Pandemia, tecnologia e saúde. Uma evolução sem volta que exige cuidados e regulamentação

Pandemia, tecnologia e saúde. Uma evolução sem volta que exige cuidados e regulamentação

Alessandro Acayaba de Toledo*

22 de julho de 2021 | 03h30

Alessandro Acayaba de Toledo. FOTO: DIVULGAÇÃO

A pandemia do novo coronavírus está sendo um desafio, mas também uma enorme oportunidade. Esta frase, que poderia ser capa de um livro de autoajuda, reúne na sua essência uma verdade contundente e um alerta impactante. Se não aproveitar essa enorme oportunidade gerada pelos desafios surgidos pela necessidade de enfrentamento à covid-19, talvez o Brasil não dê o passo adiante para se consolidar ainda mais como uma potência em serviços na área da saúde.

Os modelos tradicionais de cuidado estão sendo totalmente rompidos durante a pandemia, apontando para um salto enorme de como deve ser a assistência às pessoas no futuro próximo, quando o trauma do vírus tiver sido superado. O bom é que, o que foi feito até aqui, cria uma perspectiva muito positiva para o usuário de saúde pública e privada. E dois aspectos se destacam em relação aos demais.

Primeiro deles, no que se refere ao funcionamento do setor, a pandemia acelerou a revolução digital da Saúde. Para administrar o surgimento de competidores inovadores e eficientes, as empresas já tradicionais desse mercado precisaram dar uma resposta. O enorme número de fusões, aquisições e IPOs do setor de saúde brasileiro reforça esta percepção. Estão sendo fundamentais para incorporar de forma mais rápida e eficiente a inovação necessária à Saúde e o melhor uso de big data, inteligência artificial, realidade virtual, internet das coisas, telemedicina e biossensores; para qualificar tanto a gestão das empresas do setor, quanto os tratamentos fornecidos aos pacientes.

Em segundo, o paciente nunca esteve com tantas possibilidades de escolha. O “onde” ser atendido e o “como” ser atendido mudou de forma radical no último ano. A telemedicina, a inteligência artificial e demais ferramentas digitais se somaram como aliadas primordiais da saúde em meio à necessidade de distanciamento social. E conquistaram os resistentes sobre a sua inevitabilidade e eficiência de uso. Por outro lado, também fez crescer a responsabilidade do paciente na escolha de como, quando e onde ser atendido. Esse poder certamente o tornará ainda mais exigente da qualidade de informação disponível sobre si e seu tratamento, e mudará a relação do usuário com médicos e operadoras de saúde.

Dados levantados pelo estudo ‘Lições da pandemia – perspectivas e tendências’, feito pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) em parceria com a consultoria Bain & Company, apontaram que apenas dois meses após o lançamento, o TeleSUS, do Ministério da Saúde, já havia atendido 73 milhões de brasileiros. No privado, no mesmo período, o Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, teve aumento de 1.330% nas teleconsultas  e de 2.400% nos teleatendimentos. Essa transformação também ampliou o investimento em pesquisa e tecnologia pelo setor, exigindo do profissional de saúde novas habilidades. E está contribuindo para diminuir um dos maiores gargalos da saúde brasileira, que é a concentração de especialistas nos grandes centros. Com a tecnologia encurtando as distâncias, amplia-se o acesso do paciente aos melhores profissionais e serviços de saúde.

E há um ponto sobre o qual quero me deter um pouco mais: a profusão de novas healthtechs. Surgidas no país por volta de 2010, as startups específicas do setor têm apresentado uma importante resposta da tecnologia na busca de soluções para áreas inteiras da saúde. E, claro, isso se acelerou com a pandemia. Inteligência artificial e machine learning; inovação e uso de dados; são os novos protagonistas de um movimento realmente transformador. Estão sendo criadas diariamente novas soluções que passam por plataformas de unificação, integração e gestão, além de tecnologias muito evoluídas para facilitar e melhorar procedimentos médicos.

De acordo com o Inside Healthtech Report, produzido pelo Distrito, havia 714 healthtechs no Brasil até maio de 2021; no ano passado, eram 542. Um mercado que desperta o olhar dos investidores atentos. O primeiro bimestre de 2021 foi o mais movimentado na história das healthtechs. Foram investidos mais de US$ 90,1 milhões em startups da área da saúde neste período, 85% do total de 2020.

E tudo isso tem uma convergência que é muito peculiar em todas as techs: o principal ativo são os dados.

Traço um paralelo do momento que o setor da saúde vive com a revolução bancária que está sendo implementada no país com a chegada dos bancos digitais. Gastando menos e por conta da inovação tecnológica, já é possível ter acesso a conta, crédito, meios de pagamento e movimentação financeira que antes estavam atrelados apenas a poucos bancos tradicionais e exclusivos a uma parcela mais favorecida da população. Startups como Nubank, Pagseguro e Stone despontam e passam a ditar as novas regras de relação bancária com a população e até de comunicação e marketing do setor financeiro.

O Conselho Monetário Nacional (CMN) e o Banco Central (BC), por sua vez, vêm atuando para regulamentar o openbanking. Precisamos, portanto, que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e o Ministério da Saúde atuem da mesma maneira no setor, regulamentando de forma clara e desburocrática  essa nova realidade. A telemedicina, por exemplo, está autorizada no Brasil apenas temporariamente. Precisa ser definitiva, com regras eficientes, que protejam pacientes, profissionais de saúde, governos e empresas, porque é uma realidade que veio para ficar.

O Brasil já enfrentou, neste ano, inéditos ataques às redes digitais, como por exemplo a exposição na internet de 223 milhões de CPFs de pessoas vivas e falecidas e o vazamento de quase 103 milhões de registros de celulares.  Na área da saúde, recentemente, o Grupo Fleury se tornou alvo de ciberataques, paralisando seus sistemas.

Pesquisas mostram um aumento significativo desse tipo de crime na área da saúde, muito provavelmente em razão da crise sanitária mundial gerada pela covid-19 e pela oportunidade financeira que o acesso e venda ilegal dos dados de milhões de pessoas pode gerar. E o recente ataque ao Grupo Fleury mostra que as empresas não estão totalmente preparadas para o ônus que a tecnologia também pode trazer.

Esse ataque serve de alerta aos demais agentes do setor. Mais do que isso, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) – cujas sanções entrarão em vigor nos próximos meses – direciona os holofotes aos ciberataques, redobrando a atenção daqueles que ainda não readequaram suas estratégias de segurança para combater esse vírus sorrateiro.

E, mais uma vez, um melhor controle da segurança dos dados também empodera o paciente.  O interesse pela portabilidade de carência  dos planos de saúde aumentou 50% em relação a 2020, de acordo com a ANS. Para ser colocada em prática, a portabilidade prevê requisitos e envolve procedimentos como envio de uma lista de documentos, que inclui comprovantes de pagamento de mensalidades, de prazo de permanência, além de relatório de compatibilidade entre planos de origem e de destino. E as administradoras de benefícios têm atuado para facilitar a vida do consumidor neste sentido. Com mais saúde e segurança.

*Alessandro Acayaba de Toledo, advogado especialista em Direito e Saúde e presidente da Associação Nacional das Administradoras de Benefícios (Anab)

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