Os registros de propina a ‘Morcego’ que ligariam a corrupção da Odebrecht na Petrobrás ao PT

Os registros de propina a ‘Morcego’ que ligariam a corrupção da Odebrecht na Petrobrás ao PT

Marcelo Odebrecht aponta registro de ex-executivo como caminho dos pagamentos do grupo por obras na Petrobrás via ex-gerente da estatal Pedro Barusco

Paulo Roberto Netto, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

17 Novembro 2018 | 05h00

O empresário Marcelo Bahia Odebrecht, delator da Operação Lava Jato, apontou as planilhas de um ex-executivo do grupo entregues à Justiça Federal como o caminho do dinheiro das propinas do grupo que podem ter beneficiado o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT. São os registros de pagamentos de corrupção relacionados às obras da Petrobrás ao ex-gerente da estatal Pedro Barusco, identificado como “Morcego”.

Nelas estão registrados os pagamentos de propinas da Odebrecht, por exemplo, nas obras de construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Integrante do Consórcio Conest-Rnest (em parceria com a OAS), o controle feito pelo ex-executivo Cesar Rocha Ramos, da área de Engenharia do Grupo, registra os repasses em 2010 e 2011 feitos a “Morcego” relacionados a essas obras. São dois contratos que integram a lista de crimes precedentes da denúncia do sítio de Atibaia (SP), em que Lula e outras 12 pessoas são acusados de corrupção e lavagem de dinheiro.

Lula foi interrogado na quarta-feira, 14, pela juíza federal Gabriela Hardt, na ação do sítio de Atibaia. Lula negou todas as acusações e foi advertido em vários momentos pela magistrada, que substitui o ex-juiz Sérgio Moro, futuro ministro da Justiça e da Segurança Público do governo eleito de Jair Bolsonaro (PSL).

Segundo os delatores da Odebrecht, Barusco era o responsável pelos acertos de repasses de valores relacionados à Diretoria de Serviços, comandada por Renato Duque e cota do PT no fatiamento de postos estratégicos da Petrobrás. O dinheiro creditado a “Morcego” na planilhas seria o valor que era dirigido aos PT e aos executivos da estatal, chamados por ele de Casa 1 e Casa 2.

Odebrecht diz que o ex-ministro Antonio Palocci era quem gerenciava a “conta geral” de propinas do grupo decorrentes do acerto feito entre seu pai, Emílio Odebrecht, e Lula. Uma conta que teria como crédito R$ 200 milhões, que bancou campanhas do partido e benefícios ao ex-presidente, como a compra do terreno de R$ 12 milhões para o Instituto Lula, e as reformas no sítio de Atibaia, que teriam custado R$ 700 mil.

O empresário diz que não relaciona diretamente os pagamentos a Lula com os contratos na Petrobrás, mas sim a um acerto geral feito pelo pai com Lula e que tinham diversas origens.

Nas mesmas planilhas, estão os registros para Paulo Roberto Costa, o ex-diretor de Abastecimento indicado pelo PP na Petrobrás, que virou o primeiro delator da Lava Jato. O codinome usado é “Prisma”.

No interrogatório, Odebrecht explicou que não fez tratativa direta com Lula sobre os contratos específicos da Petrobrás relacionados na acusação. “Dinheiro veio de uma relação que meu pai tinha com Lula”, afirmou o delator. O empresário explicou que muitas vezes os recursos de propinas eram alocados em uma obra, mas o interesse na relação com o político ou agente público era de mais de uma setor do grupo.

No caso dos pagamentos feitos pelo acerto de Emílio Odebrecht com Lula, os valores seriam relacionados a ele – os registros que relacionam a obras são formais para identificar de onde saia o pagamento. Os registros citados são o dos sistemas de comunicação e contabilidade, Drousys e MyWebDay B, usados pelo Setor de Operações Estruturas, o “departamento de propinas” da Odebrecht.

O procurador da República Athayde Ribeiro Costa questionou Odebrecht se ele tinha ciência que “seus líderes empresariais tinham que efetuar pagamentos no interesse do PT, PMDB e PP no âmbito das diretorias da Petrobrás”.

“Eu seria ingênuo seu eu dissesse que eu não sabia. Eu confirmou que eu tinha ciência”, respondeu Odebrecht.

Partido. O empresário e delator diz que o depoimento de Márcio Faria, ex-executivo da área que tinha contratos com a Petrobrás , listados na planilha de Cesar Rocha, seu subordinado. E que os pagamentos eram feitos a Barusco, que dizia que metade ia para o PT.

“O Márcio dizia que da parcela que ele pagava para a Diretoria de Serviços, o Barusco dizia a ele como pagar. Ele não sabe informar quanto ia para o partido e quanto ia para os executivos.”

Odebrecht cita então que o “César Rocha, que é o financeiro de Márcio, apresentou uma planilha, inclusive desses três contratos onde ele detalha todos os pagamentos indevidos, acertados e pagos para esses contratos”. “Eu não conhecia essa planilha e não conhecia esses acertos, mas está lá. E ele diz claramente para onde foi cada centavo acertado.”

“Se Lula recebeu alguma coisa desses contratos não foi através de mim, não foi através de nenhuma tratativa minha, foi através dessa questão do Barusco. Mas isso nem o meu executivo que pagou o Barusco sabe se o Lula recebeu ou não, desses contratos

A defesa do ex-presidente Lula sustenta que o cliente é inocente e que a denúncia da força-tarefa da Lava Jato é infundada. A defesa afirma não haver provas de relação dos supostos gastos das empreiteiras Odebrecht e OAS nas obras de reforma do sítio de Atibaia. Assim, pede que o caso deve ser retirado da Justiça Federal em Curitiba.

Lula e os Odebrechts são réus no processo e corrupção e lavagem de dinheiro do sítio de Atibaia (SP). Preso desde o dia 7 de abril, condenado a 12 anos e um mês no processo do caso triplex do Guarujá (SP), o ex-presidente tem duas ações em andamento na Lava Jato. A segunda, em fase final, é a de propinas da Odebrecht na compra de uma terreno para ser sede do Instituto Lula e de um apartamento usado pela família do petista, em São Bernardo do Campo. O caso do sítio foi o terceiro processo aberto.

O DEPOIMENTO DE MARCELO ODEBRECHT