Pandemia e risco político: quais as perspectivas para a retomada no Brasil?

Pandemia e risco político: quais as perspectivas para a retomada no Brasil?

Gabriel Brasil*

22 de setembro de 2020 | 04h45

Gabriel Brasil. FOTO: DIVULGAÇÃO

Desde o começo da pandemia, em meados de fevereiro, o Brasil tem enfrentado uma de suas piores crises, com dimensões sanitárias, sociais e econômicas com poucos precedentes na história. Agora, enquanto se enluta pelas perdas irreparáveis (e ainda contínuas) geradas pela COVID-19, se prepara para um período de retomada que, ao que parece, já passou pela sua pior fase – no âmbito econômico, pelo menos – mas segue marcado por múltiplos desafios políticos. Diante da tradicionalmente estreita relação entre os ambientes político e econômico no Brasil, isso deverá implicar riscos importantes para as empresas no próximo ano. Em geral, tais desafios orbitarão as dúvidas sobre o futuro da agenda liberal do ministro Paulo Guedes, mas não apenas. Riscos regulatórios, operacionais e reputacionais para empresas e investidores seguirão salientes na busca pelo aproveitamento das oportunidades apresentadas pela economia brasileira.

Ao enfrentar a ameaça crescente de um impeachment entre março e maio, o presidente Jair Bolsonaro passou a adotar uma postura mais pragmática junto ao Congresso do que aquela que havia mantido no começo do seu mandato – cedendo, de forma progressiva, espaços dentro do governo aos partidos do chamado Centrão. Como resultado disso, conseguiu consolidar uma base de apoio que é quase o dobro daquela que tinha antes da pandemia, segundo estimativas da Control Risks. Por consequência, mitigou, em significativa medida, os riscos de interrupção precoce do seu mandato.

A despeito disso, a agenda econômica de Guedes não tem tido vida mais fácil, e deverá continuar avançando a passos lentos no próximo ano. Em primeiro lugar, a base fixa do governo segue minoritária – e bastante menor do que os dois terços necessários para aprovação de emendas constitucionais, como requer a legislação brasileira para a maioria das reformas da lista de desejos de Guedes, incluindo a administrativa e a tributária. Em segundo lugar, mesmo com um apoio que seria, em tese, pré-contratado junto ao Centrão, o governo segue tendo dificuldades para garantir os votos desse bloco em temas específicos – provavelmente por ainda não dominar a dinâmica de atuação desse grupo, que atua orientado por incentivos tradicionalmente muito voláteis. Um bom exemplo disso foi a votação do Fundeb, no final de julho, quando o grupo governista na Câmara sofreu uma retumbante derrota, por 499 votos a 7, mesmo após já ter consolidado sua nova aliança junto ao Centrão.

Em terceiro lugar, o governo segue enfrentando desafios de coordenação. A renúncia de múltiplos secretários do ministério da economia nos últimos dois meses, por exemplo, ilustra esta tendência – bem como o embate público entre Guedes e o ministro de integração regional, Rogério Marinho, acerca da melhor estratégia para a condução da retomada em 2021. No geral, esses desafios de coordenação seguem materializados mais especificamente nas dificuldades em elaborar, enviar e aprovar no Congresso propostas concretas para a implementação das suas ideias econômicas. O caso mais emblemático é o da reforma tributária, cuja proposta foi prometida desde o meio do ano passado e, quando chegou, em julho deste ano, veio fatiada e com um nível de sofisticação notoriamente menor do que o das propostas já existentes no Congresso.

Diante de um cenário de poucas iniciativas por parte do presidente para endereçar estes desafios, é improvável que a agenda econômica do governo avance em ritmo mais acelerado do que o atual. Nos próximos meses, é virtualmente certo que o debate sobre a possível flexibilização do teto de gastos tomará conta da agenda política do Brasil – obstruindo o espaço para a discussão de agendas voltadas para o destrave de investimentos privados, como aquela em torno das privatizações. Projeções diversas entre economistas sugerem que, considerando o sufocamento dos gastos obrigatórios em 2020 frente à persistente pressão da previdência social (cujos custos seguem subindo acima da inflação) e dos impactos severos da recessão econômica, seu cumprimento nos próximos anos demandaria um esforço fiscal de reduzida viabilidade política.

Além disso, o sucesso do auxílio emergencial durante a pandemia sobre a popularidade de Bolsonaro – em recorde de alta na história do seu mandato, segundo o Datafolha – implica em incentivos elevados para a manutenção de uma agenda mais expansionista, com vistas à sua explicitamente desejada reeleição. Guedes terá, então, que se equilibrar num balanço complicado entre sua plataforma de austeridade e os desafios políticos da sua implementação. Embora Bolsonaro tenha, no decorrer da pandemia, melhorado suas condições de governabilidade, o ministro da economia não tem se beneficiado disso. No sentido contrário, na verdade, a flexibilização da sua plataforma tem sido pilar importante neste fenômeno – uma contradição que provavelmente persistirá no ano que vem.

