Pandemia e saúde mental nas relações de trabalho

Pandemia e saúde mental nas relações de trabalho

Edson Alves da Silva e Julia Terciotti Malimpensa*

23 de março de 2021 | 08h30

Edson Alves da Silva e Julia Terciotti Malimpensa. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Há exatamente um ano o Brasil decretava suas primeiras medidas de restrições frente à pandemia mundial da Covid-19.

As consequências imediatas são noticiadas diariamente pela mídia, no entanto, as mediatas ainda são pouco conhecidas e, certamente, perpetuar-se-ão no tempo. O impacto de uma pandemia global no ambiente de trabalho é, sem dúvidas, uma delas.

Nessa toada, o trabalho sob uma ótica do mundo contemporâneo é mediador de integração social, tendo importância fundamental na constituição da subjetividade, no modo de vida e, portanto, na saúde física, mental e emocional das pessoas. Esse é o entendimento de Ana Paula Freitas Gulor, pesquisadora em saúde pública da Fiocruz, em pesquisa sobre Clima Organizacional e seus reflexos na saúde mental dos trabalhadores.

Mas, como equacionar equilíbrio mental em um cenário pandêmico de desemprego crescente? Dados recentes do IBGE estimam que o número de pessoas desempregadas chegou a 14,1 milhões no trimestre encerrado de outubro de 2020. Houve um aumento de 7,1% em relação ao trimestre terminado em julho, o que representa 931 mil pessoas a mais à procura de emprego no país. Com isso, a taxa de desocupação ficou em 14,3%, um crescimento de 0,5% em relação ao trimestre anterior. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD.

Contudo, o coronavírus não é o único fator. Vale ressaltar que, mesmo antes da pandemia, os dados sobre afastamento e adoecimento no trabalho já apontavam para resultados alarmantes. No ano de 2018, segundo Anuário Estatístico de Acidentes de Trabalho (veja abaixo), o Brasil teve 576.951 acidentes notificados, pouco mais de 19 mil acidentes a mais que o ano anterior. Destes, os transtornos mentais e comportamentais estão em 3º lugar como motivos dos afastamentos.

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Assim, temos que a situação de pandemia apenas atuou como catalisador para o debate sobre saúde mental nas relações jus trabalhistas.

No ano passado, a Organização Mundial de Saúde – OMS reafirmou a necessidade de existência de assistência psicológica e cuidados primários por profissionais de saúde mental no plano de controle da pandemia. Uma das medidas mais eficazes e eficientes para enfrentamento de uma pandemia com este nível de contágio – além da vacina, obviamente –  é o isolamento social, que atua restringindo aglomerações e a circulação livre de pessoas. Os efeitos disso são perdas nos vínculos sociais devido ao distanciamento, solidão, medo, tédio e sensações de vazio, desencadeando episódios por vezes depressivos, transtornos de ansiedade e ideações suicidas, conforme Paper italiano publicado pela Universidade de Harvard em setembro de 2020.

Por ser uma área ainda repleta de incertezas, tendo em vista a ausência de estudos aprofundados tendo em vista a contemporaneidade da pandemia, há escassez em quantificação de dados. Conforme boletim do Programa Integrado em Saúde Ambiental e do Trabalhador (PISAT), publicado no ano de 2019, que contabilizou os transtornos mentais entre os anos de 2006 e 2017 no Brasil, tem-se com 47% dos 8.474 casos mapeados são de reações ao estresse grave e os transtornos de adaptação. Elas ocorrem à medida que surgem acontecimentos estressantes ou uma alteração marcante na vida do trabalhador em razão das condições de trabalho ou da exposição a fatores estressores, como por exemplo, uma pandemia global. De acordo com o Boletim do PISAT de 2019, compreendem-se por fatores estressores ocupacionais do trabalho, sobrecarga e desequilíbrio na divisão das tarefas e de poder.

Já os episódios depressivos, com 24% dos transtornos mentais no Brasil, em consonância com a Portaria/MS n.°1.339/1999, caracterizam-se por humor triste, perda do interesse e prazer nas atividades cotidianas, sendo comum uma sensação de fadiga aumentada. Em terceiro lugar, com 17% do total estão os transtornos ansiosos que se caracterizam por uma preocupação excessiva constante sem motivo aparente, de forma descontrolada. Isso gera dificuldade de concentração, fadiga e irritabilidade, gerando até sintomas físicos, como taquicardia, por exemplo. Em quarto lugar, com 7% dos casos de transtornos documentados no Brasil, há o transtorno depressivo recorrente, quando há mais de um episódio da doença.

Segundo a Portaria do Ministério da Saúde, há também outros tipos de transtornos mentais relacionados ao trabalho que estão se tornando muito comuns: a síndrome do burnout, ou síndrome do esgotamento profissional. Caracterizada pelo esgotamento físico e mental do colaborador. Em resumo, esta síndrome ocorre dentro de uma situação de trabalho cujo contexto é tão desgastante que o trabalhador passa a viver em um estado constante de tensão e estresse, extrapolando o âmbito profissional.

