Pandemia, o papel social das empresas e a ética nos negócios

Pandemia, o papel social das empresas e a ética nos negócios

Antonio Florencio de Queiroz Junior*

04 de junho de 2021 | 10h30

Antonio Florencio de Queiroz Junior. FOTO: DIVULGAÇÃO

O papel social de nossas empresas não se resume mais a gerar emprego e renda. Isso, claro, é uma parte fundamental e determinante para a sustentabilidade de um negócio. Mas o mundo dos negócios mudou e, para quem ainda tinha alguma dúvida, a pandemia deixou isso muito claro.

O dia a dia das empresas passou a ter muitas outras variáveis para além de superávit como forma de medir o sucesso: condições de trabalho e saúde dos trabalhadores, reserva financeira para suportar os impactos da pandemia e a capacidade de atender às inúmeras medidas sanitárias.

É bem verdade que este fenômeno não se iniciou com a pandemia, embora tenha se acelerado. O capitalismo não é mais um modelo que se resume ao lucro pelo lucro. Um exemplo disso veio do Manifesto de Davos, do Fórum Econômico Mundial de 2020, ao atrelar o desempenho de uma empresa não apenas ao retorno dado aos acionistas, mas também à forma como atinge seus objetivos ambientais, sociais e de boa governança.

Dada essa premissa, é fundamental que o setor produtivo brasileiro e tenha critérios claros e rigorosos de integridade e ética. A Fecomércio-RJ é uma referência na prestação de serviços e termômetro da economia real e justamente por isso aposta nos programas de compliance como forma de incorporar as melhores práticas de gestão e replicá-las no segmento que representa.

No caso de Fecomércio-RJ, os números falam por si só: são 59 sindicatos patronais fluminenses, que reúnem 314 mil estabelecimentos e respondem por 2/3 da atividade econômica do estado.

É neste contexto, e pensando justamente no papel social que as empresas devem ter, que a atual gestão da Fecomércio-RJ adota e incentiva que seus parceiros tenham mecanismos claros de ética e integridade. E, como disse, a pandemia só deixou isso mais evidente. E aqui vale ser transparente: a própria entidade teve problemas em gestões anteriores, que atrapalharam o seu desenvolvimento por um certo tempo, isso é inegável. Mas a Fecomércio-RJ, sua história e importância são maiores do que essa ou aquela gestão e por isso seguimos defendendo justamente que esses erros não se repitam. E, como disse, a pandemia só deixou isso mais evidente.

Ética, durante muito tempo, foi associada fortemente ao combate à corrupção. Isso deve-se ao fato de que os programas de integridade, voltados para a prevenção e o combate de crimes empresariais, passaram a ser implantados em 2013 em razão da Lei Anticorrupção (12.846/2013), que instituiu a responsabilidade objetiva das companhias.

Quando uma empresa cria seu próprio código de condutas e uma estrutura para fiscalizá-las no ambiente corporativo, ativa uma cadeia de eventos virtuosos que favorecem os negócios. Um sólido compliance consolida uma cultura ética que protege a companhia de prejuízos financeiros e a blinda de danos reputacionais.

Não por acaso, é também um sistema que tende a melhorar a imagem da empresa e lhe assegura mais respeito e confiança do consumidor. O cliente tende a ser fiel à marca se reconhece a honestidade como prática de uma instituição e compartilha desse valor. Crê que os produtos e serviços serão entregues conforme pactuado; que os preços são justos; e que seu dinheiro não alimentará esquemas espúrios. Fornecedores e investidores, por sua vez, sentem-se mais seguros para fazer transações num ambiente em que há regras claras sobre o que pode ou não ser feito.

De fato, o combate a corrupção é essencial e sempre será. O que a pandemia deixou claro é que ética nos negócios é um conceito muito maior, que pode ser resumido em uma ideia: respeito ao consumidor, fornecedores e à cadeia produtiva.

Em março de 2020, o Brasil mudou e, junto, as empresas tiveram que passar por uma depuração. Houve segmentos inteiros atingidos, a ponto de ruir. Outros cresceram a partir de um novo paradigma do mercado consumidor, criado com um mundo ainda mais conectado a aplicativos.

Como na teoria da evolução, há um processo de seleção natural – e quem se adapta tem vantagens competitivas. É certo que, com um novo país, emergirá um novo ambiente de negócios após a crise: mais tecnológico, com cidadãos mais exigentes e mais ativos nas redes sociais. Tudo isso, em algum grau, já existia até fevereiro de 2020. Mas a pandemia catalisou as transformações.

A oportunidade que temos, como representantes do setor produtivo, é de garantir que esse novo mercado brasileiro seja uma referência de eficiência e respeito às pessoas. Isso passa pela capacidade de incorporar à cultura empresarial dois conceitos: inovação e integridade. Em outras palavras, mudar, mas fazendo sempre o que é certo.

*Antonio Florencio de Queiroz Junior, presidente da Fecomércio-RJ

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