Em termos de risco político para as empresas, essas incertezas continuarão representando um empecilho para planos de investimento em múltiplos setores. A volatilidade financeira segue elevada, impactando a taxa de câmbio e, principalmente, as taxas de juro de longo prazo –refletindo as preocupações fiscais do país. Em paralelo, setores que dependem de um apoio mais direto do governo diante da crise gerada pela pandemia na sua dinâmica de consumo, como aviação e turismo, também seguirão vulneráveis às incertezas de liquidez de médio prazo.

As perspectivas para investimento estrangeiro também seguirão marcadas por níveis elevados, em alguma medida, de ceticismo. No primeiro semestre, a despeito do aumento substancial de liquidez nos mercados internacionais, os fluxos de entrada de capital se reduziram significativamente no Brasil, gerando um resultado líquido negativo em 38 bilhões de dólares, segundo o Banco Central. No próximo ano, é provável que, a despeito da persistência de vastas oportunidades de investimento de longo-prazo em múltiplos setores, que parte das dúvidas a respeito do panorama político do Brasil prevaleçam, trazendo incertezas para as perspectivas de M&A e de investimento direto em greenfield por parte de investidores estrangeiros. A mal avaliada agenda ambiental do governo federal – cada dia mais criticada por organizações internacionais, inclusive fundos de investimento – seguirá sendo um empecilho adicional nesse sentido, impondo também riscos reputacionais para empresas que tenham alguma exposição na sua cadeia de fornecedores, mesmo que indiretamente. No âmbito operacional,  por fim, a reabertura experimentada nas principais capitais também tem trazido desafios, demandando um monitoramento tático assertivo por parte das empresas que desejam otimizar seu posicionamento neste novo paradigma operacional.

Estes riscos, no entanto, contrastam com múltiplas oportunidades. Com exceção de poucas indústrias onde o impacto da pandemia tende a se prolongar (como turismo), há demanda por investimentos em praticamente todos os setores da economia. A agenda de concessões do governo federal deve continuar rendendo frutos, trazendo novas oportunidades de investimentos na manutenção e expansão da infraestrutura de transportes e energia. Esta tendência seguirá avançando num ritmo favorável nos próximos anos dada a consolidada fluidez dos processos do Programa de Parceria de Investimentos (PPI) – e, sob a perspectiva do investidor estrangeiro, dado também o novo paradigma do câmbio em nível mais elevado, que favorece iniciativas de longo-prazo.

Ressalva-se, ainda, que parte dos riscos discutidos tem natureza inercial: isto é, são representados pela ausência de melhorias no ambiente de negócios por parte do governo – e não exatamente pela inviabilização direta da atividade das empresas por parte do setor público. Isso significa que setores com desempenho em trajetória positiva nos últimos anos – como o da construção civil – poderão continuar desfrutando de oportunidades crescentes oriundas, por exemplo, de uma demanda reprimida pelo baixo crescimento do país da última década. No âmbito do varejo, o alto desemprego não tem impedido a classe média brasileira de, em meio aos seus desafios, compor um vibrante mercado consumidor – que, aliás, tem sido destaque na incorporação de tendências globais, inclusive no sentido da absorção de hábitos fomentados pela pandemia, como a aceleração do e-commerce e do home office.

O maior escrutínio sobre temas ambientais por parte da sociedade, por sua vez, vem com a oportunidade de empresas com bons históricos nesse quesito explorarem suas credenciais e liderarem o processo de retomada da economia do pós-pandemia. A despeito das incertezas sobre o formato dessa retomada globalmente, segue – mais do que nunca – prevalecendo a certeza de que sustentabilidade fará parte dela.

Nesse ambiente que combina incertezas políticas e oportunidades econômicas, faz-se necessário para as empresas o monitoramento contínuo, tático e estratégico destas tendências, bem como o desenvolvimento de planos de avaliação prévia e mitigação para riscos políticos, operacionais e regulatórios que antecipem movimentos (por parte do governo, de reguladores e/ou da sociedade) com potencial de impacto relevante nos seus negócios. Afinal, antecipar-se a eventos potencialmente disruptivos continuará sendo, mais do que nunca, um diferencial competitivo significativo para virtualmente todos os setores. É razoável dizer que, no começo da pandemia, antes de os primeiros casos serem registrados no Brasil, tanto o governo como parte do setor privado desperdiçaram a oportunidade de se preparar adequadamente para enfrentar os desafios que viriam. O país tem, agora, na retomada, uma nova chance de se sair melhor.

*Gabriel Brasil é economista pela UFMG, mestre em economia política internacional pela USP. Trabalha como analista de risco político, operacional e de segurança para a consultoria Control Risks

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