Conta de pai do governador do Acre recebeu R$ 420 milhões nos oito primeiros meses de mandato do filho, aponta relatório do Coaf

Conta de pai do governador do Acre recebeu R$ 420 milhões nos oito primeiros meses de mandato do filho, aponta relatório do Coaf

Gladson e Eládio Cameli são investigados pela Polícia Federal na Operação Ptolomeu

Rayssa Motta e Fausto Macedo

03 de janeiro de 2022 | 15h34

*Atualizado às 14h46, do dia 05/01, para manifestação de Eládio Cameli

As movimentações financeiras suspeitas que arrastaram o governador do Acre, Gladson Cameli (PP), para o centro de um possível esquema de desvios em contratações na Saúde e Infraestrutura também colocaram seu pai, Eládio, na mira da Polícia Federal.

Documento

Relatório produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta que, entre janeiro e agosto de 2019, período que coincide com os primeiros meses de mandato de Gladson, o patriarca movimentou R$ 420,4 milhões em uma conta na Caixa Econômica.

O volume de dinheiro chamou atenção das autoridades por causa do crescimento vertiginoso em relação ao mês anterior. Entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019, a conta recebeu R$ 107 mil. O maior salto, no entanto, acontece de fevereiro para março de 2019, quando o saldo bancário passa de R$ 525 mil para R$ 50 milhões.

Pai do governador, Eládio Cameli, entrega a faixa ao filho, na solenidade de posse em 1º de janeiro de 2019. Foto: Odair Leal/Secom Governo do Acre

O irmão do governador, Gledson Cameli, também está sendo investigado. Isso porque o governador tentou usar uma empresa registrada no nome dele para comprar um apartamento de R$ 5 milhões em São Paulo. A construtora responsável pelo empreendimento rejeitou a proposta e comunicou o episódio ao Coaf.

A transação imobiliária está sob suspeita porque, segundo a linha de investigação da PF, pode ter sido uma estratégia para lavar dinheiro de propina e ocultar que o governador seria o real dono do apartamento. Detalhes do inquérito foram divulgados em primeira mão pelos jornalistas Fábio Pontes e Leonildo Rosas e confirmados pelo Estadão. Pontes edita o blog que leva seu nome. Seu colega é responsável pelo site Portal do Rosas.

Pai e filho foram alvo de buscas da Polícia Federal na Operação Ptolomeu. Eles são investigados no inquérito sobre indícios de um suposto esquema de propinas em troca do direcionamento de licitações, contratações superfaturadas e a confirmação de recebimento de mercadorias não entregues e de serviços não prestados na área da Saúde e em obras públicas.

COM A PALAVRA, OS ADVOGADOS TICIANO FIGUEIREDO E PEDRO IVO VELLOSO, QUE DEFENDEM O GOVERNADOR 

“A investigação é um emaranhado de assuntos desconexos. De um lado, tentam, em vão, criar um vínculo espúrio entre o governador e contratações lícitas realizadas pelo Estado. De outro lado, esmeram-se em levantar suspeitas sobre as finanças do governador. Apenas suspeitas são lançadas, nenhuma imputação de crime é realizada. São apenas ilações desconexas que, com o devido respeito, não poderiam justificar a realização de medidas invasivas como a busca e apreensão e o bloqueio de bens.

Todas as suas movimentações financeiras são lícitas e o seu patrimônio tem origem conhecida, seja no âmbito privado, seja na renda auferida em razão das funções públicas ocupadas.

Em razão disso, a defesa do Governador Gladson Cameli irá apresentar o recurso cabível e confia que a decisão será objeto de revisão. Apesar de discordar veementemente do que consta na investigação, a defesa vem expressar que confia plenamente no Poder Judiciário e nas instituições republicanas.”

COM A PALAVRA, ELÁDIO CAMELI

“O empresário Eládio Cameli, em razão do noticiário, vem a público esclarecer que:

• Ele e as empresas das quais é sócio não participaram de processos licitatórios ou de contratações diretas com o governo do Acre na atual gestão;

• Inexiste a movimentação de R$ 420 milhões em sua conta corrente;

• Todo seu patrimônio é fruto de décadas de trabalho, tendo como comprovar a origem lícita da integralidade do patrimônio;

• Ele confia na Justiça brasileira e espera que, ao final da investigação, seja verificada sua total isenção com relação a qualquer fato tratado na investigação.”

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