Páscoa: tensão entre vida e morte

Páscoa: tensão entre vida e morte

Gerson Leite de Moraes*

11 de abril de 2020 | 13h00

Gerson Leite de Moraes. FOTO: DIVULGAÇÃO

A semana da Páscoa começou muito difícil para mim, pois ainda no domingo à noite, recebi a informação de que um ex-aluno, casado, pai de família e cheio de sonhos para si e seus filhos, um deles, aliás, recém-nascido, veio a falecer, vítima da covid-19. Não houve velório, o caixão lacrado mostrava a violência da pandemia que assola a humanidade. Na medida em que os que tombam vencidos pelo coronavírus são rostos conhecidos, conseguimos compreender claramente que não se trata de uma simples “gripezinha” ou um “resfriadinho”.

Devido à monotonia imposta pelo confinamento, muitas pessoas não se lembram, mas estamos comemorando mais uma Páscoa, uma data importante para a religião cristã e que nos impõe a reflexão sobre a tensão entre vida e morte.

A Páscoa, desde que iniciada pelos judeus, no processo de saída do Egito até a sua ressignificação na morte e ressurreição de Jesus Cristo, sempre abordou os dois lados desta moeda, pois vida e morte sempre caminharam juntas. A filosofia, a religião, a literatura, a cultura em geral, sempre refletiram a respeito da finitude da vida.

Na filosofia, Epicuro assim se referiu à tensão entre vida e morte. “Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos”. Na religião, o catolicismo, na tentativa de superar a tensão e ainda gerar esperança para os vivos, desenvolveu a doutrina da crença no purgatório e a proteção de Nossa Senhora do Carmo, pois após o momento da morte, principalmente para aqueles que levassem consigo o santo escapulário, haveria mais uma oportunidade para superar aquela situação de privação. Jacques Le Goff afirmou com precisão que o maior teólogo da história do purgatório foi Dante Alighiere, com a sua Divina Comédia, que refletiu como ninguém a dolorosa peregrinação no pós-morte. Até mesmo na música popular brasileira encontramos profundas reflexões sobre a tensão entre vida e morte. Raul Seixas tem uma música belíssima, intitulada: Canto para Minha Morte, onde ele diz: “Eu sei que determinada rua que eu já passei/ Não tornará a ouvir o som dos meus passos, tem uma revista que eu guardo há muitos anos/ E que nunca mais eu vou abrir./ Cada vez que eu me despeço de uma pessoa/ Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez/ A morte, surda, caminha ao meu lado/ E eu não sei em que esquina ela vai me beijar/ Com que rosto ela virá?”

Páscoa é tempo de pensar na vida e na morte. Não sei se você olhou para o céu nesta semana e viu o esplendor da lua cheia, aliás, este é um fato que acompanha todas as Páscoas, pois as datas pascalinas mudam todos os anos em função do regime lunar. A Páscoa é estabelecida levando-se em consideração o equinócio de outono no hemisfério sul e o equinócio de primavera no hemisfério norte, que acontece no dia 20 de Março, a partir daí, espera-se a primeira Lua Cheia, sendo que o primeiro domingo deste regime lunar é o Domingo de Páscoa. Trata-se do ciclo da vida, todo ano é a mesma coisa e a beleza das noites da semana da Páscoa é algo de encher os olhos, mesmo em tempo de pandemia. Ainda é possível encontrar beleza no caos.

O cristianismo celebra a Páscoa como um momento de vitória da vida sobre a morte. A mensagem é que depois de todo o luto da Sexta-feira da Paixão, sempre virá o Domingo de Páscoa e a vida voltará a sorrir. Desejo isso para você e sua família, amigo leitor. Feliz Páscoa!

*Gerson Leite de Moraes é coordenador do curso de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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