Para muita gente, a corrupção nunca foi o problema

Para muita gente, a corrupção nunca foi o problema

Kleber Carrilho*

09 de julho de 2021 | 05h00

Kleber Carrilho. FOTO: INAC/DIVULGAÇÃO

Talvez já se tenha falado muito do assunto que trago aqui, mas acredito que sempre é necessário lembrar. Por isso, retomo o tema para que possamos pensar na eleição de 2022 a partir de uma perspectiva clara do que houve em 2018.

Isso porque, quando uma parte da população foi às ruas pedir o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, principalmente entre 2015 e 2016, alguns acreditaram que vivíamos um novo momento: o da valorização da luta contra a corrupção, do estímulo ao trabalho da justiça e dos órgãos de investigação.

A escolha pública de heróis, como o ex-juiz Sérgio Moro, o procurador Deltan Dalagnol e alguns outros personagens que apareciam nas manifestações, fazia parecer (repito que somente para alguns) que haveria uma tendência de que o tema da justiça e da luta contra a corrupção seriam aspectos decisores das eleições seguintes.

Atores globais, personalidades das redes sociais, políticos com históricos não tão nobres, todos se juntaram, de verde e amarelo, nas manifestações constrangedoras (para mim, não sei se para você) que incluíam dancinhas, musiquinhas e todos os tipos de gigantes infláveis, inclusive de Sérgio Moro como SuperMan.

Dilma caiu, foi substituída por Michel Temer, que logo nos primeiros momentos teve dificuldades em dizer porque tinha travado algumas conversas. Você se lembra do episódio da gravação do Batista da JBS? Porém, ao contrário de Dilma, Temer não caiu. Mesmo questionado, conseguiu se manter no poder por ter o Congresso Nacional na mão.

Então, veio a tão esperada eleição de 2018 e, claramente, não havia nenhuma intenção de luta contra a corrupção. O tema, embora tenha sido objeto de debates, pouco foi aprofundado. O que demostra que, na verdade, havia, em uma parte da população, apenas a vontade de ter um salvador da pátria, que pudesse dar conta de todas as suas frustrações.

Olhe para os candidatos que estavam na disputa, que totalizavam 13 pessoas. Entre os mais destacados, que foram para o segundo turno, estava Fernando Haddad, substituto de Lula, que estava preso. E, por mais que hoje tenhamos um noção de que os processos tinham problemas, não era possível dizer que era uma candidatura voltada à luta contra a corrupção. Do outro lado, Jair Bolsonaro também não tinha, em toda a sua história como parlamentar, nenhuma ação efetiva que lembrasse que ele poderia representar esse tema na corrida presidencial.

Com certeza, havia muita gente mais alinhada com o perfil da luta contra a corrupção do que quem foi ao segundo turno, não acham? Portanto, parece-me que o combate à corrupção, de verdade, nunca foi o grande motivo pelo qual a guinada populista-conservadora aconteceu.

Então, a nossa preocupação, como democratas que se importam com um ambiente político em que a corrupção realmente deve ser combatida, precisa ser com a educação. Isso mesmo! Com o desenvolvimento da percepção de que os pequenos favores, o tráfico de influência, o assistencialismo dos vereadores, tudo isso é corrupção.

E não adianta pensar que o tema da luta contra a corrupção pode ser uma bandeira a ser agitada apenas para apear os adversários do poder, e que pode ser abandonada quando os aliados acabam se vendo enrolados em casos mal explicados de compras públicas, de nomeação de pessoas incompetentes para cargos, de desvios de verbas para reformas ou compras de casas milionárias.

Onde estão os que apontaram para os governos petistas gritando contra a corrupção? Estão também gritando contra a família Bolsonaro? Ou acham que o risco de deixar que os adversários retornem ao poder vale o custo de manter a corrupção dos aliados?

Por isso, ao observar o que vivemos nos últimos anos, fica claro que usaram a luta contra a corrupção com o uma bandeira para realmente fazer o que queriam, que era retomar um projeto político antidemocrático, personalista, retrógrado, com a intenção de manter benefícios para poucos, de combater bandeiras identitárias e de destruir políticas de inclusão.

É também evidente que muitas dessas pessoas continuam defendendo o presidente que elegeram. Para eles, Jair Bolsonaro continua sendo o personagem ideal para o Brasil que eles veem e querem para o futuro. Portanto, para essas pessoas, o problema nunca foi a corrupção, mesmo que algumas delas continuem usando o tema para aparecer na mídia, criar relevância nas redes sociais e tentar ganhar o seu voto.

As perguntas que devemos fazer neste momento são: para quem, atualmente, no Brasil, a corrupção é 0 problema? Para a maioria da população? Apenas para alguns diletantes? E para você?

*Kleber Carrilho, doutor em Comunicação Social, cientista político pela USP, professor convidado dos cursos de Gestão de Comunicação e Marketing e de Comunicação Política e Estratégias Eleitorais da ECA/USP

Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do(a) autor(a) e não representa a visão do Instituto Não Aceito Corrupção

Esta série é uma parceria entre o blog e o Instituto Não Aceito Corrupção (Inac). Acesse aqui todos os artigos, que têm publicação periódica

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoCorrupçãoRoberto Livianu

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.