Pandemia exige ‘darwinismo financeiro’ do investidor brasileiro

Pandemia exige ‘darwinismo financeiro’ do investidor brasileiro

Alexandre Pierantoni*

06 de outubro de 2020 | 03h00

Alexandre Pierantoni. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em um ano atípico, a única certeza dos investidores é a incerteza.  Este cenário, influenciado também por fatores macroeconômicos e políticas expansionistas, bem como por necessárias medidas de suporte econômico a uma parcela significativa da população brasileira, exige, em 2020, provavelmente a maior adaptação do investidor brasileiro da história. O principal fator desta mudança estrutural é a sequência de cortes da taxa de juros, atingindo seu menor nível da história, em 2% ao ano.

É notório que os investidores brasileiros estão experimentando uma realocação de recursos e diversificações de portfólio, aumentando sua exposição a risco e realizando investimentos na economia real. Se no cenário anterior havia um número reduzido de reais e líquidas opções de investimentos, hoje tem-se a opção de investimentos em diversos setores, em mais de uma empresa e perfil de atividade. Isso só demonstra a educação e amadurecimento do mercado de capitais no Brasil.

Observamos ainda intensa e interessante movimentação de grandes empresas em diversos setores que, aliada à forte atividade do mercado de capitais e captação de recursos, demonstram apetite para expansões, complementação de portfólio e verticalização de operações, em indicativo de fortes investimentos para o próximo ano.

As empresas de locação de veículos Localiza e Unidas, por exemplo, anunciaram recentemente um acordo de fusão que pode dar origem a uma das maiores empresas no segmento no mundo, com valor de mercado estimado em R$ 50 bilhões. Além disso, há grande expectativa para transações envolvendo outras líderes de setor, como a Laureate, Totvs, além de diversos ativos da Oi S.A.

Se olharmos para as atividades do mercado de capitais, e considerando o difícil período da economia brasileira, o cenário não poderia ser melhor. As operações de IPOs e Follow-ons estão em nível recorde, atingindo R$ 66 bilhões em 47 operações até setembro. A expectativa é ainda mais 40 operações ocorram neste ano, o que faria 2020 o melhor de todos os anos em captações, batendo a marca de R$ 100 bilhões. Isso cria um círculo virtuoso em diversos setores, inclusive para operações de Fusões e Aquisições.

A seletividade e educação do investidor, bem como a maior percepção e capacidade de análise de risco – principalmente com o instrumento de comparabilidade entre as opções de investimentos – fará uma seleção natural das melhores opções de investimento. Há 161 anos, quando o naturalista britânico Charles Darwin publicou o livro A Origem das Espécies e mudou radicalmente a biologia com sua Teoria da Evolução, não pensava que economistas, investidores e outros agentes de mercado e se atreveriam a extrapolar sua Teoria.

Com a diferença de que a luta pela sobrevivência acontece na “arena de investimentos”, em substituição à natureza de Darwin, o conceito é o mesmo: o que resiste não é necessariamente o mais forte e, sim, o que melhor se adapta às condições do ambiente.

Com a impressão de uma luz no fim do túnel após a incerteza causada pela pandemia, o mercado acredita que o pior já passou. Cabe agora ao Brasil fomentar as reformas necessárias para que, em um cenário pós-pandemia, possamos aumentar nossa atratividade para investimentos tanto internos quanto externos. A pandemia fez com que empresas e setores como um todo se reinventassem em como se relacionam com seu cliente, no seu processo de embalagem e distribuição e entrega de produtos e, principalmente no uso da tecnologia.

5 anos em 5 meses. Isto é adaptabilidade e adaptação ao ambiente. Darwin estava certo até no campo dos negócios.

*Alexandre Pierantoni, diretor executivo da Duff & Phelps no Brasil

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