Pai primeiro, tio depois

Pai primeiro, tio depois

Porteiro registra a filha da irmã falecida, em Fortaleza; menina de 12 anos tem, agora, duas mães e um pai

Redação

29 de maio de 2015 | 05h30

novas famílias - testeira

Foto: Martin Walls/Free Images

Foto ilustrativa: Martin Walls/Free Images

“Eu trabalho de porteiro e minha esposa é doméstica. Desde que ela era pequena, eu já fazia coisas de pai. Levo ao dentista, ao médico, vou à reunião de colégio. Eu tenho mais tempo, trabalho dia sim, dia não. Minha esposa trabalha em dois cantos, todos os dias, não tem tempo. Ela foi crescendo com meus filhos, aprendeu a falar me chamando de pai. A Camilly conviveu com a mãe dela até os sete anos. Minha irmã faleceu em 2011, elas moravam comigo. Hoje a Camilly tem onze anos, em setembro faz 12 anos. O cidadão era o pai era só no registro. Ele sabia que ela existia e tudo, mas nunca fez contato de nada. Você cria uma criança, dá amor e tudo, e outra pessoa que não tem nada a ver aparece de vez em quando e resolve um problema da criança. A gente entrou com o pedido de adoção, demorou quase um ano. No dia da audiência, a gente foi chamado em uma sala, porque a Camilly falou que ficava um pouco triste em tirar o nome da mãe do registro, disse que se ficasse o nome dela ia ser bom. A juíza na hora chamou para falar que ela tinha dito isso. Como ela achou que podia fazer assim (a multiparentalidade), para a gente foi ótimo. Por parte da minha mãe, ela estava chateada porque eu ia tirar o nome da filha dela. Ela gostou muito que não vai tirar o nome da mãe dela, o registro antigo vai ter guardado nas coisas dela. Mas uma parte da família ficava falando algumas coisas, ela chegava meio chateada. Eu dizia que aquilo era só comentário, não tinha nada de verdade. Ela ficou um pouco confusa, achando que ia mudar quando a gente fosse mesmo os pais dela, que não ia ser como antes. Para mim, não vai fazer diferença. Eu tenho 44 anos e fui registrado pelos meus avós. No meu documento, eu sou irmão da minha mãe. Eu nunca vi nenhum problema. Por que no da Camilly vai ter? Quando a gente foi fazer a certidão de nascimento, o cartório disse que já estava fazendo (registro com) duas mães e dois pais, mas duas mães e um pai era novidade. O sistema deles ainda não está preparado. Como é uma ordem judicial, eles começaram a trabalhar para finalizar o pedido da juíza. Quando eu tiver tudo em mãos, vai dar tudo certo. A situação vai ficar toda legalizada, vou poder resolver os problemas dela. Sem a documentação, tudo é mais difícil de resolver. Você é o que dela? Eu sou tio. Não é igual a pai. Ela nasceu com problemas de saúde. O esôfago dela não nasceu completo. Ela passou uns 2 meses se alimentado por uma sonda. Com uns 4 meses, conseguiu fazer a restauração. Ela não tem mais sonda desde bebê, se alimenta normal. Ela é uma criança um pouco frágil, sente umas dores na parte da cirurgia, tem facilidade de pegar uma gripe, e a gente leva de vez em quando ao hospital. Como eu vou a um órgão e não sou pai? Como eu não era pai, não iam querer me mostrar nada. Era chato demais isso. Agora, vai ser resolvido. Eu tenho 4 filhos, além dela. Duas já são casadas. Os outros dois ainda moram comigo. A criança tem que ter uma alimentação boa, liberdade de conversar com os amigos, disciplina. Amor e carinho são muito importantes. Tem que mostrar o que ela não deve fazer, porque se não mostrar ela vai ficar sempre repetindo. Para castigar não precisa espancar, xingar, basta um dia, algumas horas, sem poder ver ou fazer coisas que ela gosta. Assim, eu criei meus filhos, eles nunca fizeram coisa errada. Família é aquela que todo mundo se dá bem. Você respeitar seu filho para ele te respeitar, demonstrar coisa boa, porque talvez ele vá fazer a mesma coisa. Se uma criança está em um ambiente com coisas negativas ela vai crescer naquela situação e vai achar que aquilo é normal. Qual a criança que quer ficar em um canto onde não é bem cuidada, onde não tem amor? Lá em casa ela vê o cuidado, tem amor.”

Depoimento de Rogério Dias de Souza à repórter Julia Affonso

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