‘Pagou não seria chamado’, diz empreiteiro sobre chantagem da CPI da Petrobrás

‘Pagou não seria chamado’, diz empreiteiro sobre chantagem da CPI da Petrobrás

José Antunes Sobrinho, do Grupo Engevix, relata ao juiz Sérgio Moro que em reunião na casa do então senador Gim Argello, em 2014, ouviu pedido de 'contribuição' de R$ 5 milhões para não ter que depor na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Congresso

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

26 de junho de 2016 | 06h00

José Antunes Sobrinho. Foto: André Dusek/Estadão - 16/09/2013

José Antunes Sobrinho. Foto: André Dusek/Estadão – 16/09/2013

O empresário José Antunes Sobrinho, sócio do Grupo Engevix, declarou ao juiz federal Sérgio Moro que durante uma reunião, em 2014, na casa do então senador Gim Argello (PTB/DF), em Brasília, ouviu pedido de ‘doação’ no valor de R$ 5 milhões em troca de não ter que depor na CPI Mista da Petrobrás, em curso no Congresso naquele ano.

Sobrinho definiu a estratégia de pressão adotada por Gim Argello que agia supostamente em nome da CPI Mista da Petrobrás, chantageando empreiteiros. “Pagou não seria chamado”, disse Sobrinho. “Deixando de pagar seria chamado”.

O empreiteiro depôs na sexta-feira, 24, como testemunha na ação penal contra Gim Argello, preso na Operação Vitória de Pirro, desdobramento da Lava Jato.

José Antunes Sobrinho também é réu da Lava Jato, mas em outro processo na Justiça Federal do Rio – decorrente da Operação Radioatividade, que em julho de 2015 prendeu o almirante Othon Pinheiro, ex-presidente da Eletronuclear acusado de recebimento de R$ 4,5 milhões em propinas nas obras da usina de Angra 3.

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Sobrinho negociou delação premiada com a força-tarefa do Ministério Público Federal, mas o acordo não foi fechado.

Na audiência do processo contra Gim Argello, realizada sexta na Justiça Federal de Curitiba – base da Lava Jato – Sérgio Moro indagou do empreiteiro se o então senador cobrou R$ 5 milhões de cada empresa ou R$ 5 milhões de todas as empresas citadas na CPI Mista da Petrobrás.

“Cinco milhões pra cada empresa que viesse a participar, ou seja, se são oito empresas seriam R$ 40 milhões”, respondeu enfaticamente Sobrinho.

A Operação Vitória de Pirro descobriu que a UTC Engenharia, do empreiteiro Ricardo Pessoa – condenado nesta sexta a oito anos e dois meses de prisão – atendeu à solicitação de Argello e repassou R$ 5 milhões. A OAS, outra empreiteira alvo da Lava Jato, pagou R$ 350 mil que foram parar na conta de uma igreja de Taguatinga, no Distrito Federal, frequentada pelo ex-senador.

Sobrinho disse que ouviu o pedido, mas afirma que a Engevix não contribuiu com nada. Nem por isso ele e seu sócio Gérson de Mello Almada foram chamados para depor na CPMI da Petrobrás.

Ele contou que soube da pressão da CPMI durante um encontro em um restaurante no Aeroporto Juscelino Kubtscheck, em Brasília, com o empreiteiro Léo Pinheiro, dono da OAS. “Ele (Léo Pinheiro) disse da preocupação muito grande das empresas envolvidas na Lava Jato e que gostaria de saber do interesse da Engevix, se nós tínhamos interesse de participar de um grupo de empresas que faria uma colaboração para que a CPMI fosse barrada, de forma que os executivos não fossem chamados a prestar depoimento.”

O procurador da República que participou da audiência perguntou. “Qual o valor que ele (Léo Pinheiro) sugeriu?”
“O valor sugerido para cada empresa era de R$ 5 milhões”, respondeu Sobrinho.

