‘Para distribuição de propina’, A.Gutierrez criou ‘verdadeira contabilidade’, diz força-tarefa da Pripyat

‘Para distribuição de propina’, A.Gutierrez criou ‘verdadeira contabilidade’, diz força-tarefa da Pripyat

Ministério Público Federal, no Rio, apresentou nesta quinta-feira, 28, a primeira denúncia da força-tarefa da Operação Lava Jato no Estado contra 15 pessoas suspeitas de envolvimento em esquema de fraudes em licitações, corrupção e lavagem de dinheiro em contratos entre Eletronuclear e as empresas Andrade Gutierrez e Engevix para as obras da Usina de Angra 3

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

28 de julho de 2016 | 09h14

Obras de Angra 3. Foto: Eletronuclear

Obras de Angra 3. Foto: Eletronuclear

A denúncia da Operação Pripyat, que acusa formalmente ex-dirigentes da Eletronuclear por crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, aponta que ‘para distribuição da propina, foi criada uma verdadeira contabilidade pela construtora Andrade Gutierrez, entre 2008 e 2014, com sistemático pagamento de vantagens aos envolvidos na organização criminosa’. O Ministério Público Federal, no Rio, apresentou nesta quinta-feira, 28, a primeira denúncia da força-tarefa da Operação Lava Jato no Estado contra 15 pessoas suspeitas de envolvimento em esquema de fraudes em licitações, corrupção e lavagem de dinheiro em contratos entre Eletronuclear e as empresas Andrade Gutierrez e Engevix para as obras da Usina de Angra 3.

Documento

Dentre os acusados, estão os ex-dirigentes da Eletronuclear Luiz Antônio de Amorim Soares, Luiz Manuel Amaral Messias, José Eduardo Brayner Costa Mattos, Edno Negrini e Pérsio José Gomes Jordani, além de ex-executivos da Andrade Gutierrez e Engevix. Os valores destinados ao núcleo político é investigado no Supremo Tribunal Federal.

O Ministério Público Federal aponta que parte dos valores ilícitos da Andrade Gutierrez sobre obras de Angra 3 foram pagas a cinco ex-dirigentes do alto escalão da Eletronuclear, subsidiária da Eletrobrás. A investigação mostra que dividiram 1,2% do valor total da obra (R$ 1,2 bilhão) o ex-diretor técnico Luiz Soares (0,3%), o ex-diretor de Administração e Finanças Edno Negrini (0,3%), o ex-diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente Persio Jordani (0,2%), o ex-superintendente de Gerenciamento de Empreendimentos Luiz Messias (0,2%) e o ex-superintendente de Construção José Eduardo Costa Mattos (0,2%).

Segundo os investigadores, Luiz Soares e Edno Negrini receberam até R$ 3,6 milhões e Luiz Messias, José Eduardo Costa Mattos e Persio Jordani pegaram até R$ 2,4 milhões em propinas da construtora. Os valores teriam sido recebidos por meio de empresas intermediárias.

Para os procuradores da República Lauro Coelho Junior, Leonardo Cardoso de Freitas, Eduardo Ribeiro Gomes El Hage, e o procurador regional da República José Augusto Simões Vagos, que assinam a peça, a ‘denúncia apresenta o resultado da parcela mais significativa da investigação levada a cabo pelo Ministério Público Federal, cujo desfecho foi consumado na denominada Operação Pripyat, desdobramento da 16ª Fase da Operação Lava Jato (Radioatividade)’.

Segundo o Ministério Público Federal, o objetivo era aprofundar a investigação de organização criminosa responsável pela prática de corrupção, fraude a licitações e lavagem de dinheiro na construção da Usina de Angra 3 pela Eletronuclear. A partir de então, “descortinou-se a atuação de outros funcionários públicos, além do próprio ex-presidente da estatal Othon Luiz Pinheiro da Silva, e evidenciou-se a atuação de outros responsáveis por empresas interpostas utilizadas para viabilizar a lavagem dos ativos ilicitamente transferidos”, apontam os procuradores.

“Com o aprofundamento das investigações, constatou-se que o núcleo administrativo da organização criminosa não se compunha apenas pelo ex-presidente da Eletronuclear Othon Luiz, mas também pelos gestores Luiz Antônio de Amorim Soares, Luiz Manuel Amaral, Messias José Eduardo Brayner Costa Mattos, Edno Negrini e Pérsio José Gomes Jordani, todos agora denunciados pelo Ministério Público Federal”, informa a Procuradoria da República, em nota.

