Pandemia gera novos casos… de fusões e aquisições

Pandemia gera novos casos… de fusões e aquisições

Mário Nogueira e Thiago Maroli*

30 de setembro de 2020 | 10h00

Mário Nogueira e Thiago Maroli. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Toda crise pode ser a origem de uma oportunidade de virada. Pode até parecer uma frase de autoajuda, mas que, no mundo dos negócios, é uma verdade, haja vista o anúncio de fusão entre duas importantes empresas no segmento de locação de veículo, Unidas e Localiza.

A crise econômica gerada pela pandemia do novo coronavírus abalou a estrutura de vários setores, reduzindo drasticamente vendas e o faturamento de empresas, que perderam vendas, clientes, tiveram aumento de ociosidade no uso de recursos imobilizados, demitiram seus funcionários, entraram em recuperação judicial e muitos ficaram à beira da falência ou faliram. Nesse ponto a crise foi bastante democrática e companhias importante nos mercados mundiais se viram, em poucos meses, em uma situação jamais imaginada.

Paralelamente apareceram as oportunidades e as estratégias para não morrer em um cenário tão adverso. As incorporações, aquisições, troca de ações são modalidades que se tornaram chave para a sobrevivência de muitas companhias, pois geram sinergias capazes de reduzir custos e aumentam faturamento e utilização dos ativos; enfim, uma operação de ganha-ganha. Isso tudo sem a necessidade de utilização de recursos financeiros, o tão-limitado caixa diante da situação econômica desses dias.Portanto, reorganizações desse tipo mostram-se uma alternativa eficiente para ganhar-se massa crítica, ao mesmo tempo não havendo necessidade de injeção de recursos financeiros, seja dos acionistas, seja de terceiros.

A operação entre Localiza e Unidas é um excelente exemplo. Ambas tinham uma forte atuação na área de turismo, seja de lazer, seja de negócios, mas foram fortemente afetadas com pelas políticas sanitárias de isolamento social, que impuseram severas restrições ao trânsito de pessoas por todo o País, seja de lazer, seja de negócios. Os executivos souberam ver uma oportunidade de negócio, sinergia e busca de vantagens (algumas desvantagens certamente) para ambos os lados.

Essas operações nas quais empresas que atuam no mesmo mercado ou em mercados complementares se unem de alguma forma para fugir da crise e se tornarem mais sólidas em momentos de incertezas não são novas. Já vimos e estamos vendo em outros setores, como o aéreo, hoteleiro, bancário e hospitalar, para citar alguns. A redução da demanda gera a necessidade imperativa de uso mais eficiente dos recursos.

Nem sempre determinado mercado tem espaço para os mesmos competidores num ambiente de pouca demanda. O que se deve buscar é o melhor ambiente concorrencial possível, no qual os ofertantes tenham capacidade de manter a oferta de produtos e, ao mesmo tempo, investir e inovar, sem que consigam, de forma unilateral, impor preços e, os demandantes, tenham opções para adquirir os produtos e serviços que desejam e mais atendem às suas necessidades. Vejam que nem sempre manter-se grande número de ofertantes é do interesse dos consumidores, se esses ofertantes não são capazes de manter um mínimo de capacidade financeira que os permita investir e inovar. Nessa linha, já tive aprovado pelo CADE uma operação resultante em um monopólio (na produção doméstica) em determinado mercado que, tão pequeno, não comportava dois ou mais concorrentes minimamente eficientes. Segundo dados divulgados pela consultoria KPMG, no primeiro semestre deste ano, o Brasil registrou mais de 500 operações de fusões e aquisições.

É um bom sinal para o futuro da economia. Um alerta para acompanharmos como será a atuação do governo e os órgãos de defesa da concorrência. O CADE deve olhar com atenção para os benefícios que se prevê advirão dessa operação para os consumidores, bem como de que modo cada parceiro do negócio como se comportará e como se antevê a concorrência no novo quadro com menos competidores. Avaliar sua atuação global e localmente, os perfis de negócios, o lado do consumidor e os outros atores de cada setor envolvido. E mais do que tudo, precisa ser estratégico, justo e correto para não um entrave nem para o crescimento da economia, o florescimento dos negócios, nem para uma concentração de mercadoabusiva.

*Mário Nogueira e Thiago Maroli, sócios de M&A e societário do NHM Advogados

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