Panorama do crédito pessoal no Brasil

Panorama do crédito pessoal no Brasil

Carlos G. Macedo e Nayra Bruno*

13 de setembro de 2020 | 09h00

Hoje, no Brasil, o crédito pessoal enfrenta os efeitos de duas forças. Por um lado, ainda há o reflexo da pandemia criada pela Covid-19, visível nos dados de crescimento e oferta de crédito. Por outro, pode se ver o resultado dos esforços do Banco Central para amenizar a crise, mais visível nas taxas de inadimplência para o segmento.

A pandemia, em conjunto com a quarentena, reduziu tanto o interesse de consumidores em tomar crédito quanto dos bancos em dar crédito. Segundo a pesquisa trimestral do Banco Central, a demanda do consumidor por crédito no primeiro trimestre caiu ao nível mais baixo desde 2017. Os bancos enrijeceram suas políticas para novos empréstimos, reduzindo prazos e taxas de aprovação. Isso levou o crescimento anual do crédito pessoal, que estava quase em 17% em janeiro, a cair para 9% em junho, acompanhando a desaceleração observada em outras categorias de crédito a pessoas. O efeito na oferta de novos empréstimos, porém, foi mais desigual – houve queda forte nas linhas de cartão de crédito, cheque especial e crédito para compra de automóveis, mas a oferta de novos empréstimos pessoais se mostrou mais resistente.

O Banco Central, através de uma série de mudanças regulatórias temporárias, trabalhou para amenizar o impacto da crise no setor financeiro. A maior parte destas mudanças teve como objetivo facilitar o processo de renegociação de empréstimos inadimplentes para os bancos. Quando um devedor deixa de pagar as prestações de seu empréstimo, os bancos são obrigados a criar uma reserva para o caso de o devedor se tornar completamente inadimplente. A nova regra flexibilizou este procedimento para créditos renegociados, o que levou os bancos a renegociarem uma quantidade muito grande de empréstimos nos últimos meses.

Carlos Macedo e Nayra Bruno. Foto: Acervo pessoal

A taxa de inadimplência de 90 dias (empréstimos vencidos a mais de 90 dias dividido pelo total de empréstimos) do crédito pessoal chegou a 7,5% em junho, após um pico de 8,2% em maio. Os dados mais recentes de inadimplência divulgados pelo Banco Central mostram que a performance dos contratos prorrogados continua uma incógnita. Para o crédito pessoal, a inadimplência de 15 a 90 dias teve um crescimento de apenas 5,7% em relação ao mês anterior e atingiu 4,02%, resultado ainda bem abaixo da média de 5,98% do primeiro trimestre de 2020.

Essas tendências permitem duas conclusões a respeito do atual ciclo de crédito. Primeiro, a combinação de demanda e oferta mais baixas afetou negativamente o crescimento do crédito pessoal. Ainda assim já há indícios de que a demanda por crédito pessoal está se recuperando (a começar pela pesquisa mensal da Serasa Experian). Uma recuperação do crescimento como um todo, portanto, vai acabar dependendo do apetite dos bancos por risco, o que, por sua vez, deve refletir na expectativa de cada instituição financeira em relação ao desfecho da pandemia e a retomada do crescimento econômico.

Em segundo lugar, não se pode dizer que os problemas com a inadimplência já foram superados neste ciclo. O que pode se afirmar com segurança é que as medidas do Banco Central permitiram que a inadimplência fosse “empurrada com a barriga”, para mais tarde, quando se imagina que as condições econômicas estejam mais favoráveis. Isto pode acabar estendendo o ciclo por mais tempo, reduzindo a capacidade de pegar empréstimos de quem já tem crédito renegociado.

A exemplo dos bancos, as fintechs também precisaram reduzir a oferta de novos empréstimos. Além do risco de inadimplência, a quarentena trouxe grande incerteza para o mercado de capitais. As startups optaram por preservarem o caixa ao reduzirem o gasto com aquisição de novos clientes. Em termos de inadimplência, por sua vez, as fintechs não tiveram benefícios para prorrogar os contratos durante o período de quarentena, ou seja, precisaram colocar seus modelos de crédito à prova para enfrentar a incerteza do que aconteceria com seus portifólios ao longo da pandemia.

Ainda assim, a atual situação pode ser uma oportunidade para as fintechs. A pandemia enfraqueceu os laços entre os clientes e seus bancos, uma vez que eliminou por completo qualquer impulso residual de resistir a digitalização e ir a uma agência bancária. As fintechs, por seu tamanho e facilidade com tecnologia, tendem a ser mais dinâmicas que os grandes bancos e por isso podem se aproveitar de brechas de mercado. Na situação descrita acima, em que a demanda por crédito aumenta e não é correspondida por uma oferta maior dos grandes bancos, as fintechs – principalmente as bem capitalizadas e com boa gestão de risco de crédito – podem preencher este espaço, criando vínculos duradouros com seus clientes.

*Carlos G. Macedo, sócio da Cortex Consultoria, e Nayra Bruno, gerente de operações da Rebel

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