Boicotada por bolsonaristas, palestra de Fux no Sul foi cancelada por ‘recomendação’ da segurança do STF

Boicotada por bolsonaristas, palestra de Fux no Sul foi cancelada por ‘recomendação’ da segurança do STF

Informação sobre a intervenção da Secretaria de Segurança do Supremo Tribunal Federal para que o ministro não fosse a Bento Gonçalves no dia 3 de junho foi divulgada pela Corte; presidente do STF desistiu do evento após recuo do Centro da Indústria e Comércio da cidade, que pressionado por empresários transferiu organização para subseção da OAB

Rayssa Motta

26 de maio de 2022 | 18h19

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Fux cancelou participação em evento no Rio Grande do Sul. Foto: Nelson Jr./SCO/STF

Depois de idas e vindas, o ministro Luiz Fux, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), cancelou de vez a palestra que daria em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, no próximo dia 3. Ele falaria sobre ‘Risco Brasil e Segurança Jurídica’.

Em nota enviada ao blog, o gabinete do ministro informou que o cancelamento foi uma “recomendação da equipe de segurança do STF em razão da localização do evento”. O tribunal afirma que o procedimento é padrão e envolve “análise de riscos, levando em conta, principalmente, as áreas, instalações e acessos aos locais dos eventos”.

“No caso de Bento Gonçalves, a palestra coincidiria com a montagem de um grande evento naquele município. Considerando que a segurança não teria como controlar o acesso e o trânsito dos convidados, a Secretaria de Segurança do STF contra-indicou a ida do ministro Fux”, diz o texto.

O material de divulgação já estava circulando nas redes sociais quando empresários bolsonaristas iniciaram um boicote ao evento, organizado pelo Centro da Indústria e Comércio (CIC) de Bento Gonçalves. Duas patrocinadoras, a financeira Sicredi e marca de produtos de limpeza Saif, fizeram pressão contra a presença do presidente do STF.

No Facebook, o empresário Roni Kussler, dono da Saif, chegou a dizer que pediu cancelamento da vinda do ministro e “esclarecimentos” do CIC sobre o convite. A publicação não está mais disponível. O site GaúchaZH divulgou que a Sicredi enviou uma carta aos seus associados de Bento Gonçalves informando que, “considerando os impactos da nossa marca”, havia pedido para ter o nome dissociado do evento.

Presidente da subseção da OAB em Bento Gonçalves diz que entidade é ‘apartidária’ e lamentou cancelamento do evento. Foto: Reprodução

Procurado pela reportagem, o CIC não quis comentar a pressão dos empresários. A entidade informou que cancelou a palestra por “motivos de segurança”. A nota diz ainda que a sede fica no Parque de Exposições da Fenavinho, que começa em 9 de junho e já está em fase de montagem, o que dificultaria a logística e a operação de segurança.

A organização da palestra chegou a ser transferida para a subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Bento Gonçalves, mas o gabinete de Fux informou ontem que o ministro não participaria mais do evento. A OAB é associada do Centro da Indústria e Comércio da cidade e as duas entidades costumam organizar eventos em parceria.

O advogado Rodrigo Terra de Souza, presidente da subseção da OAB em Bento Gonçalves, disse ao Estadão que a entidade é “apartidária” e lamentou o cancelamento do evento.

“Não é uma questão de esquerda ou de direita. As pessoas não conseguem diferenciar o que é interesse político-partidário e o que é interesse democrático. Essa é a maior frustração”, afirmou ao blog.

O CIC diz que o evento foi cancelado por “questões de segurança”. Foto: Reprodução

Para o advogado, o caso é ainda mais simbólico porque Fux exerce hoje a função, não apenas de ministro do STF, mas de presidente da instituição, cargo máximo do Judiciário.

“É uma situação de até vergonha, pela comunidade se portar dessa forma. A gente sabe que é uma minoria que faz isso, mas hoje com o advento das redes sociais está muito fácil gritar”, acrescentou.

O deputado federal Bibo Nunes (PL-RS) comemorou o cancelamento do evento nas redes sociais. Ele disse que o STF “nunca foi tão desprezado como nos dias atuais”. “É a reação pelas ações”, escreveu. O parlamentar também afirmou que estavam programados “protestos pacíficos e ordeiros, que fazem parte da democracia”, contra Fux.

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