Ouro apreendido com coronel do Palácio dos Bandeirantes pode ser do garimpo ilegal da Amazônia, diz investigação

Ouro apreendido com coronel do Palácio dos Bandeirantes pode ser do garimpo ilegal da Amazônia, diz investigação

José Maria Tomazela

05 de maio de 2022 | 19h52

PF investiga policiais militares por escolta de ouro ilegal. Foto: Divulgação/PF

Um dos chefes da Casa Militar do Palácio dos Bandeirantes, o tenente-coronel da PM Marcelo Tasso, e outros três policiais militares estão sendo investigados pela Polícia Federal por suspeita de escoltar 77 quilos de ouro extraídos ilegalmente. Os policiais alegam que a operação era legal, mas a PF tem indícios de que o ouro pode ser proveniente de garimpo ilegal em terras indígenas da Amazônia. A Casa Militar é órgão do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo. Seu comandante é responsável ainda pela Defesa Civil do Estado e pela segurança do governador Rodrigo Garcia (PSDB). O tenente-coronel estava afastado das funções, em licença, desde outubro do ano passado.

A detenção dos policiais aconteceu às 15 horas de quarta-feira, 4, no km 74 da rodovia Castelo Branco, pista sentido São Paulo, em Sorocaba. Um cabo e dois soldados da 1ª Companhia do 5º Batalhão da Polícia Rodoviária pararam dois automóveis Toyota Corolla. O primeiro, dirigido por Wilson Roberto de Lucca, levava o tenente-coronel e o terceiro-sargento da reserva da PM, Marcelo Dantas, que era lotado no 9º Batalhão da PM. No segundo, estavam o motorista Marcos Pereira dos Santos, o primeiro-sargento Gildsmar Canuto, também da Casa Militar, e o soldado da PM Douglas Cristiano Burin, do 33º Batalhão da PM.

Os policiais rodoviários revistaram os dois veículos e encontraram 77 kg de ouro. O metal estava em duas malas encontradas no primeiro carro e uma mala achada no porta-malas do veículo em que estava o tenente-coronel. Todos foram detidos e levados, com a carga, para a Delegacia da Polícia Federal, em Sorocaba. Eles foram ouvidos e liberados. Os policiais abordados disseram que tinham documentos comprovando a legalidade do ouro, mas a PF decidiu apreender todo o material para verificar a origem. As barras de ouro foram levadas para perícia, que será realizada em laboratório específico da corporação. A PF estimou o valor do ouro em R$ 23 milhões.

Além das malas em que as barras de ouro estavam acondicionadas, os agentes encontraram em um dos carros uma mochila com documentos. Os papéis indicam que o ouro seria oriundo dos estados de Mato Grosso e do Pará. Também foi apreendido um avião modelo King Air turboélice que teria feito o transporte da carga até o aeroporto de Sorocaba, antes de ser colocado nos dois carros. Conforme a PM, a aeronave é objeto de sequestro criminal em outro inquérito e não poderia ser utilizada, circunstância que também será apurada. Os celulares dos policiais e dos motoristas também foram apreendidos.

Avião monitorado. A PF já iniciou a análise dos documentos apreendidos junto com o ouro e os primeiros indícios são de que o metal seria oriundo de garimpos clandestinos dos estados de Mato Grosso e do Pará, que integram a Amazônia Legal. Nos dois estados, a maior parte dos garimpos ilegais ainda ativos está em terras indígenas.

Em março deste ano, 100 agentes da corporação, com apoio da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Exército Brasileiro, Fundação Nacional do Índio (Funai) e Força Nacional fizeram um cerco à Terra Indígena Sararé, entre os municípios de Conquista D’Oeste e Nova Lacerda, no oeste do Mato Grosso, retiraram os garimpeiros e destruíram sete escavadeiras, 40 motores, 22 moinhos de pedra, 15 geradores e barracas utilizados para extrair ouro.

No ano passado, já haviam sido realizadas cinco operações contra o mesmo garimpo, com a destruição de máquinas e equipamentos. Conforme a PF, a terra indígena Sararé vem sendo explorada clandestinamente por garimpeiros há mais de duas décadas e, mesmo com as perdas de equipamentos, a atividade acaba sendo retomada.

PF tem indícios de que o ouro pode ter origem no garimpo ilegal em terras indígenas da Amazônia. Foto: Divulgação/PF

Já no sul do Pará, a PF deflagrou no ano passado a Operação Terra Desolata para desarticular uma organização criminosa especializada em extração e comércio ilegal de ouro na Terra Indígena Kayapó. Foram cumpridos 62 mandados de busca e 12 de prisão preventiva em dez unidades da federação, entre elas São Paulo e o Distrito Federal. Na ocasião, houve o bloqueio de cinco aeronaves, mas a PF não informou se o avião utilizado para transportar o ouro apreendido na quarta-feira em Sorocaba era uma delas.

As investigações apontaram que as organizações criminosas como a que foi desbaratada naquela ocasião atuam em vários níveis. No primeiro, os garimpeiros extraem o ouro e vendem para os intermediários que, por sua vez, o revendem para empresas que atuam também com garimpos legais, como foram de ‘esquentar’ o metal. Na época se revelou que todos os anos uma tonelada de ouro sai TI Kayapó garimpada de forma ilegal. A maior parte do metal é vendida na Europa, tendo a Itália como porta de entrada, mas uma parcela significativa abastece joalherias de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Um estudo divulgado este ano pelo Instituto Igarapé, ong que atua nas áreas de segurança pública, clima e ambiente, eu analisou mais de 300 operações da PF na Amazônia, entre 2016 e 2021, mostrou que os crimes como o garimpo ilegal, assim como a degradação da floresta, extração ilegal de madeira e grilagem de terras, estão interligados a outras ações violentas. Quase um terço dessas atividades se relacionam com trabalho escravo, tráfico de drogas e armas, corrupção e homicídios.

No caso de Sorocaba, o aeroporto já foi usado para o desembarque de ouro de origem ilegal em ao menos uma ocasião anterior. Em outubro de 2014, um avião que saiu do estado de Mato Grosso pousou com 31 barras de ouro que seriam entregues a um empresário de São Paulo no próprio aeroporto.

Com base em denúncia anônima, uma equipe da PF já esperava pelo avião. O ouro pesou 18 quilos. As notas que acompanhavam o metal estavam irregulares. Na época foi aberto um inquérito para apurar a origem do ouro. Desde que o aeroporto estadual de Sorocaba foi transferido para a iniciativa privada, em abril deste ano, a vigilância armada foi reduzida.

COM A PALAVRA, O GOVERNO DE SÃO PAULO

Sobre a condução do tenente-coronel PM da Casa Militar Marcelo Tasso, do sargento PM da Casa Civil Gildsmar Canuto, do soldado PM Douglas Burin e do sargento PM Marcelo Dantas, atualmente na reserva, a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo informou que “os fatos citados foram registrados e são apurados pela Polícia Federal. A Corregedoria da Polícia Militar acompanha as investigações e, se constatada alguma irregularidade, as medidas cabíveis serão adotadas”.

Em outra nota, enviada pelo Palácio dos Bandeirantes, “a Casa Militar informa que, assim que soube do caso, afastou imediatamente o praça e esclarece que o oficial está afastado desde outubro do ano passado para cumprir licenças pendentes para a sua aposentadoria. A ocorrência foi encaminhada para a Corregedoria da Polícia Militar para apuração”. A reportagem não conseguiu contato com as defesas dos envolvidos no caso.

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