Outubro Rosa: o conhecimento ainda é o melhor aliado à prevenção e à cura do câncer de mama

Outubro Rosa: o conhecimento ainda é o melhor aliado à prevenção e à cura do câncer de mama

Giovanna Jardim

29 de setembro de 2020 | 06h45

Giovanna Jardim. Foto: Divulgação

Há exatamente sete anos fui diagnosticada com câncer de mama do tipo “triplo negativo”, considerado um dos mais agressivos e com maiores chances de recorrência. Sem nenhum caso previamente diagnosticado na família e com 38 anos de idade à época, tive um misto de sentimentos como medo da morte; receio de não suportar os desafios do tratamento e obviamente enfrentar a minha própria dor e de meus familiares, principalmente um filho de cinco anos de idade. Nesse turbilhão de pensamentos e receios, o instinto de sobrevivência falou mais alto e comecei rapidamente a busca pelo tratamento mais eficaz para o meu caso específico. Foi nesse momento que me deparei com grandes dificuldades para obter um diagnóstico e prognóstico precisos, além de entender meus direitos como paciente.

Quando afirmo que o conhecimento é o melhor amigo das mulheres diagnosticadas com câncer de mama ou em qualquer outro órgão – lembrando que há casos de câncer de mama entre homens também, embora bem mais raros – é porque as células cancerígenas se multiplicam com uma velocidade assustadora e, portanto, aumentam as chances de metástase, que é a migração para outras partes do corpo, dificultando o tratamento e diminuindo as chances de sobrevida ou cura. Assim sendo, obter o diagnóstico para iniciar um tratamento adequado o mais breve possível é o primeiro passo a ser tomado. Justamente nessa etapa é fundamental obter no mínimo duas opiniões médicas, uma vez que há incríveis discrepâncias entre protocolos de tratamento sobre o mesmo diagnóstico, recomendados pelos médicos.

O primeiro médico que consultei não cogitou a possibilidade de cura e sim de uma “sobrevida” e recomendou um protocolo de tratamento considerado, pela maioria dos oncologistas, como antiquado para o tipo de câncer que fui diagnosticada e pela minha idade também. Por entender que minhas chances de cura eram baixas, recomendou que eu retirasse somente o nódulo cancerígeno, fizesse algumas sessões de quimioterapia e radioterapia e foi enfático ao sugerir que eu não entrasse no “modismo” iniciado pela atriz norte-americana, Angelina Jolie, de fazer a retirada completa das mamas. Lembro-me ainda que esse médico me perguntou se eu era divorciada. Sem entender o motivo da indagação, questionei o interessado, que afirmou categoricamente que mulheres divorciadas têm mais propensão a desenvolver câncer de mama. Apesar do meu foco principal naquele momento ser a cura, não pude deixar de me sentir incomodada pela abordagem do mastologista e, mais tarde, vim a saber que não são raras as péssimas experiências relatadas por mulheres em situações semelhantes que, assim como eu, não conheciam o principal direito de qualquer paciente com câncer: o de ser respeitado e não rotulado por questões socioculturais.

Por insistência da minha mãe em ouvir uma segunda opinião e pela ajuda de uma prima que me levou até um médico reconhecido pelos seus inúmeros estudos acadêmicos e casos comprovados de cura na área oncológica, tive a sorte de ouvir outra recomendação sobre o tratamento a ser adotado. Apesar de reafirmar a gravidade do meu caso e a pequena chance de cura (exatos 20%), tive a possibilidade de iniciar adequadamente o protocolo, começando pelo segundo direito de qualquer paciente com câncer: o de passar por um exame de imagem que permite à equipe médica identificar, com precisão, a existência de pequenos focos metastáticos em qualquer parte do corpo, conhecido como “Pet-Scan”. A partir daí, passei por 16 sessões de quimioterapia; seguidas da retirada completa das mamas e posteriormente 25 sessões de radioterapia. Visito o meu oncologista a cada seis meses, já que, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde) só após dez anos um paciente diagnosticado com o câncer de mama triplo-negativo pode ser considerado totalmente curado.

É fundamental esclarecer que o êxito e o insucesso no diagnóstico e na sugestão de tratamentos podem ser comuns tanto na rede pública de saúde como na privada. Ao longo desses últimos anos, tenho visto inúmeros casos de mulheres curadas que foram tratadas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e não raros os casos de morte de pacientes tratadas em hospitais frequentados pela elite de nosso País. Os vários casos de interrupção do tratamento de câncer, por conta da Covid-19 e a falta de estrutura nos hospitais, aumentaram as estatísticas de morte dos pacientes em todo o planeta. Outro ponto de atenção é informar às mulheres que, em função de um câncer, tiverem suas mamas total ou parcialmente retiradas têm o direito à cirurgia plástica reconstrutora tanto pelo SUS quanto pelos planos de saúde privados.

Por fim, saliento que iniciativas como o autoexame; a realização de mamografia, dentre outros procedimentos recomendados pelos especialistas em saúde da mulher – que detectam o câncer em outros órgãos como útero e ovário – constituem o melhor caminho para a prevenção de doenças. Para aquelas que, assim como eu, passaram ou ainda estão em tratamento, desejo muita coragem, força, amor próprio e que jamais desistam pois é perfeitamente possível vencer o câncer.

*Giovanna Jardim é Relações Públicas e Consultora Global da In Press Oficina.

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