Paulinho ajudou Temer a tirar MST de fazenda de amigo ‘coronel’

Paulinho ajudou Temer a tirar MST de fazenda de amigo ‘coronel’

Ricardo Saud, delator da JBS, contou ter ouvido de deputado do Solidariedade pedido de ajuda de presidente para remover invasores de propriedade rural que invasores dizem ser do peemedebista; 'deu a entender que era dele'

Ricardo Brandt, Luiz Vassallo, Marcelo Godoy, José Maria Tomazela e Julia Affonso

03 de junho de 2017 | 05h00

O delator Ricardo Saud, lobista do Grupo J&F no Congresso, afirmou em seu depoimento à Operação Lava Jato que ouviu do deputado Paulo Pereira da Silva (Solidariedade-SP) que o presidente Michael Temer (PMDB) pediu ajuda a ele para retirar membros do MST que invadiram uma fazenda do amigo João Baptista Lima Filho – suposto recebedor de uma caixa com R$ 1 milhão, em 2014 -, em Duartina, interior de São Paulo.

“O Paulinho uma vez me contou… ah, falando no coronel, pô, aquele coronel, ele é dono de uma fazenda que foi invadida uma vez, e o Paulinho me contou que o presidente Michael Temer chamou ele uma vez e falou ‘pô Paulinho, invadiram a fazenda lá véio, tem que tirar o povo de lá. Você tem que tirar o povo de lá'”, narrou Saud, aos procuradores da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Procurado, o deputado confirmou que foi acionado por Temer e que atuou para resolver o conflito, sem qualquer irregularidade.

Coronel reformado da Polícia Militar, Lima é sócio da Argeplan Arquitetura e Engenharia, empresa que teve a sede, na Vila Madalena, em São Paulo, vasculhada pela Policia Federal, no dia 18, quando foi deflagrada a Operação Patmos, desdobramento da Lava Jato, que encurralou Temer e o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG).

O endereço da Argeplan foi apontado pelos delatores como local da entrega da propina de R$ 1 milhão, em benefício de Temer. o valor seria parte dos R$ 15 milhões que foi destinado ao peemedebista pela JBS da conta-corrente Dilma. o valor era para comprar apoio dos aliados do partido.

Invasão. A Fazenda Esmeralda foi invadida também em 9 de maio de 2016, por cerca de 800 integrantes do MST. Na ocasião, Temer negou, via assessoria de imprensa, ser proprietário de qualquer propriedade rural.

O MST alegou na época, existirem indícios de que a fazenda teria Temer como sócio oculto.

“Então o Temer chamou o Paulinho, falou ‘Paulinho, chama o José Rainha lá, o pessoal que você conhece e vai lá tirar esse pessoal de lá'”, disse o delator da JBS. (Ouça a partir dos 20 minutos)

“Deu a entender, inclusive, que a fazenda era dele, não posso provar isso. Mas se o dinheiro foi lá para o coronel, o coronel e o dono da fazenda, quer dizer, deixou um preâmbulo aí…”

Saud afirmou que Paulinho da Força teria ido até a fazenda na ocasião. “Estava o José Rainha, todo mundo… O Movimento Sem Terra que invadiu.”

Os investigadores perguntaram se o presidente Temer teria pedido para Paulinho tirar os sem-terra da propriedade do amigo.

“Pediu ajuda a ele para tirar os manifestantes de lá, tirar a invasão, porque ele tinha muito interesse nesse assunto, que não podia deixar a fazenda ser invadida.”

“E o Paulinho conseguiu ajudar?”, questionou o investigador.

“Tirou todo mundo de lá.”

Saud afirma que Paulinho é “seu amigo pessoal” e se sente a vontade  para falar dele.

Propriedade. A fazenda não pertence a Temer, segundo os registros oficiais. A Esmeralda, que tem reflorestamento de eucalipto e área de criação de gado, não faz parte da relação de bens declarados pelo presidente à Justiça Eleitoral em 2014, quando concorreu à reeleição como vice na chapa da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Na ocasião, Temer declarou um patrimônio de R$ 7, 5 milhões, composto principalmente pela Tabapuã Investimentos e Participações, que administra os imóveis que ele possui na capital paulista, entre eles dois apartamentos e um prédio residencial.