COM A PALAVRA, A ANDRADE GUTIERREZ

A empresa não vai se pronunciar.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO FABRIZIO FELICIANO, QUE DEFENDE LUIZ MESSIAS

“Luiz Messias já prestou todos os esclarecimentos à Polícia Federal, respondendo a todas as perguntas que lhe foram feitas, e negou, veementemente, a pratica de qualquer ilegalidade. A denúncia ajuizada ontem pelo Ministério Público Federal é baseada na palavra de pessoas que assinaram acordo de colaboração premiada e que, com isso, buscam obter benefícios da Justiça pelos crimes que já confessaram. Tais pessoas, contudo, não apresentaram nenhuma prova do envolvimento de Luiz Messias, que, repita-se, está preso e denunciado com base apenas na palavra de delatores.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO ANDRÉ PERECMANIS, QUE DEFENDE PÉRSIO JOSE GOMES JORDANI

“Estamos tranquilos quanto a inocência dele. Do que a gente viu, a situação dele é muito diferente das demais, inclusive, nos crimes que são atribuídos a ele. A nossa preocupação é com a saúde dele, um homem de 70 anos com problema sério de saúde. Estamos mais preocupados com a liberdade dele.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO BRAZ FERNANDO SANT’ANNA, QUE DEFENDE JOSÉ EDUARDO COSTA MATTOS

O advogado Braz Fernando Sant’anna afirmou que está tomando ciência da denúncia. “O que tem nas investigações até agora realmente não vejo elementos para uma denúncia consistente.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO LUIS RASSI, QUE DEFENDE EDNO NEGRINI

“A jurisprudência nacional se modificou com a Operação Lava Jato.  A prisão de Edno Negrini, mesmo considerando o novo posicionamento jurisprudências é um absurdo. Uma delação vazia, sem provas, mesmo para o “padrão Lava Jato” é insuficiente para qualquer prisão ou processo. Edno, apesar de inocente, esta preso por um nada jurídico.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO CARLOS LUCHIONE, QUE DEFENDE MARCO AURÉLIO VIANNA PEREIRA E MARCO AURÉLIO BARRETO PEREIRA LEITE

“O caso dos meus clientes é muito específico, eles são proprietários da VW Refrigeração. Pesa lavagem e participação na organização criminosa que na verdade consta para todos (os denunciados). A acusação é que eles não teriam feito determinados serviços com a Andrade Gutierrez. Eu já tenho aqui praticamente todas as provas que eu vou informar o juiz, os serviços foram efetivamente feitos e pretendo demonstrar que que não vou essa questão a empresa não ter feito os serviços. Já estou com uma série de contratos comprovando a efetivação dos serviços. Tenho fotos das obras que foram feitas, dos serviços efetuados, não tenho só os contratos, porque poderiam ser questionados. Tenho outras provas que tinham contratos com a Andrade Gutierrez. Eles estão denunciados por conta de delação premiada.”

AS ACUSAÇÕES DA PROCURADORIA DE REPÚBLICA

Luiz Antônio de Amorim Soares, ex-diretor da Eletronuclear:

– Corrupção passiva Fato 1 (F1)

– Lavagem de ativos F3

– Lavagem de ativos F4

– Corrupção passiva F7

– Lavagem de ativos F9

– Embaraço à investigação de organização criminosa F10

– Organização criminosa F12

Luiz Manuel Amaral Messias, ex-superintendente da Eletronuclear

– Corrupção passiva F1

– Corrupção passiva F7

– Lavagem de ativos F9

– Embaraço à investigação de organização criminosa F10

– Organização criminosa F12

José Eduardo Brayner C.Mattos, ex-superintendente da Eletronuclear

– Corrupção passiva F1

– Lavagem de Ativos F5

– Organização criminosa F12

Edno Negrini, ex-diretor da Eletronuclear

– Corrupção passiva F1

– Organização criminosa F12

Pérsio José Gomes Jordani, ex-diretor da Eletronuclear

– Corrupção passiva F1

– Organização criminosa F12

Marco Aurélio Barreto Pereira Leite, sócio VW Refrigeração

– Lavagem de Ativos F5

– Organização criminosa F12

Marco Aurélio Vianna Pereira, sócio VW refrigeração

– Lavagem de Ativos F5

– Organização criminosa F12

Delmo Pereira Vieira, sócio da EVAL

– Lavagem de ativos F6

– Organização criminosa F12

Rogério Nora de Sá, ex-executivo da Andrade Gutierrez

– corrupção ativa F2

– Lavagem de ativos F3

– Lavagem de ativos F4

– Lavagem de ativos F5

Clóvis Renato Numa Peixoto Primo, ex-executivo da Andrade Gutierrez

– corrupção ativa F2

– Lavagem de ativos F3

– Lavagem de ativos F4

– Lavagem de ativos F5

– Lavagem de ativos F6

Flávio David Barra, ex-executivo da Andrade Gutierrez

– Lavagem de ativos F3

– Lavagem de ativos F4

– Lavagem de ativos F5

– Lavagem de ativos F6

Gustavo Ribeiro de Andrade Botelho, ex-executivo da Andrade Gutierrez

– corrupção ativa F2

– Lavagem de ativos F3

– Lavagem de ativos F4

– Lavagem de ativos F5

– Lavagem de ativos F6

José Antunes Sobrinho, sócio da Engevix

– Corrupção ativa F8

– Lavagem de ativos F9

Ludmila Gabriel Pereira, sócia da FlexSystem

– Embaraço à investigação de organização criminosa F11

Marlei Gabriel Pereira

– Embaraço à investigação de organização criminosa F11

 

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