Para combater o extremismo: valores

Para combater o extremismo: valores

Alberto David Klein*

02 de fevereiro de 2022 | 16h25

Alberto David Klein. FOTO: DIVULGAÇÃO

Na Alemanha o sinal de alerta já está aceso, pois a constatação do Departamento Federal de Proteção da Constituição (BfV) é de que, em 2021, os extremismos de direita e de esquerda aumentaram. O mais grave é que 40% dos extremistas de extrema direita, no país, foram compreendidos como “dispostos à violência” e, também, 28% dos que são de esquerda. No Afeganistão, o ano passado nos trouxe cenas de desespero: a tentativa de fuga em massa após a ascensão de fundamentalistas do Talebã. No Brasil, tivemos o aumento células neonazistas em cerca de 60%, desde 2019. Afinal, o que está acontecendo aqui e no mundo? Toda forma de extremismo preocupa e ameaça o futuro das novas gerações.

O rabino Lord Jonathan Sacks, em seu livro “Not in God’s Name”, argumenta que, nos últimos anos do século 20, supervalorizou-se a cultura do individualismo, que propagandeava, sobretudo, a realização pessoal, colocando esse sentimento acima de outro: o do pertencimento.

Curiosamente, a geração atual, por estar mais conectada e sentindo-se só, busca grupos e meios sociais para fazer parte. Quer pertencer a um movimento que reforça e apoia as suas convicções. Resulta daí o perigo de alinhamento a ideologias extremistas. Explodem casos de intolerância religiosa, racial, de gênero, sexual, ideológica etc.

Na experiência como líder comunitário e nos anos que trabalhei em prol de colégios e clubes da comunidade judaica, observo que o mais importante não é a jornada do indivíduo rumo ao sucesso profissional, mas a que vai prepará-lo para o desenvolvimento de valores e para estabelecer a empatia, a que lhe dará mais segurança e autonomia para pensar por si e muito além do que propõem os grupos radicais.

No entanto, hoje, os pais têm se preocupado, cada vez mais, em preparar seus filhos para o mercado de trabalho, para uma faculdade, algo que lhes traga conhecimentos “úteis”. A formação voltada aos valores que poderiam ser transmitidos para gerar indivíduos conscientes de seus deveres e do papel transformador de todos na sociedade está em segundo plano ou em lugar algum.

Claro, informar e preparar profissionalmente os jovens é muito importante, mas torná-los competentes para viver no mundo é essencial. Se o indivíduo não tem valores próprios que lhe despertem a empatia, principalmente, tornar-se-á “presa fácil” para extremistas, cujo discurso o fascinará.

A sedução é forte porque jovens querem ser validados pelo seu grupo, seja ele qual for. Na pior herança do individualismo, querem ser superiores aos demais. Quando a frustração se instaura, mais fácil é colocar a culpa no outro, naquele que usurpou a sua posição, e passa ser o “responsável” por suas desgraças pessoais ou as coletivas já sofridas.

O inimigo comum “desumaniza” a pessoa extremista na relação com o que lhe é diverso, segundo aborda, também, o rabino Sacks. Isso explica porque alguém consegue ser tão bom com membros de seu grupo e, paradoxalmente, cruel com aquele que rivaliza. Não se enxerga no outro a humanidade. Ocorre a perda de capacidade de respeitar as diferenças.

Para enfrentarmos o desafio desses tempos e evitarmos que nossos filhos e netos tornem-se células de radicais, precisamos do apoio do Estado e da sociedade civil, trabalhando pela educação e pela transmissão de valores.

Não basta a legislação ser mais rígida ou se falar em tolerância zero ao racismo, se fica no ar a certeza de que esses instrumentos serão relativizados e perderão força na aplicação em casos concretos.

Para combater o extremismo e implementar a convivência com respeito e tolerância à diversidade, temos de educar todos oferecendo valores que potencializam direitos humanos”. É uma fórmula simples de dizer e complexa de se fazer.

*Alberto David Klein é presidente do Memorial às Vítimas do Holocausto – Rio de Janeiro e presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj)

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