Para onde iremos?

Para onde iremos?

Igor Macedo de Lucena*

05 de novembro de 2021 | 07h00

Igor Macedo de Lucena. FOTO: DIVULGAÇÃO

Outubro de 2020, o mundo começa a se recuperar da pandemia, aviões voltam a voar nos céus do planeta com turistas e empresários, hotéis começam a ocupar seus quartos lotando-os, salas de cinema voltam a receber os blockbusters, planos de investimento começam a sair do papel de nações como os Estados Unidos e a União Europeia. Após a tempestade, o que corre na grande maioria do planeta é o retorno das atividades econômicas com as bolsas de valores subindo, as IPOs (Ofertas Públicas Iniciais, em inglês) voltando a ocorrer e o desemprego começando a diminuir, mas infelizmente essa história não está acontecendo fielmente no Brasil.

Nos últimos meses, o Brasil parece estar envolto em uma espécie de tempestade perfeita, algo que ocorreu em 2016 e que nenhum brasileiro da época gostaria de ver sendo repetido. Sofremos hoje com uma inflação superando os 10% nos últimos 12 meses, o nível de desemprego continua acima dos 14 milhões de desempregados, sofremos com a falta de componentes eletrônicos, o que causa impacto em diversos setores da nossa indústria, o aumento do preço do barril de petróleo a nível mundial e o monopólio da Petrobrás no refino brasileiro ameaçam a ocorrência de um iminente desabastecimento de combustíveis no país; e se tudo isso não fosse suficiente, o Governo Federal decidiu ‘quebrar a regra’ do teto de gastos, indicando aos investidores que não há limites para os gastos do governo, o que resultará em 2022 em mais inflação e taxas de juros cada vez maiores. Talvez a boa notícia é a de que a vacinação está avançando rapidamente, e o número de vítimas da pandemia causada pelo novo coronavírus está, de fato, cada vez diminuindo.

Neste contexto, o cerne deste artigo é uma pergunta do título: para onde iremos? Do mais humilde trabalhador brasileiro até o mais graduado investidor da Faria Lima a pergunta é a mesma: o que irá acontecer com o Brasil a partir de agora? Parece que não há de fato um projeto de país, parece que estamos perdidos ao longo do tempo e do espaço; e quando vemos a Índia, a China, a União Europeia, os Estados Unidos, a Rússia, o Japão, a Colômbia e vários outros ‘atores deste cenário’ apresentando claramente suas metas, seus objetivos, e como irão avançar no pós-pandemia, não nos resta, por enquanto, qualquer visão positiva e confiante em relação ao que verdadeiramente desejamos ser como nação.

De nada adianta deputados, senadores e membros do governo falarem a respeito de Deus, de liberdades individuais, de democracia e de liberdade de expressão, se não estão entregando nenhum objetivo concreto para a melhoria da sociedade no médio e longo prazos. Todos esses valores são importantes, mas se ficarem apenas que nem palavras ao vento, tornar-se-ão banais e nocivos. Agentes públicos são lembrados e julgados pela sua capacidade de entregar resultados, na minha visão, sendo pragmáticos, práticos no trato com a vida e benevolentes com o bolso das pessoas.

Sendo objetivo em minhas colocações, estamos enfrentando um boicote de carne do nosso maior comprador, a China, e não há sinais de que esse boicote irá ser revertido em um curto prazo. Os motivos para isso? A insistência por parte da ala ideológica do governo de criticar constantemente o governo de Pequim, seu embaixador e principalmente o Presidente Xi Jinping de maneira tão radical e incisiva que nem os americanos teriam coragem, pois sabem que boicotes custam empregos, custa faturamento de empresas nacionais e impacta diretamente no bolso das pessoas. Procuro encontrar alguma razão lógica para que tais atitudes tenham sido tomadas, demonstrando uma ideologia política errática, para que possamos ter chegado a esse ponto. Não vejo benefício algum para nosso país, mas sim possíveis problemas futuros e prejuízos em troca de bravatas com palavras arrogantes. Além disso, o presidente americano não nos respeita, líderes europeus nos tratam com desprezo, e neste ritmo ficamos e ficaremos falando com quem?

A bolsa de valores está cada dia mais volátil, os títulos públicos brasileiros já pagam mais de 13% ao ano aos investidores e devem continuar subindo, mostrando uma aversão cada vez maior ao risco e que a economia brasileira está sendo vista com desconfiança até mesmo pelos investidores nacionais. Os BDRs de ações estrangeiras no Brasil passam a se tornar mais negociados na Bovespa, mostrando que o investidor procura cada vez mais retirar das empresas nacionais seus investimentos em renda variável, o que se deduz que esse movimento deverá continuar.

Apresentando este cenário quase que apocalítico sob o ponto de vista econômico, é prevista uma tempestade econômica para 2022 e 2023, e o que mais assusta é que membros do governo do mais alto escalão foram embora, e parece que estamos assistindo apenas aos atuais membros ‘apagarem incêndios’ todos os dias. Não quero que este texto seja visto como uma crítica irresponsável, pois estou aqui relatando fatos que já ocorreram e que estão ocorrendo enquanto escrevo, mas o que mais me preocupa é a falta de praticidade dos agentes e a insensibilidade com as previsíveis consequências dos seus atos.

Seja quem for o Presidente do nosso Brasil em 2023, recolocar o país nos trilhos será uma tarefa hercúlea e deverá começar com uma pacificação nacional e com uma visão pragmática para o que é o melhor para todos. O mais ‘inconsequente’ membro do Itamaraty uma vez afirmou que o Brasil seria um pária se dependesse de sua gestão, e seu breve tempo como Chanceler nos colocou de fora das mais importantes discussões do planeta. Isso definitivamente não pode se repetir. Política e economia são intimamente ligadas e precisamos entender isso a cada dia, pois o impacto de trapalhadas nesses dois flancos recairá direto no bolso de todos, algo a que estamos expostos dia a dia.

Sou brasileiro e torço pelo Brasil, crio meus filhos neste país e quero poder entregar para eles um país com menos inflação, menos desemprego, menos violência, mais oportunidades, melhor Educação, maior integração internacional, mais praticidade na solução de problemas e a visão de mundo de que podemos e devemos ser respeitados. Para isso precisamos começar com o básico: o pragmatismo.

A frase mais pragmática que escutei nos últimos dias foi: “Não importa se o governo é de esquerda ou de direta, importa se ele entrega resultados concretos e positivos para a população.”

*Igor Macedo de Lucena é economista e empresário, doutorando em Relações Internacionais na Universidade de Lisboa, membro da Chatham House – The Royal Institute of International Affairs e da Associação Portuguesa de Ciência Política

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