Os profissionais invisíveis de uma colossal cadeia de salvamento

Os profissionais invisíveis de uma colossal cadeia de salvamento

Mariana Marques*

08 de abril de 2020 | 05h15

Mariana Marques. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Nos bastidores do hospital, praticamente invisível aos olhos da sociedade e de quem está enfermo, estou salvando a vida daqueles que estão salvando a de vocês. Sou enfermeira, tenho 15 anos de experiência, mas hoje atuo numa batalha diferente nesta guerra: lidero o treinamento de profissionais da saúde em um grupo de hospitais em São Paulo.

É sob esta perspectiva que experiencio e combato a pandemia da covid-19: a de uma mulher, brasileira, mãe, solteira, que há quatro semanas não abraça seu filho, mas que segue educando e capacitando nos hospitais os heróis da linha de frente.

Por quê? Porque eles também precisam sobreviver.

Como? Por meio de uma das mais fortes estratagemas para vencermos qualquer guerra: a educação profissional.

Neste momento, em pisos subterrâneos dos hospitais, educadores como eu estão debruçados sobre protocolos de segurança, dissecando diretrizes de conduta e operando treinamento de procedimentos para que estes corajosos profissionais da saúde estejam cada vez mais seguros e atuantes.

Porém, assim como nós educadores, há tantos outros profissionais invisíveis que compõem esta colossal cadeia de salvamento. Afinal, quem de fato são os profissionais de saúde para quem você está enviando um #abraço?

Estamos enfrentando a maior pandemia da história do mundo moderno, que ataca ao mesmo tempo o sistema de saúde, a economia e a esperança das pessoas. Não há de se acreditar que combateremos esta crise apenas com médicos, enfermeiros ou motoristas de ambulância.

É preciso se conscientizar disso, de quem são estes profissionais da saúde e qual a história por trás de cada um deles. Por isso, é fundamental que, primeiro, tenhamos visibilidade de que o termo se estende também a quem recolhe o lixo de um laboratório de exames, a quem conserta o motor de uma ambulância, a quem produz um equipamentos de proteção individual.

Segundo, é imprescindível ter empatia por todos esses profissionais. Cada indivíduo da saúde que está combatendo este vírus tem uma história complexa por trás, sintomática em dificuldades, mas debelada por um esforço hercúleo para combater a maior crise com a qual já nos deparamos. Colocar-se nesta posição nos transporta para uma outra perspectiva, a de serem humanos.

Por último, é condição sine qua non que valorizemos este profissionais. E tantos outros. E não agora. Sempre!

Não se pode valorizar caminhoneiros somente quando há greve.

Não se pode valorizar bombeiros somente quando há rompimento de barragem.

Não se pode valorizar profissionais da saúde somente quando há pandemia.

Uma sociedade não pode viver de espasmos de reconhecimento. É preciso visibilidade, empatia e valorização constante. Como disse Yuval Noah Harari: “O antídoto para a epidemia é a cooperação”. E eu completo: “E, para a indiferença, uma sociedade menos desigual”.

*Mariana Marques, enfermeira educadora do Hospital Paulistano

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