Pandemia, distanciamento, máscaras e machismo

Pandemia, distanciamento, máscaras e machismo

Vivaldo José Breternitz*

10 de maio de 2020 | 16h00

Vivaldo José Breternitz. FOTO: DIVULGAÇÃO

Algumas coisas, acerca das quais parece haver quase unanimidade nesses tempos de pandemia, são a necessidade do distanciamento social e do uso de máscaras.

Mas alguns líderes políticos, que deveriam dar exemplo aos seus cidadãos acerca desses cuidados, fazem exatamente o contrário. Dentre esses, os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump e o primeiro ministro do Reino Unido, Boris Johnson, que chegou a ser chamado “super contaminador” pelo jornal The Guardian, por distribuir abraços e apertos de mão em abundância – Johnson acabou contraindo a covid-19 e sendo hospitalizado, tendo, no entanto, se recuperado.

Estudando o assunto, os pesquisadores americanos Peter Glick e Jennifer Berdhal concluíram que a causa dessa postura reside no machismo, na necessidade de não demonstrar fraqueza.

A recusa em usar máscaras e aderir ao distanciamento enfraquece a mensagem de que os cidadãos comuns devem tomar precauções. Governantes que estão mais preocupados em afirmar sua masculinidade em público, desprezando a orientação da ciência, acabam colocando nossas vidas em risco.

Além disso, esses governantes são hipersensíveis, buscando o conflito com aqueles que discordam de suas posturas; cada situação em que recebem críticas é, para eles, uma disputa do tipo matar ou morrer, em que é sempre necessário acertar contas com aqueles que não estão inflando seu ego. Um sintoma disso, que pode ser observado aqui e nos Estados Unidos, é que estados onde governadores discordam das posturas dos presidentes, ao que parece, estão sendo prejudicados na distribuição de recursos para enfrentar a pandemia.

Os dois pesquisadores afirmam também que governantes desse tipo montam equipes de governo disfuncionais, que operam mal em tempos de crise. Glick e Berdhal falam em um ambiente similar ao da série de televisão Game of Thrones, na qual os subordinados competem incessantemente para obterem os favores do chefe, ficando a eficiência da organização em segundo plano.

Todos os três, Bolsonaro, Johnson e Trump, além de terem ignorado os riscos como forma de provar sua masculinidade, viram seus governos se atrasarem ou falharem na tomada de medidas de segurança que poderiam ter salvado vidas.

Como sempre, as esperanças estão nas próximas eleições.

*Vivaldo José Breternitz, doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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