Os três pilares do sucesso para bancos digitais

Caio Bretones*

22 de agosto de 2021 | 03h30

A fintechzação das empresas tem se apresentado como uma tendência incontestável. Os benefícios em ter o próprio banco digital como fonte de receita extra via prestação de serviços financeiros para colaboradores, parceiros, fornecedores e clientes, por exemplo, são muitos e cada vez mais importantes para as companhias que visam ter sucesso nesta transição digital. O Brasil, como mostra o estudo “2021 Global Fintech Rankings”, da Findexable em parceria com a Mambu, é um dos grandes ecossistemas de fintechs do mundo. Este cenário possibilita, ainda, mais oportunidades de crescimento para aqueles que escolhem investir nesta nova realidade. Mais um sinal de que contas digitais viraram preferência nacional pode ser constatado na pesquisa realizada pela FICO, empresa de software de análise preditiva, que mostra um crescimento de 65% em intenções de abertura de contas digitais no primeiro trimestre de 2021.

Não basta apenas abrir o próprio banco ou conta digital. É preciso investir em um produto personalizado que atenda às necessidades não apenas da empresa, mas também do público para o qual ele foi pensado. Quando bem planejada e executada, essa fintechzação, ou criação de unidades de negócio focadas em serviços financeiros dentro das corporações, não apenas faz girar o capital e promove linhas de receita com retorno superior a investimentos tradicionais, mas pode até mesmo impactar no valuation das marcas.

Existe um padrão de sucesso que pude observar durante o processo de desenvolvimento de mais de 50 bancos digitais nichados nos últimos três anos. Pode-se pensar em três pilares essenciais que devem ser implementados em qualquer novo banco digital criado: possuir seu nicho de atuação específico, ter como resultado da estratégia uma forma de cash-in automático (entrada de recursos na conta) e compor o banco com a oferta do ecossistema para fidelização do usuário. Uma vez que a companhia trabalhar na interseção desses 3 pilares, as chances de prosperidade são exponenciais.

Qualquer produto, quando projetado para atingir um público ou nicho específico, tem maiores chances de sucesso do que aqueles que tentam alcançar a todos sem um direcionamento. Com os serviços financeiros não é diferente. Por já ter conhecimento de como operar com os clientes e fornecedores do seu nicho, a companhia saberá quais serviços adicionais pode oferecer.

Um exemplo prático do primeiro pilar do sucesso do banco digital nichado, é o banco digital do caminhoneiro, para recebimento de frete, no qual a companhia do segmento de logística tem o intuito de “bancarizar” sua rede de motoristas de caminhão, além de oferecer ferramentas distintas voltadas à facilitar a vida desses profissionais.

O segundo pilar do sucesso, o cash-in automático, é representado pela entrada orgânica e contínua de valores em movimentações como TED, Pix, boletos bancários e cartões. Essas operações são geradas por recebíveis de vendas e salários, cobranças a terceiros, antecipação de recebíveis e formas de crédito (consignado, fumaça, pessoal, capital de giro), tornando o banco digital mais sustentável e evitando a obrigatoriedade do usuário necessitar realizar uma recarga de valores na conta para poder usufruir dos benefícios da plataforma. Ainda tomando como exemplo o banco digital para os motoristas de caminhão, os usuários recebem os valores do frete de suas viagens de forma recorrente e contínua, permitindo a geração de tração do produto financeiro e a utilização constante do banco digital nichado.

Criado o produto nichado e implementado o cash-in automático, já há um caminho estabelecido para um crescimento sustentável. Porém, apenas com esses dois pilares o usuário pode simplesmente transferir seus recebíveis para outros bancos (digitais ou tradicionais) e, com a facilidade do Pix, isso se torna extremamente rápido.

Como manter o usuário fidelizado ao banco digital? Para manter a assiduidade do usuário, o terceiro pilar é fundamental: criação do ecossistema. A criação de um ecossistema voltado para o nicho de atuação do usuário permite que os valores que transitam nas contas possam se movimentar “horizontalmente” entre contas do mesmo banco digital.

No banco digital do caminhoneiro, por exemplo, o motorista possui à sua disposição uma rede de estabelecimentos credenciados, oferecendo desconto no combustível, vantagens em manutenção do caminhão, benefícios exclusivos, programa de cashback, programa de fidelidade, saque gratuito na rede credenciada, entre outros fatores que convencem o motorista a permanecer fiel ao banco digital sem precisar recorrer a outras instituições financeiras.

O trabalho realizado na intersecção dos 3 pilares permite, ainda, a criação de uma base de dados (Big Data) essencial para a tomada de decisões e o mapeamento do comportamento dos usuários. Ao cruzar as movimentações financeiras, as ofertas de serviços e o comportamento de uso com geolocalização é possível mapear o potencial e a predisposição para adquirir novos serviços, antecipando as necessidades de cada grupo de usuário, estimulando o engajamento e, garantindo desta forma, o início da jornada de sucesso do produto financeiro.

*Caio Bretones é fundador e CEO da Mobile2you

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