Palocci delator relata R$ 30 mi da J&F para compra de apoio do MDB a Dilma em 2014

Palocci delator relata R$ 30 mi da J&F para compra de apoio do MDB a Dilma em 2014

Depoimento do ex-ministro dos governos do PT à Polícia Federal, no dia 30 de maio, levou os investigadores a pedirem mais 60 dias de prazo para novas diligências, inclusive 'saber quem entrou na residência do ex-presidente do Senado, Renan Calheiros, no período eleitoral'

Luiz Vassallo, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

27 de junho de 2019 | 05h20

Dilma Rousseff e Antonio Palocci. Foto: André Dusek / Estadão

O ex-ministro Antonio Palocci relatou à Polícia Federal em Brasília supostas propinas da J&F ao MDB no Senado para a suposta compra do apoio do partido à candidatura de reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2014. A investigação tem como base a delação de executivos do Grupo e está no Supremo Tribunal Federal por mirar senadores emedebistas que ainda têm foro privilegiado.

Documento

Em janeiro, o delator, que fez parte dos governos Lula e Dilma, se ofereceu para falar a respeito de políticos do MDB. Seu depoimento foi tomado no dia 30 de maio. Após seu depoimento, a Polícia Federal pediu mais 60 dias para a continuidade do inquérito.

Entre as diligências, os agentes querem saber quem entrou na residência do ex-presidente do Senado, Renan Calheiros, no período eleitoral, em 2014. As investigações também receberam um depoimento de um dos alvos que relatou a entrega de malas de dinheiro em suposto benefício do emedebista.

Palocci reitera fatos já expostos pelos executivos da J&F. Ele somente deixou de citar alguns nomes de empresas que constam ainda em termos sigilosos de sua colaboração. Em delação, Joesley Batista informou à Procuradoria-Geral da República que o grupo mantinha duas ‘contas-correntes’ de propina no exterior em suposto benefício de Lula e Dilma, com US$ 150 milhões, em 2014. Ele disse que o ex-ministro Guido Mantega (Fazenda/Governos Lula e Dilma) operava as contas.

No final das eleições 2014, Palocci diz ter recebido ‘uma solicitação do então Ministro Guido Mantega para disponibilizar R$ 30.000.000,00 (trinta milhões de reais) da reserva de referida conta do PT para o PMDB do Senado’ e que Joesley ‘relatou que Mantega havia pedido pressa no pagamento pois havia risco de perda do apoio do PMDB do Senado na eleições presidenciais de 2014’

“Joesley relatou ao Depoente que estranhou a solicitação e então procurou a Presidente Dilma para confirmar se o pagamento deveria ser realizado; que Joesley relatou ao Depoente que a Presidente Dilma disse a seguinte frase: “é para fazer”, consta no termo de depoimento de Palocci.

Renan

Segundo Palocci, Joesley teria lhe dito que ‘estava lidando naquele momento com uma reclamação de Michel Temer, do Partido MDB, acerca do fato de Joesley estar contribuindo exclusivamente com senadores da sigla’.

Joesley Batista relatou ao Depoente que os ajustes para o pagamento dos referidos trinta milhões eram feitos pelo Senador Renan Calheiros; QUE Joesley perguntou ao Depoente se RENAN CALHEIROS era de fato uma pessoa do PMDB que gozava da confiança do PT, tendo o Depoente respondido afirmativamente na medida em que conhecia a atuação de Renan Calheiros na liderança do Senado e fidelidade ao governo.

Histórico

Palocci afirma que ‘no final de 2011 o Senhor Joesley Batista confidenciou ao Depoente que havia recebido uma solicitação do ex-Ministro Guido Mantega para que ele providenciasse a abertura de uma conta no exterior em seu próprio nome nos Estados Unidos’. “Joesley Batista, na oportunidade, ofereceu ao Depoente a utilização dessa conta
para o pagamento de eventuais valores indevidos”.

Segundo o delator, o ‘segundo episódio se deu a partir do contato de um acionista de uma grande grupo empresarial que havia realizado operação ilícita com o PT para checar se sua conduta estava correta, pois tinha recebido a orientação de depositar o valor da referida propina em conta no exterior, de propriedade de Joesley Batista’.

Palocci ainda diz que o terceiro episódio ocorreu no ano de 2012 quando Joesley relembrou a Palocci ‘acerca da existência da conta no exterior em razão do recebimento de valores indevidos, no montante de US$ 19.000,000,00 (dezenove milhões de dólares) de um conglomerado empresarial de São Paulo, fruto de negócios ilícitos estabelecidos com o governo do PT’.

De acordo com o ex-ministro, ‘o quarto episódio diz respeito ao fato do Depoente ter tomado conhecimento de que um tesoureiro do PT apresentava a alguns empresários número de conta no exterior para recebimento de valores indevidos para o Partido’.

Palocci afirma que ‘checou essa informação junto ao referido tesoureiro e outras pessoas, inclusive Joesley Batista, e descobriu que esta conta se tratava da mesma de Joesley a e qual era disponibilizada para recebimento de valores ilícitos por parte do PT’.

A investigação

O inquérito foi aberto em maio, pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF). As suspeitas foram levantadas nas delações premiadas do executivo Ricardo Saud e do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.

Em sua delação, Saud disse ter havido pagamento da ordem de R$ 46 milhões a senadores do MDB, a pedido do PT. De acordo com o executivo, apesar de diversas doações terem sido oficiais, trata-se de “vantagem indevida”, já que dirigentes do PT estariam comprando o apoio de peemedebistas para as eleições de 2014 para garantir a aliança entre os dois partidos.

Segundo o delator, o pagamento milionário tinha o objetivo de manter a unidade do MDB, devido ao risco na época dos fatos de que integrantes do partido passassem a apoiar formalmente a campanha do senador Aécio Neves (PSDB-MG) à Presidência da República em 2014.

O esquema teria beneficiado os senadores Eduardo Braga (MDB-AM), Jader Barbalho (MDB-PA), Eunicio Oliveira (MDB-CE), Renan Calheiros (MDB-AL), Valdir Raupp (MDB-RO) e o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Vital do Rego.

Sérgio Machado, por sua vez, declarou ouvir em reuniões ocorridas na residência de Renan, “que o grupo JBS iria fazer doações ao PMDB, a pedido do PT, na ordem de R$ 40 milhões”.

LEIA O DEPOIMENTO DE PALOCCI:

COM A PALAVRA, DILMA ROUSSEFF

A assessoria informou que a ex-presidente não obteve acesso ao depoimento.

COM A PALAVRA, J&F

O grupo afirmou que não vai comentar.

COM A PALAVRA, GUIDO MANTEGA

Procurada, a defesa não comentou. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO LUÍS HENRIQUE MACHADO, QUE DEFENDE RENAN

“A delação de Palloci, como é de notório conhecimento, foi recusada pelo Ministério Público por ausência de provas. No que tange à delação de Ricardo Saud, e de pessoas vinculadas a JBS, a própria PGR pediu a revogação dos acordos. Nesse contexto, são delações que não gozam de qualquer credibilidade. É válido lembrar que 10 processos já foram arquivados em relação ao Senador Renan, em grande parte por menções irresponsáveis de delatores que visam tão somente o benefício do acordo entabulado com as autoridades investigativas, sem apresentar nenhuma prova que desabone a sua conduta.”

Luis Henrique Machado
Advogado do Senador Renan Calheiros

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