Patentes e ações: o impacto dos ativos intangíveis no valor de mercado das empresas

Patentes e ações: o impacto dos ativos intangíveis no valor de mercado das empresas

Leandro Alcântara*

14 de dezembro de 2020 | 05h30

Leandro Alcântara. FOTO: DIVULGAÇÃO

Há relação entre patentes e as ações de uma empresa?

Para responder esta questão o artigo analisa o impacto que as patentes podem ter no valor de mercado das empresas; considerando que o valor de mercado é o valor de cada ação multiplicado pelo número de ações.

Para começar as discussões, é fato notar uma maior disseminação da cultura de investimentos em ações no Brasil que, apesar de ainda incipiente, nunca esteve em patamares tão elevados. Hoje, as pessoas compreendem que analisar os fundamentos de uma empresa é essencial para investir; devemos estar atentos a diversos fatores, como nível de governança, saúde dos balanços e grau de inovação. E falando em inovação é que começamos notar a relação entre patentes e o valor de mercado de uma empresa.

Vivemos a era da chamada sociedade do conhecimento na qual ativos de propriedade intelectual, como as marcas e as patentes, estão entre os protagonistas. Estes ativos compõe a classe dos denominados ativos intangíveis.

Mas afinal, o que é um ativo intangível?

Uma vez que estamos tratando de empresas, para responder esta questão, o ideal é verificar regras contábeis. De acordo com o pronunciamento técnico CPC 04 (R1), os ativos intangíveis são elementos patrimoniais não monetários, identificáveis sem substância física, controlados, geradores de benefícios econômicos futuros atribuíveis e mensuráveis com confiabilidade. São, de forma simplificada, itens associados a investimentos em inovação científica e tecnológica e aqui se enquadram as patentes.

Para termos mais clara a noção do impacto dos ativos intangíveis na economia real e no valor das empresas, vejamos índices históricos de uma grande economia, como os Estados Unidos.

No S&P 500, que é um índice do mercado de ações que reúne as 500 maiores empresas do mundo listadas e domiciliadas nas principais Bolsas de Valores dos Estados Unidos, a NYSE e a Nasdaq, o valor de estimado dos ativos intangíveis em 2018 era de 21 trilhões de dólares, o que equivale a aproximadamente 84% do valor das 500 empresas listadas.

Vemos que o valor de mercado das empresas listadas no S&P 500 é, fundamentalmente, composto por ativos intangíveis.

Mais um exemplo notório que reforça a relevância dos intangíveis, em especial as patentes, se encontra na aquisição da Motorola pela Google em 2011, na qual o valor da negociação foi de 12,5 bilhões de dólares. No entanto, pouco tempo depois, em 2014, a Google vendeu a Motorola para a chinesa Lenovo por menos de 3 bilhões de dólares.

Péssimo negócio? Onde foram parar os 9,5 bilhões? A venda de ativos diversos da antiga Motorola tornou a negociação vantajosa para a Google, porém é fato a empresa manteve as patentes da Motorola, que eram avaliadas em cerca de 5,5 bilhões de dólares. A valoração de patentes é algo complexo, mas é incontestável a partir deste exemplo que uma gigante dispendeu bilhões de dólares por ativos intangíveis de tecnologia.

Isso mostra que o maior valor de fusões e aquisições pode estar em ativos intangíveis, como patentes!

Mais um exemplo do valor dos ativos intangíveis vem do setor farmacêutico, um dos setores indiscutivelmente reconhecido por investir em inovação.

No início da década de 1990, a Pfizer possuía vasto pipeline de ideias sobre potenciais remédios, porém tais ideias não possuem valor de mercado e não podem constar como ativos em balanços, mesmo porque, dado o risco de espionagem industrial, estes pipelines são apenas conhecidos pela alta gestão das empresas. Em 1993, a empresa era avaliada em 53,5 bilhões de dólares.

Em 1997, a empresa realizou o anúncio de um dos medicamentos mais vendidos de todos os tempos, o Lipitor. A combinação do sucesso de vendas com as patentes vigentes fez com que, em apenas dois anos, o valor de mercado da empresa chegasse a 290,4 bilhões de dólares e as ações se valorizassem mais de 200% no período.

A queda das patentes do Lipitor ocorreu no final de 2011, e mesmo com amplo portfólio de produtos, o lucro da Pfizer caiu 19% no primeiro trimestre daquele ano.

É notável o poder da economia do conhecimento em que o impacto direto de patentes no valor de mercado de uma empresa é imenso.

Podemos afirmar, mesmo que como hipótese restrita a um grupo de corporações que, uma empresa detentora de um portfólio de patentes possui expectativa de geração de valor futuro maior do que uma semelhante que não possui estes ativos intangíveis.

Não obstante, um bom portfólio de patentes pode ser gerador de caixa por meio de royalties, gerador de valor em caso de insolvência, amplificador de exposição à ativos não imobilizados, garantidor de market Share, apenas para citar algumas vantagens competitivas.

Portanto, a reposta para a pergunta inicial é sim; os ativos intangíveis, em especial as patentes, possuem influência no valor das ações e, consequentemente, no valor de mercado de uma empresa.

E, para finalizar, uma questão para os leitores: você optaria por aportar recursos em empresas detentoras ou desprovidas de patentes?

*Leandro Alcântara, especialista de Patentes da Daniel Advogados

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