Ouça delator pedindo propina para delator

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'Eu preciso de R$ 500 mil', disse o ex-subsecretário do Rio, para não delatar o empresário Daniel Gomes, colaborador da Operação Calvário que revelou a extorsão em acordo com autoridades da Paraíba

Luiz Vassallo

18 de janeiro de 2020 | 12h00

“Eu preciso de R$ 500 mil”, disse o ex-subsecretário de Saúde do Rio, Cesar Romero, ao empresário Daniel Gomes, em gravação ambiental que o levou de volta à cadeia. Delator, o ex-chefe da pasta foi preso por omitir que pegou propinas de Gomes, que também é colaborador, para omitir seu nome em depoimento.

Romero foi preso nesta quinta, 16, e tinha planos para deixar o país. Segundo o Ministério Público Federal, ele ‘permanece embaraçando as investigações da organização criminosa, mantendo ocultos das autoridades os fatos dolosamente omitidos na celebração do acordo de colaboração, em razão da “proteção” vendida pelo colaborador aos empresários de seu convívio social’.

Documento

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O pedido de prisão contra o ex-subsecretário de Saúde do Rio tem como base a delação do empresário Daniel Gomes, que atuava no Rio, e homologou acordo de delação premiada junto ao Superior Tribunal de Justiça, no âmbito da Operação Calvário, que mira o governador da Paraíba, João Azevedo (sem partido) e já denunciou o ex-governador Ricardo Coutinho (PSB) por liderar uma organização criminosa que desviou R$ 132,4 milhões naquele Estado.

Reprodução de trecho da delação de Daniel

Daniel atuava como um lobista de organizações sociais de saúde em ambos os estados. Um de seus anexos de delação premiada fala sobre a extorsão de Cesar Romero, que fez delação no âmbito da Operação Lava Jato no Rio, para não delatá-lo. Ele relata ter repassado R$ 205 mil para que Romero não o citasse.

“Me recordo, ainda, que Cesar me contou que ia constantemente ao MPF para tirar dúvidas e que, quando ficava com receio de uma nova denúncia sobre outros ilícitos omitidos em sua delação original, pedia um ‘recall’ para relatar e sanar as omissões. Caso contrário, ele ficava calado e ganhava dinheiro da pessoa protegida”, relata.

Transcrição de conversa entre Daniel e Romero

Para corroborar sua versão, o delator entregou gravações ambientais de reuniões com Romero. Nos áudios, o ex-subsecretário diz a Daniel que não o delatou.

CESAR ROMERO: Olha só, eu começo a falar… e não delatei nada de
vocês… [00:45:35]
DANIEL: Não delatou desses dois casos. [00:45:36]
CESAR ROMERO: Quando começa, quando começo eu digo, no meu
depoimento começo dizendo que a minha indignação era que eu tava
processando um processado e condenado a 15 anos, dois processos
no qual não tinha absolutamente nada de errado, que eu não cometi
crime nenhum, enquanto tinha uma porrada de processos cheio de
crime na secretaria, que passava e ninguém via. Comecei falando isso,
entendeu? [00:45:57]

Em outra oportunidade, com o fim de acertar sua delação, Romero pediu a Daniel que fizesse pagamentos a ele.

CESAR ROMERO: É. Aí, eu falei pra ele: o que a gente precisa pra assinar isso na 3a feira? Você pode me pagar do jeito que você quiser, 1 mil reais por mês. Mas pra assinatura, viabilizar a assinatura e a aceitação da, da.. , eu preciso de 500 mil. Eu entendi que eu vou tá pagando uma parte pro advogado e ele vai tá acertando alguma coisa lá no Ministério Público.
DANIEL: Caralho, será que os caras tão…
CESAR ROMERO: Não sei se é isso, mas foi o que eu entendi. Tá? O problema é o seguinte: eu não tenho 500 pratas, eu tenho 200 pratas. Vou sair daqui e vou entregar meu carro, minha BMW, por 90. Não tem como você me dar uma ajuda não? Depois do carnaval, o escritório começa a rolar de novo, eu te devolvo, posso te devolver em 2, 3 vezes.
DANIEL: Eu posso te dar o que eu tiver aqui. (inaudível) Posso ver o que eu tiver aqui agora, depois você me devolve. Tem essa grana aqui.
CESAR ROMERO: É jogo, precisava de mais, mas é jogo.

A secretária de Daniel também afirmou, ao Ministério Público Estadual, que em 2010, Romero teria vazado uma operação da PF na sede de uma de suas empresas. Michelle Louzada teria ido até a sede da empresa para sumir com documentos, de madrugada, e de ambulância, em razão de sua gravidez, para frustrar as buscas dos agentes.