniciando uma educação de líderes, é que poderemos ter alguma esperança de uma real mudança para o futuro.

Você deve estar se perguntando: mas, por onde devemos começar? Diante do verdadeiro caos a que chegamos, o grande segredo para novos líderes serem capazes de realizar as mudanças necessárias é a gestão da emoção. Por que acredito nisso? Porque estamos todos intoxicados de uma realidade muitas vezes cruel, quase sempre difícil, a ponto de termos criado barreiras emocionais que nos impedem de pensar no coletivo, de nos vermos como uma nação.

Por outro lado, temos uma geração inteira de pessoas que não foram educadas para lidar com a adversidade, tanto que vemos filhos de grandes líderes que não souberam levar adiante o legado de seus pais. Só a retomada da gestão da emoção, o reforço no caráter, a educação de pessoas resilientes e valorosas pode promover uma reflexão coletiva e uma ação conjunta para a sociedade.

*Tarsia Gonzalez, psicóloga especializada em alta performance em liderança

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