Para Janot, direito ao esquecimento não pode limitar liberdade de expressão

Para Janot, direito ao esquecimento não pode limitar liberdade de expressão

Procurador-geral da República, em parecer ao Supremo, se manifesta contra recurso de familiares de Aída Curi, assassinada brutalmente em 1958 em Copacabana, e diz que a Constituição 'proíbe toda espécie de censura ou licença prévia nos meios de comunicação, inclusive no rádio e na televisão'

Julia Afffonso, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

18 de julho de 2016 | 19h00

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Aida Curi. Foto: REPRODUCAO

O procurador-geral da República Rodrigo Janot disse que ‘não é possível, com base no denominado direito ao esquecimento, limitar o direito fundamental à liberdade de expressão por censura ou exigência de autorização prévia’. Em parecer ao Supremo Tribunal Federal, Janot se manifestou contra o Recurso Extraordinário de familiares de Aída Jacob Curi, estuprada e assassinada brutalmente aos 18 anos de idade em julho de 1958 em Copacabana.

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Janot destaca que ‘esse direito ainda não foi reconhecido ou demarcado no âmbito civil por norma alguma do ordenamento jurídico brasileiro’. Para ele, também não existe direito subjetivo a indenização pela lembrança de fatos pretéritos.

O recurso foi ajuizado contra transmissão da TV Globo sobre a morte de Aída Curi – irmã dos autores da ação – no programa Linha Direta – Justiça. Com o recurso, eles buscam indenização por danos materiais e morais.

Para os familiares de Aída, ao transmitir imagens não autorizadas das circunstâncias da morte da irmã, a emissora ofendeu o chamado ‘direito ao esquecimento’. Segundo eles, a observância desse direito, que deriva dos direitos constitucionais à dignidade, à honra, à imagem e à vida privada, impediria a emissora de publicar acontecimentos ocorridos há décadas, sem autorização prévia e em prejuízo deles.

Rodrigo Janot destaca que a Constituição ‘proíbe toda espécie de censura ou licença prévia nos meios de comunicação, inclusive no rádio e na televisão’. Segundo ele, a própria Constituição estabelece limites ao exercício das liberdades fundamentais, cabendo às emissoras de rádio e televisão a observância dos princípios que norteiam o direito à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem dos cidadãos. Em caso de descumprimento, há a previsão de condenação dos responsáveis e reparação de danos materiais e morais, além do direito de resposta proporcional ao dano.

AID2 RJ 02/07/98 AIDA CURI ESPECIAL CIDADE FACHADA DE EDIFICIO NA AV ATLANTICA ESQUINA COM MIGUEL LEMOS EM COPCABANA NUMERO 3388 ONDE TERIA SIDO JOGADA AIDA CURI E APOS ESSE FATO OCORRIDO O PREDIO SERIA ASSOMBRADO PELA MESMA FOTO FABIO MOTTA/AE

O edifício em Copacabana onde Aida Curi morreu. FOTO FABIO MOTTA/AE

“Não há respaldo constitucional para impedir ou restringir previamente a veiculação de programas de rádio e de televisão”, afirma o procurador. Ele argumenta que ‘a atuação de órgãos no sentido de impedir ou de limitar programas radiofônicos ou televisivos antes da publicação caracterizaria censura prévia, expressamente vedada pela Constituição’.

Janot assinala que ‘somente a posteriori, ou seja, após divulgação do conteúdo produzido pela emissora, cabe verificar se, excedidos os limites das liberdades comunicativas, houve violação a direito fundamental e averiguar dano apto a ensejar indenização ou a direito de resposta, proporcional ao agravo’.

O procurador-geral destaca que ‘o reconhecimento de um direito subjetivo a esquecimento poderia ser utilizado como pretexto para determinadas pessoas pedirem indenização por danos materiais e morais de forma indevida, bastando afirmar que as obras nas quais foram retratadas lhes causaram lembranças penosas’.

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Julgamento do zelador do prédio onde Aida foi assassinada. Foto: Acervo Estadão

Janot afirma que, em alguns casos, direito a esquecimento significa impedir o direito à memória e à verdade por vítimas de crime, inclusive de graves violações de direitos humanos perpetradas por agentes estatais.

“É arriscado para a sociedade aplicar de forma excessivamente ampla a noção de direito a esquecimento”, alerta. “Equiivaleria à verdadeira supressão de registros históricos, informáticos e jornalísticos, e beneficiaria aquelas pessoas, mas prejudicaria os demais cidadãos, que se veriam privados do acesso à informação, igualmente um direito constitucional, e deparariam com forma de censura, constitucionalmente proibida.”

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Julgamento do zelador do prédio em que Aida Curi foi assassinada. Foto: Acervo Estadão

“Com essas considerações, não se pretende negar a existência do direito a esquecimento nem apontar sua incompatibilidade com a Constituição. Pretende-se apenas apontar que o reconhecimento de um suposto direito a esquecimento, tanto no âmbito penal como no civil, não encontra na jurisprudência nem na doutrina parâmetros seguros de definição, sem atuação do legislador”, conclui.

O caso Aída Curi chocou o País. Segundo as investigações, dois rapazes, um deles menor de idade, a levaram à força ao topo do edifício Rio Nobre, na Avenida Atlântica, na noite de 14 de julho de 1958. Supostamente ajudados pelo porteiro do prédio abusaram sexualmente de Aída. A perícia policial revelou que a moça desmaiou depois de meia hora sob tortura. Ela foi jogada do 12.º andar pelos assassinos, que pretendiam simular um suicídio.

Foram realizados três julgamentos, sob grande expectativa e revolta.

Um dos acusados pegou pena de oito anos e nove meses por atentado violento ao pudor e tentativa de estupro. O porteiro foi inocentado da acusação de homicídio, mas condenado pelos outros crimes a ele imputados. O menor, condenado pelo assassinato, foi parar em um reformatório.

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