Pandemia

Pandemia

João Linhares*

01 de janeiro de 2021 | 06h00

João Linhares Júnior. FOTO: DIVULGAÇÃO

A vida fluía e seguia seu curso normalmente…

Éramos senhores da Terra!

Dominávamos os quadrantes do planeta, as demais espécies;

Sabíamos de tudo, concebíamo-nos oniscientes…

 

Suprema beócia!

Não receávamos quaisquer intempéries.

O que nos importava?

Bolsa de valores, exércitos, juros, metas profissionais,

competição, roupas da moda, bens materiais…

 

Entretanto, o vírus eclodiu num repente,

Como da noite para o dia;

E atingiu não só o corpo, todavia,

Sobretudo a mente!

 

E que dano fez!

Solapou crenças,

Difundiu efeitos colaterais, doenças…

Dividiu amigos, criou correntes!

Umas boas, outras tantas indecentes….

 

Foram atingidos crianças, jovens, adultos e os mais experientes…

Teorias conspiratórias pulularam,

Algumas culpando uma nação e toda uma etnia.

Dementes?

 

Estas desacreditam a ciência, esboroam a sabedoria;

A terra é plana, o resto é heresia!

Boicotam a vacina

E contribuem para a letargia.

 

Enquanto isso, os corpos tombam.

Choramos…

E, em uníssono, todos de outrora recordam festa,

Relembram a família, os amigos jungidos.

Rememoram abraços e incontidos sorrisos.

 

E têm nostalgia;

A ansiedade se elevou,

Aumentando exponencialmente,

A cada perda lastimável e deprimente.

 

Um ou outro queria negar

Mas a realidade demonstrava, a cada passo,

Sem olvido, pestanejo ou vagar,

A legião de mortos…

A nossa pequenez no cosmo.

 

Famílias esfaceladas,

Vidas solapadas…

Amigos sepultados, sem a possibilidade do velório;

Taciturnas realidades escancaradas!

Nossos corações no crematório.

O destino a nos tragar!

 

Mas é verdade, a caridade aumentou

E a esperança e a fé, no genuflexório.

M(u)itos caíram na frigideira

Porque não se condoeram;

Fizeram festa com a dor alheia

E pouco construíram. Senhores da asneira!

 

Flertaram com a ignomínia,

Proprietários da besteira…

Não tiveram empatia,

Geraram intolerância,

E disseminaram sua ira,

seu ódio com soberba, desfaçatez e até com alegria…

Infindável paradoxo, descabida ironia!

Quantos são os acólitos da mitomania?

 

Este ano inicia uma nova década

E espera-se que seja de prosperidade,

De amor, de tolerância e de humildade.

De muita alegria assegurada,

Não somos senhores do Universo,

Tampouco do planeta,

Ao reverso…

 

Talvez sejamos o verdadeiro vírus

A atacar, sem piedade,

Os que compartilham conosco esse “pálido ponto azul”,

Este pequeno torrão da eternidade…

 

Não obstante, pode-se recobrar a consciência,

Agindo com generosidade

E com inteligência, conhecimento analítico e com prudência!

Vencendo-se a ignorância e a incivilidade.

 

Afinal, podemos optar por ser o vírus,

Contudo, creio não ser esse o nosso papel.

Melhor seria se fôssemos tais qual o beija-flor

A encantar cada dia e cada noite…

Namorando as flores, flertando com o céu,

Com fulgor!

Inebriando quem nos contempla,

Inspirando a beleza e espraiando o amor.

E batendo as asas incessantemente para sustentar os nossos sonhos…

O que você prefere?

*João Linhares Júnior, mestre em Garantismo e Processo Penal pela Universidade de Girona – Espanha. Pós-graduado em Jurisdição Constitucional e Direitos Fundamentais pela PUC – RJ. Eleito para integrar a Academia de Letras Maçônicas de Mato Grosso do Sul

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