‘Passo para o papai?’

‘Passo para o papai?’

Em relatório que indicia o presidente Michel Temer (MDB) e outros dez investigados, delegado da PF afirma que e-mails e mensagens de celular contradizem Maristela Temer e justificativas da filha do emedebistas são frágeis

Fabio Serapião/BRASÍLIA e Julia Affonso

17 de outubro de 2018 | 16h41

Em relatório que indicia o presidente Michel Temer (MDB), a Polícia Federal afirma que as justificativas apresentadas por sua filha, Maristela Temer, sobre a reforma em seu imóvel são ‘frágeis’ e que e-mails e mensagens de celular contrariam seu depoimento. Pai, filha e outros 9 investigados foram indiciados pela PF por corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Um trecho do relatório aborda as obras na casa de Maristela Temer, em São Paulo, entre 2013 e 2015. A reforma foi avaliada entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões.

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O imóvel, segundo o relatório, foi reformado pelo coronel reformado da Polícia Militar João Baptista Lima Filho, o coronel Lima. Segundo a PF, o amigo de Temer ‘colocou toda a estrutura da empresa Argeplan à disposição do serviço, encarregando Maria Rita Fratezi, sua esposa, de aquisição de parte do material e fornecedores’. O coronel Lima está proibido pelo Supremo de deixar o País.

“Não há dúvidas que a reforma custou entre 1,5 e 2 milhões de reais, contrapondo-se às informações prestadas por Maristela Temer, a qual afirmou ter gastado apenas cerca de 700 mil reais na reforma, sem também apresentar qualquer comprovante de tais pagamentos ou ressarcimentos para Maria Rita Fratezi”, relata a PF.

“A maior parte das justificativas prestadas por Maristela Temer em oitiva se mostraram frágeis diante dos demais elementos que indicam a gestão completa das obras por Lima/Maria Fratezi, também não sendo possível acreditar que eventual gasto de mais de 1 milhão de reais, além das possibilidades financeiras de Maristela Temer, (diferença entre o que ela disse ter gasto e o valor estimado da obra) possa ter sido executado sem autorização ou anuência de Maristela sobre tais gastos.”

No relatório, o delegado da PF Cleyber Malta Lopes aponta que ‘mensagens extraídas do celular’ da mulher do coronel Lima e ‘outras obtidas por meio de afastamento de sigilo telemático indicam que o senhor Presidente estava não apenas acompanhando a reforma do imóvel da filha, como também estava sendo informado quanto aos custos das obras’. Na avaliação do investigador, as mensagens ‘contraria a versão de Maristela Temer, em depoimento’.

O delegado destacou algumas mensagens trocadas entre Maristela e a mulher do coronel Lima. Em 15 de julho de 2014, Maria Rita Fratezi escreveu à filha de Temer.

“Olá, Maristela, te enviei por mail os descontos da indusparquet. Bj. Rita.”

Maristela responde em seguida. “Ok. Passo para o papai?”

“Passei os preços para João, que disse que vai aprovar com ele. Fica bem assim?”, pergunta a mulher do coronel.

“Claro! Obrigada!”, retorna a filha do presidente.

Para o delegado, a ‘mensagem não deixa dúvidas que Michel Temer de fato estava acompanhando as obras do imóvel de Maristela, inclusive os custos, contrariando o que foi dito pela filha, em oitiva, onde faz questão de destacar ‘que seu pai senhor Michel Temer, não auxiliou com nenhuma parte dos recursos que a depoente utilizou para custear a obra em sua residência’’.

“E, mais uma vez, contradiz o próprio Presidente Michel Temer, quando lhe foi oportunizado responder se já havia realizado negócios comerciais ou de qualquer outra natureza com João Baptista Lima Filho, tendo respondido negativamente”, afirmou o delegado.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE TEMER

O advogado Brian Alves, responsável pela defesa do presidente, disse que não se manifestaria porque não teve acesso ao relatório da Polícia Federal.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE ROCHA LOURES

O advogado Cézar Bittencourt, que defende Rodrigo Rocha Loures, também disse que não teve acesso ao relatório policial e, portanto, ‘não há como se manifestar globalmente’.

“No entanto, nesse inquérito, Rocha Loures não estava sendo investigado pelos crimes organizado e lavagem de dinheiro. Mas, certamente, não há elementos para a PGR oferecer denúncia contra Rocha Loures”, afirmou o advogado.

COM A PALAVRA, A DEFESA DO CORONEL LIMA

Por meio de nota, os advogados Maurício Leite e Cristiano Benzota, responsáveis pela defesa do coronel João Baptista Lima Filho, o coronel Lima, disseram estar ‘perplexos’ com o pedido de prisão feito pela Polícia Federal. Segundos os advogados, o coronel está ‘afastado de suas atividades profissionais e, permanentemente, em sua residência cuidando da saúde’. “Sempre foram apresentadas todas as informações solicitadas pelas autoridades, por intermédio de sua defesa, o que torna o pedido de prisão desprovido de fundamento legal”, afirmam os defensores.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE ANTÔNIO CELSO GRECCO

O criminalista Fábio Tofic Simantob, que defende o empresário Antônio Celso Grecco, disse que ainda não conhece os fundamentos da Polícia Federal para o indiciamento. “Ainda não tivemos acesso ao relatório de indiciamento para saber quais são os fundamentos, os fatos nos quais eles se baseiam. Então, assim que tivermos acesso ao relatório vamos nos manifestar.”

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