Para executivo da Odebrecht, ‘Lula, filho do Brasil’ era ‘um tipo de louvação maléfico’

Para executivo da Odebrecht, ‘Lula, filho do Brasil’ era ‘um tipo de louvação maléfico’

Polícia Federal resgatou do computador do empresário Marcelo Odebrecht mensagens trocadas por executivos do grupo; empreiteiro queria fundo para financiar longa, ‘sem aparecer nosso nome’

Julia Affonso e Ricardo Brandt

05 Janeiro 2018 | 05h15

Foto: Reprodução

Em agosto de 2008, em meio à discussão sobre a maneira em que a Odebrecht iria contribuir com o financiamento do filme ‘Lula, o filho do Brasil’, um dos executivos do grupo expôs sua opinião a respeito do longa. Para o então responsável pela comunicação da empresa, Marcos Wilson, a cinebiografia do ex-presidente Lula era ‘um tipo de louvação maléfico’ e poderia se tornar ‘um tiro no pé’ do petista.

Entre os executivos da Odebrecht, Lula era o ‘nosso cliente’. Marcelo Odebrecht confirmou o ‘codinome’ em depoimento à Polícia Federal em 11 de dezembro. O empreiteiro falou ao delegado Filipe Hille Pace em meio à investigação da Operação Lava Jato sobre o financiamento do filme.

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A cinebiografia do petista estreou em 1.º de janeiro de 2010 e custou cerca de R$ 12 milhões. Participaram do financiamento de ‘Lula, o filho do Brasil’, além da Odebrecht, as empreiteiras OAS e Camargo Corrêa.

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Marcelo Odebrecht foi chamado a depor após a Lava Jato resgatar e-mails de seu computador. O equipamento estava protegido por uma senha desde a prisão do executivo, em 19 de junho de 2015. Recentemente, o conteúdo foi desbloqueado.

No depoimento, o empreiteiro relatou à PF a quem se referiam os codinomes citados em e-mails trocados pelos executivos do grupo e que tratavam do ‘apoio’ ao filme.

Além do ‘nosso cliente’, o executivo apontou que ‘seminarista’ e ‘seminário’ se referiam ao ex-ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência – 2011/2015 – Governo Dilma), ‘italiano’ era o ex-ministro Antonio Palocci (Casa Civil/Fazenda – Governos Lula e Dilma) e ‘amigo de seu pai’ era uma referência a Lula.

Segundo o empreiteiro, a expressão ‘amigo de Alexandrino’ também estava ligada a Gilberto Carvalho.

As mensagens resgatadas foram escritas entre 7 de julho de 2008 e 12 de novembro daquele ano. Nos e-mails são citados ‘PN’, Pedro Novis, e ‘AA’, Alexandrino Alencar, então dirigentes do grupo e hoje delatores da Lava Jato.

O primeiro e-mail identificado pelos investigadores indica que Marcelo Odebrecht havia sugerido abrir um fundo para financiar o filme. Na mensagem, o responsável pela comunicação do grupo informa ao empreiteiro que os realizadores não aceitaram o fundo, ‘porque a maioria das empresas que se dispôs a apoiar querem mesmo é aparecer’.

“O amigo de seu pai, por sua vez, não admite usar qualquer lei de incentivo fiscal. Se houver interesse estratégico, encontraremos uma forma de atender à demanda sem que nosso nome seja mencionado. Sugeri ao Pedro que AA conduzisse este programa porque quem está à frente do projeto do filme é o seminarista”, escreveu o executivo a Marcelo.

Uma hora depois, o empreiteiro respondeu. “De minha parte o que vocês definirem está ok. Minha opinião seria se colocar à disposição do seminarista para uma cota se necessário for para fechar eventual buraco, mas que o ideal seria estarmos fora para não levantar questionamentos (vide reforma Alvorada). PN: já falou com meu pai?”, questionou Marcelo Odebrecht.

