Pandemia acelera busca por soluções energéticas mais verdes

Pandemia acelera busca por soluções energéticas mais verdes

Conforme setores mais poluentes são forçados a se adaptar, abre-se espaço para infraestrutura sustentável com novas tecnologias e oportunidades de trabalho

Rachel Andalaft*

08 de agosto de 2020 | 09h00

Rachel Andalaft. FOTO: DIVULGAÇÃO

De acordo com estimativas da Agência Internacional de Energia, a emissão de gases de efeito estufa em 2020 será 8% menor quando comparada com o ano passado. Isso representa a maior queda anual desde a segunda guerra mundial.

Apesar da ordem de grandeza, esse percentual ainda é muito pequeno se levarmos em conta que, mesmo que os hábitos da população mudem permanentemente, ainda resta algo em torno de 90% das medidas necessárias para se cumprir a meta mais ousada do Acordo de Paris.

O que a própria experiência da quarentena nos mostra é que a pandemia pode ser justamente o catalisador para uma mudança menos custosa em termos financeiros, econômicos e sociais. Conforme setores mais poluentes reduzem forçosamente as suas atividades e se adaptam, abre-se um enorme espaço para políticas que fomentem uma infraestrutura verde, com novas tecnologias e oportunidades de trabalho.

Transição energética

Durante o período de inatividade, o consumo de energia renováveis aumentou 1,5% em boa parte do mundo enquanto houve uma queda drástica em todas as demais fontes.  Citando os EUA como exemplo, onde a geração a base de carvão está prevista para cair 25% em comparação com 2019, já se espera que a participação das renováveis ultrapasse a de geração a carvão, tal como aconteceu no Reino Unido em fevereiro, quando as energias renováveis supriram mais de 40% da energia da região.

O Brasil não se encontra muito distante dessa realidade. Com base em dados da Absolar, representante da indústria de energia solar, pequenas e grandes usinas fotovoltaicas já somam 5,76 GW de capacidade instalada, valor superior às termelétricas a carvão e nucleares juntas.

Sendo essencialmente usado para a geração de energia, não é difícil de se imaginar que o carvão será largamente substituído, conforme grandes grupos geradores fazem uso de financiamento barato para atualizar o seu portfólio de usinas. Dada a tecnologia disponível, as usinas modernas inclusive já se mostram mais vantajosas quando comparados os custos de se manter as plantas antigas em funcionamento.

Também não é improvável contemplar um sistema elétrico onde as baterias de armazenamento entrem em operação para fazer um trabalho semelhante às termelétricas a gás que fornecem energia apenas nos momentos de pico (“peaker” plants). É o que já se observa nos EUA. O estado de Minnesota anunciou que vai substituir a produção a carvão, instalar 1,1 GW de capacidade eólica e atingir a marca de 95% de energia limpa. Na California haverá a substituição de produção a gás por 770 MW de capacidade híbrida (solar mais armazenamento). E em North Dakota, a redução na produção a carvão está abrindo espaço para a implementação de novas tecnologias de armazenamento. Cabe lembrar que esses desenvolvimentos se dão apesar de uma política federal de apoio às fontes fósseis.

Vontade política

Apesar de justificadas acusações de morosidade e burocracia, além de um vigoroso lobby da indústria tradicional, a Europa tem tido sucesso em manter um ritmo constante de investimentos no longo prazo. Entre as políticas públicas que receberão até um quarto do orçamento da União Europeia, cerca de 200 bilhões de Euros, estão a eficiência energética (na adequação de imóveis para uma economia de baixo carbono), o transporte não poluente, o uso do hidrogênio como fonte energética e a energia renovável.

Somando-se todos os programas, estima-se um adicional de 1% no PIB, além de 1 milhão de novos empregos em 10 anos. Porém, com os países do bloco gravemente afetados pelos impactos econômicos da pandemia, houve o bom senso de se permitir uma certa flexibilidade para que cada país possa destinar os recursos. Como a própria história europeia mostra, não é prudente enfrentar grandes desafios nacionais com radicalismo, dado o enorme custo que essa estratégia impõe à sociedade. É importante notar, no entanto, que no cenário europeu a vontade política conta com um nítido apoio do mercado. Muitos líderes de grandes empresas apoiam publicamente a descarbonização da economia.

Finanças verdes

Apesar do atual impacto negativo na imagem institucional, o Brasil optou por outras iniciativas bem-sucedidas do mercado financeiro para viabilizar a sua agenda de sustentabilidade.  Afinal, ao contrário da Europa, é fato que não existem recursos públicos disponíveis para programas mais consistentes.

O Decreto 10.387, publicado recentemente, vai nessa direção ao incluir no rol de projetos prioritários aqueles de maior impacto ambiental e social, se aproveitando da regulamentação das debêntures incentivadas. Isso facilitará a inserção do transporte de baixo carbono, de novas usinas renováveis e de maior saneamento. Quanto mais relevante o seu benefício para a sociedade, maior a celeridade na sua aprovação pelos respectivos ministérios.

Esse novo arcabouço legal somado ao Plano de Combate ao Desmatamento Ilegal, que pretende dar um carimbo verde para toda uma gama de produtos de renda fixa, altamente conhecida do público investidor, dão força à estratégia de substituir o desmatamento decorrente da pecuária e da produção agrícola por projetos economicamente viáveis para preservar a floresta.

Por enquanto, esta é uma estratégia para ser apreciada com moderação: somente um contexto social e econômico mais abrangente impedirá que essas medidas resultem em “Green Washing” e consequente risco reputacional. O que é evidente é que, apesar de fundamentalmente distintos, os sistemas da Europa e dos EUA reforçam o óbvio:  sem mercado não basta haver boa política e, havendo mercado, contornam-se até más políticas.

*Rachel Andalaft é sócio-fundadora da REA Consult, empresa internacional especializada na viabilização de investimentos e gestão de transações em energia renovável. Engenheira formada pela USP e com especialização financeira pela Frankfurt School of Finance, atua na Europa e no Brasil

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