O procurador indagou sobre as empresas que teriam sido ‘convidadas’ a contribuir para se verem livres da CPMI. “Além da OAS, a Toyo Setal, a UTC, a Camargo Corrêa, a Odebrecht. Não sei se Galvão ou Queiroz Galvão. Ele (Léo Pinheiro) disse que nós (Grupo Engevix) estávamos convidados a participar. A ideia colocada é que seria paga uma quantia em dinheiro de alguma maneira, sob a coordenação do ex-senador Gim Argello. Ele (Léo Pinheiro) teria conversado já com o dr. Gim no sentido de que, com base nessa colaboração, as empresas não fossem chamadas pela CPI Mista.”

O procurador quis saber o que decidiu a Engevix. “Nessa época tinha eclodido a Lava Jato.Eu disse ao Léo que não era eu que cuidava (de pagamentos para a CPMI). Eu passei o assunto para o meu sócio Gérson de Mello Almada. Internamente tínhamos um consenso de não atender (à chantagem). Eu, pessoalmente, me retirei do tema. Entre maio e junho fiquei internado em São Paulo. Nunca mais falamos.”

O empresário disse que, em julho, recebeu ligações de assessores de Gim Argello cobrando uma definição. Quem o procurou tamnbém foi o lobista Júlio Camargo, delator da Lava Jato que revelou pagamento, em 2011, de US$ 5 milhões em propinas para o presidente afastado da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ).

“No início de julho (2014) fui procurado por Júlio Camargo. Ele disse ‘vocês não estão dando nenhum retorno’ para o Gim Argello. Expliquei ao Júlio da decisão de não me envolver com isso, com essa situação. O Júlio me pediu que desse uma satisfação (a Gim Argello). Depois, o Júlio me ligou e pediu que eu escutasse o senador pelo menos.”

A prova sobre o recado do lobista-delator ao empresário foi encontrada no WhatsApp do próprio José Antunes Sobrinho – uma mensagem que Júlio Camargo dizia para ele procurar o ‘Gim tônica’, em referência a Gim Argello.

Sobrinho contou na audiência com o juiz Sérgio Moro que, enfim, foi à residência do então senador, em Brasília. “O encontro foi num fim de tarde, uns 40 minutos”, relatou o sócio da Engevix. “Nessa reunião estavam ele (Gim Argello) e dois assessore dele, Paulo Roxo e Valério Neves. Um filho do Gim Argello apareceu na sala, nos cumprimentou e não ficou. O assunto foi a possível participação da Engevix nesse cluibe de empresas dispostas a repassar R$ 5 milhões.”

Segundo o empresário, Gim Argello ‘comentava que tinha boas relações com o relator da CPMI e com o presidente da Comissão, (senador) Vital do Rêgo (hoje ministro do Tribunal de Contas da União)’. “Ele disse que imaginava que poderia ser do nosso interesse e queria contar com a participação da Engevix.”

Foi perguntado ao empresário sobre ‘o tom de Gim Argello nesse pedido’.
Segundo José Antunes Sobrinho, o então senador explicou que várias empresas haviam concordado em contribuir. “Ele disse que ‘naturalmente eu podia ficar à vontade’, se eu não quisesse participar outra empresa poderia entrar no nosso lugar.”

“Não foi um tom agressivo, em todo caso de certa forma se não cooperássemos algum tipo de problema poderia ter…Ele disse que era um ‘privilégio’ poder participar…”

Sobrinho afirma ter dito ao então senador que ‘seria muito difícil’ a Engevix participar. “Na verdade, a partir daí, recebi uma série de telefonemas, uns quinze telefonemas. Não respondi. Tínhamos decisão já tomada, o assunto morreu por si.”

Em uma ligação que diz ter atendido, Sobrinho conta que Paulo Roxo, um dos assessores de Gim Argello, ‘pedia os valores, se a Engevix iria contribuir’.

“A Engevix nunca pagou”, declarou Sobrinho ao juiz Moro. “Ninguém foi convocado (pela CPMI).”

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