Ouça os grampos da Operação Sem Limites

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Conversas de ex-gerente da Petrobrás Carlos Barbosa, suposto líder do esquema de corrupção na compra e venda de petróleo e derivados, com dois advogados que lavariam dinheiro da propina revelam temor com o 'homem da capa preta'

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

05 Dezembro 2018 | 20h27

Quatro áudios de conversas telefônicas gravadas pela força-tarefa da Operação Lava Jato de alvos centrais do esquema corrupção em negócios bilionários de compra e venda de petróleo e derivados da Petrobrás mostram que mesmo com as investigações nas ruas os acusados continuaram a operar para lavar dinheiro de propinas e escapar da Justiça e do “homem da capa preta” – suposta referência ao ex-juiz federal Sérgio Moro, futuro ministro da Justiça.

O episódio mais emblemático destacado pela força-tarefa da Lava Jato é o da ocultação de bens e propinas em negócios imobiliários que teria envolvido o ex-gerente da área de Marketing e Comercialização da Petrobrás  Carlos Roberto Martins Barbosa e  os advogados Gustavo Buffara Bueno e André Luiz dos Santos Pazza.

Segundo a força-tarefa, os advogados – presos nesta quarta-feira, 5, na Sem Limites, 57.ª fase da Lava Jato – auxiliaram Carlos Barbosa, suposto líder do núcleo de agentes públicos desse esquema, “na lavagem de produto de crime de corrupção”.

A nova fase da Lava Jato apura o pagamento total de pelo menos US$ 31 milhões em propinas para funcionários da Petrobrás, entre 2009 e 2014, por negócios com empresas como VitolTrafigura e Glencore. Foram cumpridos 11 mandados de prisão preventiva, 27 de busca e apreensão e 1 de intimação, expedidos pela juíza Gabriela Hardt, que responde pela 13.ª Vara Federal de Curitiba.

Foram alvo de quebra de sigilo bancário 26 contas no exterior, em decorrência de acordos de colaboração jurídica internacionais, nos Estados Unidos, Suécia, Suíça, Uruguai, Panamá, Bahamas, Portugal e Reino Unido, mais de 20 relatórios de análise de documentos. “Há farta prova documental, nunca tinha visto tanta prova documental”, afirmou o delegado federal Filipe Hille Pace.

“Carlos Barbosa, com o objetivo de internalizar e lavar vantagens indevidas que possuía em suas contas na Suíça e de lavar as vantagens indevidas que possuía no Brasil, realizou um complexo de transações financeiras e imobiliárias com o advogado Gustavo Buffara Bueno, em tudo sendo auxiliado pelo advogado André Luiz dos Santos Pazza, funcionário do escritório deste último”, informa a juíza federal, ao resumir as manifestações da PF e do MPF no despacho que deflagrou a Sem Limites.

Segundo a Lava Jato, o ex-executivo da estatal repassou ao advogado Gustavo Bueno entre abril de 2013 e janeiro de 2015, no Brasil e no exterior, o equivalente a R$ 6,57 milhões (considerando os câmbios das épocas das transações) “em vantagens indevidas que amealhou no curso dos anos como empregado da Petrobrás”.

Grampos. O delegado Pace, da Lava Jato em Curitiba, explicou que durante as investigações da fase 44 da Lava Jato, em 2017, o ex-gerente da Petrobrás Carlos Barbosa estava sob monitoramento. Em conversa do dia 10 de agosto, gravada com autorização da Justiça, ele ouve do advogado André Pazza – preso nesta quarta – que eles “teriam feito uma besteira” ao vender um imóvel.

O negócio envolvia a permuta realizada em 9 de novembro de 2016, com a Lava Jato nas ruas, do apartamento 803 do Edifício Ipanema Guinle Residence Service, na Rua Prudente de Morais nº 1415, Ipanema, com a Loja 102 do prédio situado na Avenida Lúcio Costa nº 3150, Freguesia de Jacarepaguá, ambos no Rio, com recebimento de diferença de R$ 1,5 milhão em dinheiro.

Com o auxílio de André Pazza, os advogados teriam conseguido “lavar” e devolver “limpo” para Barbosa R$ 6,1 milhões “por meio de transações, sobretudo imobiliárias, ocorridas entre 1 de abril de 2013 e 9 de agosto de 2016”.

Documento

‘Capa preta’. “Eu, Carlão, sinceramente, eu vou te falar, Analisando assim o que a gente fez aqui. Considerando a possibilidade do homem da capa preta não fazer nada né…”, afirma Pazza em uma das gravações (OUÇA AOS 13m40 do áudio 1) um dos alvos. “A gente fez uma merda com o Guinle né. A gente nunca deveria ter vendido o Guinle e dane-se né”, completa.

A citação ao “homem da capa preta” foi destacada pela PF, pelo MPF e pela juíza dos autos da Sem Limites. À imprensa, o delegado da PF afirmou: “Não foi um homem, mas uma mulher que decretou as medidas contra os investigados. Certamente se arrependem de tudo que fizeram”.

“Na ligação, Pazza informava a Barbosa que teriam feito algo errado ao vender ‘o Guinle’, ainda que o tivessem feito em caráter preventivo à atuação do Excelentíssimo Juiz Federal Titular da 13.ª Vara Federal, Sérgio Fernando Moro, referido na ligação como o ‘homem da capa preta’”, escreve o delegado Filipe Hille Pace.

“Imaginava-se, à época daquela investigação, se tratar de alguma peça de obra de arte. No entanto, considerando que a atividade investigativa é dinâmica e em etapas nem sempre pré-delineadas, com o conhecimento investigativo adquirido pela atual apuração, foi possível entender o real significado da ligação e dos graves crimes nela relatados. O ‘Guinle’, na verdade, é referência ao apartamento 803 da Rua Prudente de Morais, transferido por Gustavo Bueno a Carlos Barbosa com recursos de propina.”

A Lava Jato informou que os pagamentos de propinas eram feitos em espécie ou via depósitos para empresas offshores. Carlos Barbosa teria usado os dois advogados em 2014 quando se sabia que Paulo Roberto Costa, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, faria delação premiada, para fechar contas no exterior e transferir US$ 1,8 milhão para conta administrada por um deles.

“Os advogados buscaram meios de compensar o agente público no Brasil em valor equivalente ao que o advogado havia recebido no exterior.” Complexas operações imobiliárias foram usadas para fazer essa lavagem, entre elas o negócio do prédio do edifício Guinle.