O imóvel está registrado em nome da Argeplan e do amigo de Temer, que é frequentador da fazenda e é conhecido em Duartina como “Coronel Lima”.

O investigado conheceu Temer nos anos 1980, quando o presidente ocupou pela primeira vez o cargo de secretário da Segurança Pública de São Paulo, durante o governo de Franco Montoro (1983-1987), então no PMDB. Aspirante a oficial na turma de 1966 da Academia da PM, Lima trabalhava na Assistência Militar da pasta.

Depois que Temer deixou a secretaria, Lima foi trabalhar na área responsável por obras na corporação – foi o tempo em que se construiu o Hospital da PM, na zona norte, e o centro administrativo. Em 1992, quando Temer voltou à pasta após o massacre do Carandiru, Lima voltou a trabalhar com o amigo. Já coronel e formado em arquitetura, ficou em um cargo na Secretaria de Segurança Pública.

Suspeitas envolvendo o nome de Lima surgiram na Lava Jato em 2016. Segundo as investigações, de 2011 a 2016, durante o período em que Temer ocupou a Vice-Presidência, a Argeplan do coronel recebeu R$ 1,1 milhão por serviços em uma ferrovia e uma estrada federal, além de obter contratos na Secretaria de Aviação Civil e na usina nuclear de Angra 3.

Nova invasão. Na semana passada, a Fazenda Esmeralda foi novamente invadida. Integrantes da União Nacional Camponesa (UNC) ocuparam a propriedade no dia 22. De acordo com a Polícia Militar, cerca de 300 sem-terra provenientes da região de Bauru romperam o cadeado do portão e ocuparam a propriedade.

Um porta-voz da UNC informou que a mobilização é nacional e pede a saída do presidente Temer. Para a entidade, o presidente é sócio oculto da propriedade, registrada em nome da empresa Argeplan e de seu sócio, o ex-coronel da PM Lima Filho.

Em 2016, Kelly Mafort, da direção nacional do MST, afirmou que um envelope endereçado a Temer encontrado no local e a “voz corrente na cidade” de que o peemedebista é dono da fazenda merecem, por si só, uma investigação. “A situação é análoga ao sítio de Atibaia, que foi atribuído ao ex-presidente Lula com base nos mesmos indícios, com a diferença de que aqui são 1.500 hectares”, disse.

Na delação da JBS, foi entregue à PGR um dossiê sobre o “Coronel Lima”. O documento diz que Lima e a Argeplan são proprietários de uma fazenda em Duartina, no interior de São Paulo, que foi invadida duas vezes pelo Movimento dos Sem-Terra (MST).

Intitulado Relatório Argeplan, o documento da JBS afirma que a empresa foi aberta em 1976. Era então “um pequeno escritório de arquitetura em nome de Carlos Alberto Costa”. Em 2011, Lima teria sido admitido na empresa com um capital de R$ 250 mil.

COM A PALAVRA, O PRESIDENTE MICHEL TEMER

Procurado por meio de sua assessoria de imprensa, o presidente Michel Temer não quis comentar o caso. Em outra ocasião, ele informou, via assessoria de imprensa, que não é proprietário de qualquer propriedade rural.

COM A PALAVRA, A ARGEPLAN

A Argeplan informou que todas as áreas da propriedade são da empresa e do sócio João Baptista Lima Filho. Em nota, a empresa informou que o imóvel rural foi regularmente adquirido a partir de 1986 e “todas as atividades nele desenvolvidas são produtivas, respeitando o meio ambiente e as relações de trabalho”.

Na semana passada, a empresa informou, por telefone, que seus diretores ainda buscavam informações sobre a nova invasão.

COM A PALAVRA, PAULO PEREIRA DA SILVA, O PAULINHO DA FORÇA

O deputado federal Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, presidente do Solidariedade, confirmou que foi chamado pelo presidente Michel Temer para “solucionar um conflito”.

“Faz parte da função de sindicalista solucionar disputas. Eu fui chamado e atuei”, afirmou o deputado.

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