De acordo com matéria divulgada pela Revista Forbes, a síndrome de burnout foi oficializada recentemente pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma síndrome crônica. Enquanto um “fenômeno ligado ao trabalho”, a OMS incluiu o burnout na nova Classificação Internacional de Doenças – CID-11, que deve entrar em vigor em 1º de janeiro de 2022.

Como base para identificação de tendências e de estatísticas de saúde em todo o mundo, a CID-11 tratará a síndrome de burnout como um problema associado ao emprego e/ou ao desemprego. Com essa nova classificação, o tema poderá ganhar mais visibilidade, facilitando o gerenciamento de afastamentos e incapacidades e aumentando o mapeamento.

Assim como no âmbito da inovação, a empatia para criar soluções simples focadas na experiência do usuário é tão preciosa quanto a empatia para lidar com saúde mental nas relações de trabalho.

Pensando nisso, o mercado de investimento em saúde mental vem crescendo no sentido de democratização do acesso ao tratamento e desenvolvimento desse espectro no ambiente laboral.

Fruto de uma preocupação latente, e muitas vezes sob a o rótulo de benefício, empresas vêm investindo cada vez mais em bem estar laboral, desentranhando a responsabilidade pela pasta do setor de recursos humanos para dar um novo nível de importância à área, assim como o compliance trabalhista, ouvidoria e canal de denúncias de outrora: quer seja com a genuína preocupação com o ser humano, quer seja com o intuito de melhoraria a sua imagem perante a sociedade, bem como com o fito de valorizar a sua marca, atração e retenção de talentos.

Rui Brandão, CEO da Zenklub, uma plataforma digital especializada em vender serviços no tocante à saúde emocional, em matéria publicada no Estadão citou uma pesquisa da Mercer Marsh no sentido de que um profissional perde, em média, sete horas semanais por estar vivenciando problemas emocionais, sendo estresse e depressão responsáveis por 67% dos ‘agressores’ da produtividade. O empresário ainda comentou que, a cada geração, a preocupação com benefícios de saúde mental nas empresas cresce em grande porcentagem, sendo ponto crítico ou muito relevante para 70% dos profissionais da geração Z ao avaliar um empregador. A plataforma Zenklub completou 5 anos em 2021 e, no mês de seu aniversário, recebeu aporte de 45 milhões de reais. Atualmente, oferece serviços para empresas como Ambev, Natura, Estadão e Votorantim.

Estima-se que um trabalhador feliz é 31% mais produtivo, três vezes mais criativo e vende 37% mais, de acordo com estudo da Universidade da Califórnia. O levantamento sobre bem-estar no ambiente de trabalho foi desenvolvido pela empresa de consultoria e auditoria PwC em parceria com a Universidade do Sul da Califórnia entre os anos de 2018 e 2019, coletando dados de mais de 1.425 trabalhadores. O objetivo era mapear as conexões entre as práticas de bem-estar e as consequências para os negócios.

A pesquisa comprova que o foco no bem-estar é uma habilidade essencial para manter o alto desempenho dentro e fora do trabalho e fornece algumas orientações sobre medidas a serem tomadas pelas organizações comprometidas em promover a qualidade de vida no local de trabalho.

Assim, conclui-se que o trabalho fomenta a saúde mental ao propiciar espaços de sociabilidade e ambiência, de formação da subjetividade e identidade pessoal e coletiva, ganhos na autoestima, resiliência e habilidades emocionais. No entanto , também, pode propiciar sofrimento, adoecimento, traumas, impactando negativamente toda a cadeia laboral e empresarial.

A promoção de ambientes de trabalho saudáveis –  com relações fundadas não só em respeito, solidariedade, empatia e gentileza, como também, em maior escala, na preocupação em estruturação, cultura, suporte psicológico acessível e gestão organizacional – , é tarefa desafiadora. Além de todos os fatores decorrentes de uma relação de trabalho comum, o distanciamento físico trazido pela pandemia tende a aumentar as barreiras já existentes e o trunfo de uma comunicação assertiva, precisa e clara, é cada vez mais valiosa nas relações interpessoais e, por derivação, nas relações de trabalho e produtividade.

*Edson Alves da Silva é sócio do Escritório Silva Matos Advogados, professor universitário, doutorando pela Universidade de Lisboa, mestre em Direito Processual Civil pela PUC-SP, especialista em Direito e Processo do Trabalho pela USP e em Direito Processual pela Universidade de Ribeirão Preto

*Julia Terciotti Malimpensa é advogada, pós-graduada em Direito Processual e Material do Trabalho pela Escola Paulista de Direito e aluna do curso de Eficiência Jurídica pela Escola Finted Tech School

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