Parque no Minhocão é show de incoerência na administração municipal

Parque no Minhocão é show de incoerência na administração municipal

Janaína Lima*

26 de fevereiro de 2019 | 10h00

FOTO: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

O anúncio da transformação do Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão, em um parque, é só mais uma das diversas polêmicas da atual administração municipal.

Não bastasse a possibilidade de erro no cálculo do reajuste do IPTU para mais de 90 mil paulistanos, na mesma semana a Prefeitura anuncia a desativação do viaduto para a construção do parque linear, sob um custo de R$ 38 milhões.

Não há dúvidas de que a população precisa de áreas de lazer e o Centro precisa ser revitalizado.

Mas esta iniciativa, da forma que está sendo conduzida, é incoerente, no mínimo.

A atual gestão tem grande dificuldade em manter os 106 parques municipais.

Prova disso é que algumas dessas áreas verdes, entre elas, o Parque do Ibirapuera, fazem parte do Plano de Desestatização – cuja Secretaria foi extinta nos últimos dias.

Aliás, não são só os parques que a administração está com dificuldades para manter.

Os viadutos estão caindo aos pedaços.

O lixo toma conta das calçadas.

Uniformes da rede pública chegarão somente em março.

Pacientes estão com dificuldade de atendimento nos ambulatórios, remédios estão em falta nos postos de saúde e a fila de espera para exames continua alta.

Pacaembu é leiloado a preço de banana.

A Vila Itaim, na Zona Leste, fica alagada durante semanas. E não é questão de física, como o prefeito justificou. É questão de matemática, na verdade, porque falta investimento. Uma obra para solucionar aquele problema deveria ter sido entregue em meados de 2018, mas ainda está pela metade.

A pergunta que fica é: um orçamento de R$ 60,5 bilhões é curto para uma cidade como São Paulo ou as administrações cometem sucessivos erros a ponto de fazer tal valor parecer pouco?

É importante lembrar que contratos emergenciais de alto custo com empresas de ônibus, de varrição e outras concessionárias têm sido renovados sucessivamente por anos, além da concessão de milhões em subsídios para o transporte.

Há, ainda, aberrações como a retirada de R$ 12,3 milhões em recursos destinados aos corredores de ônibus para reformas no Autódromo de Interlagos, que também está para ser desestatizado.

Para combater a alegada falta de recursos, por outro lado, a Prefeitura prefere morder o bolso do contribuinte, com aumentos abusivos no IPTU e na tarifa de transporte público, além de reduzir o número de embarques por passagem.

Ou seja, uma sucessão de erros que está afetando negativamente a vida do paulistano. Números mostram que o número de reclamações na ouvidoria da Prefeitura aumentou mais de 60% em apenas um ano.

Há uma série de ressalvas sobre a construção do parque no Minhocão, como a falta de privacidade dos moradores dos edifícios vizinhos e o descaso com os moradores de rua sob o viaduto.

Mas, se ele de fato vier a sair do papel, o mínimo que o cidadão espera é coerência: que este parque seja construído pela iniciativa privada, após uma consulta pública, e criações de uma política de acolhimento aos moradores de rua e de um plano viário ou de mobilidade urbana, para que o tráfego atual seja absorvido de forma sustentável.

Afinal, fazer uma boa gestão é realizar um planejamento e saber equacionar as receitas, despesas e investimentos, o que não parece acontecer neste momento.

*Janaína Lima é vereadora de São Paulo pelo Partido Novo

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