Paternidades: tempo de agir!

Paternidades: tempo de agir!

*Daniel Costa Lima

07 de setembro de 2019 | 10h23

Daniel Costa Lima, Psicólogo, Mestre em Saúde Pública e Consultor do Instituto Promundo. Foto: Divulgação / Assessoria de Imprensa

Com no mínimo 50 anos de atraso, parece que finalmente uma parcela dos homens brasileiros decidiu embarcar no processo de reflexão e transformação que vem sendo trilhado por tantas mulheres. Mesmo que de forma ainda titubeante, um número cada vez maior deles tem buscado se opor ao machismo e aos papéis estereotipados de gênero, algo que tem reverberado no crescente debate sobre as paternidades.

Antes passada de geração a geração sob um manto de silêncio e autoridade – muitas vezes exercida com violência –, a paternidade como a conhecíamos se vê hoje fragilizada, e isso é positivo. Apesar da insegurança que surge com todo processo de mudança, o que temos observado na presente geração é o deslocamento de um modelo de paternidade extremamente rígido e demasiadamente focado no papel de provedor, para um que acolhe e incentiva diversas formas de exercer as paternidades, no plural.

Sendo essa uma questão eminentemente social e cultural, é fundamental que ela não se restrinja às famílias e aos pais ou outros homens que exercem a função de cuidado. Nesse sentido, é um alento que algumas políticas públicas tenham se debruçado sobre o tema, como as voltadas à saúde dos homens e à primeira infância, e algumas empresas também. Enquanto isso, instituições da sociedade civil e a academia, com destaque para as universidades públicas, têm proporcionado uma constante oxigenação desse campo de conhecimento através de suas pesquisas e iniciativas.

Chegamos assim a uma situação em que a antes encastelada paternidade se tornou tema recorrente de debate e objeto de interesse da mídia e da publicidade, o que tem bônus, mas também alguns ônus.

Por um lado, como mencionado acima, tal reflexão chega com mais de meio século de atraso e, por isso, com certa urgência. Por outro, é preciso estar atento aos significados de uma valorização superficial e acrítica da paternidade, sob o risco de se aplaudir homens/pais por fazerem coisas que as mulheres/mães sempre fizeram de graça e com pouco reconhecimento.

Assim, para que as alardeadas “novas paternidades” e “novas masculinidades” não sejam apenas versões mal recauchutadas das originais, esse crescente debate deve ser atrelado a uma leitura critica sobre as relações de gênero e ter como meta a superação das desigualdades de gênero. Além disso, para que possamos de fato contribuir para um cenário de mudança com maior justiça social e bem-estar para todas/os, é preciso estreitar laços e aprender com os movimentos feministas, negros e LGBTQI+, dentre outros.

Uma das ações que mais tem contribuído para essa revisão crítica das paternidades é a campanha MenCare, que está presente em mais de 50 países e é coordenada no Brasil pelo Instituto Promundo. Em 2015, a MenCare lançou o relatório “A Situação da Paternidade no Mundo” (State of the World’s Fathers), que era aberto da seguinte forma: “Pais são importantes. As relações pai-filho/a têm impactos profundos e abrangentes sobre as crianças que podem durar por toda uma vida”.

Em 2016, o Promundo lançou a primeira versão brasileira desse relatório, que assim como o global, buscava reunir informações sobre “onde estávamos” e “o que sabíamos” sobre o impacto positivo de um maior engajamento dos homens – sejam eles pais biológicos ou não – para a saúde materno-infantil, o desenvolvimento infantil, o empoderamento das mulheres e a saúde e o bem-estar dos próprios homens.

Em 2017, a rede MenCare voltou a sua atenção para o que efetivamente precisa ser feito para garantir que os homens/pais contribuam para acelerar as mudanças necessárias em direção à igualdade de gênero, e foi seguindo essa trilha que o Promundo lançou o relatório “A Situação da Paternidade no Brasil 2019: Tempo de Agir”.

O relatório indica a expansão e o fortalecimento desse importante debate, no entanto, também ressalta a existência de obstáculos que enfraquecem a capacidade de pais e mães brasileiros/as de cuidar de seus/uas filhos/as.

Pesquisa inédita do Promundo e Dove Men+Care lançada no relatório reforça que há uma grande lacuna entre o desejo de fazer tudo o que for possível para estar próximo aos/às filhos/as durante o início de suas vidas – apontado por 82% dos pais entrevistados – com a realidade, quando apenas 1/3 dos que tinham direito à licença paternidade a tiraram na íntegra. A pesquisa também joga luz sobre alguns dos obstáculos referidos acima, mostrando, por exemplo, que a insegurança econômica e o medo de perder o emprego são as principais barreiras para que homens e mulheres gozem de suas licenças integralmente.

Para estimular o avanço, a campanha MenCare lançou este ano o Compromisso Homens Cuidam, que visa promover um ambiente favorável onde os homens assumam 50% do trabalho de cuidado não remunerado até 2030. O compromisso também ajuda os pais a colocarem suas intenções de cuidado em ação ao realizar, no mínimo, um adicional de 50 minutos de trabalho de cuidado por dia.

Chegou a hora dos homens de fato fazerem tudo o que está ao seu alcance e que forma melhor do que assumindo o compromisso de realizarem 50% das tarefas de cuidado? Chegou a hora do Estado, das empresas e de outras instituições deixarem de representar obstáculos e se tornarem facilitadores da igualdade de gênero, fortalecendo assim a economia do país e o bem-estar de crianças, mulheres e homens.

*Daniel Costa Lima, Psicólogo, Mestre em Saúde Pública e Consultor do Instituto Promundo

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