Em menos de 10 minutos, Pedro Novis escreveu. “Marcelo, vou falar com seu pai. De minha parte estou de acordo com a sugestão”, anotou. “Alex chega de férias dia 14 e conversa com o seminarista para fazer a contribuição de modo a não aparecermos.”

Neste período, Odebrecht ainda não era o presidente do grupo. O cargo era ocupado por Pedro Novis.

No dia 1 de agosto de 2008, o então responsável pela comunicação da Odebrecht escreveu um longo e-mail aos colegas. Na lista de destinatários estavam Marcelo Odebrecht, Pedro Novis, Alexandrino Alencar e outros dois. O executivo relatou ‘uma demanda de um milhão de reais para apoiar o filme de interesse do nosso cliente e cujo projeto está sendo coordenado pelo amigo do Alexandrino’.

“A proposta feita por MBO (Marcelo Bahia Odebrecht) de formar um fundo para atender ao pedido tornou-se inviável porque os outros doadores fazem questão de aparecer ao contrário de nossa posição”, escreveu o executivo.

“Minha posição: embora seja um desejo do cliente e que já anda bem adiantado (o filme tem as características dos Filhos de Francisco), acho que este tipo de louvação maléfico e poderá vir a ser um tiro no próprio pé do cliente.”

Naquele mesmo dia, Odebrecht respondeu à mensagem. “Minha opinião é que AA construa com o seminário para só participarmos se houver falta da recursos (o que não deve ser o caso).”

O responsável pela comunicação, então, retorna. “Nosso apoio será de 750 mil e não apareceremos.”

Na última mensagem apreendida pela Polícia Federal, de 12 de novembro de 2008, Marcelo Odebrecht escreveu aos executivos do grupo sobre ‘pontos para agenda com seminário’. O quinto se refere a ‘Lula, filho do Brasil’.

“5) O italiano me perguntou sobre como anda nosso apoio ao filme de Lula, comentei nossa opinião (com a qual concorda) e disse que AA tinha acertado a mesma com o seminarista, mas adiantei que se tivermos nos comprometido com algo, seria sem aparecer o nosso nome. Parece que ele vai coordenar/apoiar a captação de recursos”, afirmou.

O filme conta a história de Lula, desde a infância dramática no sertão de Pernambuco, aborda sua chegada a São Paulo no pau de arara, as dificuldades que enfrentou ao lado da família, o trabalho na indústria metalúrgica, as históricas campanhas grevistas dos anos 1970 que marcaram o ABC paulista e a ascensão ao topo do sindicato que o consagrou e impulsionou sua trajetória política.

‘Lula, o filho do Brasil’ é uma biografia baseada no livro homônimo da jornalista Denise Paraná.

“A história é uma superação das perdas”, disse, na época das gravações, o cineasta Fábio Barreto. “Meu trabalho é o de humanizar o mito vivo que é o Lula, só não vamos entrar na fase política.”

Lula já foi condenado na Lava Jato. Em julho do ano passado, o juiz federal Sérgio Moro impôs nove anos e seis meses de prisão ao petista por corrupção e lavagem de dinheiro no caso tríplex.

A sentença será analisada pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, a Corte de apelação da Lava Jato, no dia 24 de janeiro. Lula ainda é réu em mais duas ações penais perante o juiz Moro, uma relativa a supostas propinas da Odebrecht e outra ligada ao sítio de Atibaia (SP).

A reportagem tentou contato com Gilberto Carvalho. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, LULA

A defesa informou que não vai comentar.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT

“A Odebrecht está colaborando com a Justiça no Brasil e nos países em que atua. Já reconheceu os seus erros, pediu desculpas públicas, assinou um Acordo de Leniência com as autoridades do Brasil, Estados Unidos, Suíça, República Dominicana, Equador e Panamá, e está comprometida a combater e não tolerar a corrupção em quaisquer de suas formas”.

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