Pelé, a nossa esfinge

Pelé, a nossa esfinge

José Maria Santos*

24 de outubro de 2020 | 12h20

José Maria Santos. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

No transcorrer do ano de 1971, quando iniciou a série de jogos que marcava sua despedida da Seleção Brasileira, sacramentando sua ausência na Copa de 1974 na Alemanha, Pelé foi convocado pelo Presidente Emilio Garrastazu Médici para uma reunião em Brasília. Era a derradeira pressão de uma poderosa campanha que tentava demovê-lo da intenção para salvaguardar, no caso, os interesses políticos do regime militar. A conquista de uma Copa do Mundo, após o tricampeonato de 1970, colocaria, internamente, a nação em berço esplêndido e, no exterior, poderia mitigar a ruidosa e incômoda campanha contra nossas supressões democráticas que prejudicavam nossos interesses externos. O Rei foi acompanhado por Júlio Mazzei (1930-2009), preparador-físico do Santos FC e uma espécie de íntimo dele. (Mazzei ainda não foi suficientemente reconhecido pelo País. Tornou-se um dos pioneiros na produtiva revolução do nosso preparo físico, indispensável para chegarmos ao penta em 2002 e sustentava seus procedimentos com uma integridade à toda prova; aliás, tal qualificação respondeu pela aproximação estreita de Pelé até sua morte). Ouvi da boca de Mazzei a narrativa que se segue.

No palácio – escapa-me da memória se era o Planalto ou Alvorada – havia uma mesa que “era a maior que já vi”. Na sua cabeceira se colocava o Presidente Médici, pelas duas bordas se concentravam os ministros, com apenas uma cadeira vazia ao centro, que estava reservada a Pelé. A duração do encontro foi bem aquém da pesada solenidade instalada. O Presidente abriu o encontro com o apelo candente para retornar à Seleção em nome da Pátria e de milhões de corações brasileiros. Pelé respondeu mais ou menos nesses termos, conforme relatou-me Mazzei. Presidente: coloque-se no meu lugar. Eu tomei uma decisão da maior gravidade e importância diante do Brasil, tive razões longamente refletidas para tanto, de modo que seria leviandade voltar atrás. A legitimidade da justificativa fez apenas o Presidente concordar com a cabeça. (Mais tarde o próprio Pelé me diria que um dos motivos para abandonar o futebol em 1974, quando todos apostavam na continuidade, se deveu à percepção de que, embora conseguisse imaginar e planejar jogadas, o corpo não obedecia com a qualidade necessária. Supus, talvez acertadamente, que ele já havia percebido os primeiros sinais, ainda leves naqueles idos de 1971. Hoje ocorre-me uma comparação: a diva Maria Callas não pisaria no palco do Teatro Scala, de Milão, caso carregasse a mesma incerteza, não importa o quanto lhe pagassem ou aplaudissem.

Pelé durante a Copa de 70. FOTO: DOMICIO PINHEIRO/ESTADÃO

Este episódio permite afirmar que Edson Arantes do Nascimento, apesar da sua imensa popularidade junto ao nosso povo, continua sendo pouco conhecido pelos brasileiros. Eu afirmaria que ele continua passando por nós como uma esfinge não decifrada, pois é olhado somente como um sujeito que soube meter gols incríveis, para usar uma linguagem de boleiros. Porém, o seu profundo carisma e a coerência férrea dos seus comportamentos na vida pessoal e profissional, não importa se aplaudam ou não, o esforço permanente de repudiar um dos traços mais profundos da cultura brasileira – o “jeitinho” e o compadrismo – sugerem que há muita azeitona debaixo do angu.

(Certa vez, quando ainda não havia a Rodovia dos Imigrantes, eu subi com ele a serra.

Pelé estava no banco de trás; ao seu lado, José Forno Rodrigues, o Pepito, que está com ele desde 1969 e que merece entrar no Guinness como o assessor mais longevo em atividade. As pessoas que vinham atrás reconheciam Pelé pela nuca, emparelhavam seus carros e acenavam festivamente. Quando demos conta, iniciava-se um congestionamento na pista da esquerda.

*José Maria Santos, jornalista, titular da cadeira 13 da Academia Paulista de História, membro do Conselho consultivo do CIEE- Centro de Integração Empresa Escola, ensaísta e já ganhador do Prêmio Esso de jornalismo

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