Os pilares da engenharia estão em xeque

Os pilares da engenharia estão em xeque

Critérios de contratação que favorecem menor preço e qualidade de serviços questionáveis, falta de investimento em vistorias frequentes e conflitos de propriedade colocam em risco os usuários das pontes e viadutos na capital paulista

Lucas Tatibano*

19 de maio de 2019 | 05h00

Lucas Tatibano. FOTO: HELOÍSA YAMASHIRO

A cidade de São Paulo, em tempos recentes, tem sofrido com problemas graves decorridos das más condições estruturais de suas pontes e viadutos, destacando-se a queda do viaduto da Marginal Pinheiros, em novembro de 2018. Além deste incidente houve também interdições totais ou parciais do viaduto de acesso à Rodovia Presidente Dutra e do Viaduto General Olímpio, sobre a Avenida Pacaembu. As interdições ocorreram logo após a realização de uma inspeção emergencial feita pela prefeitura de São Paulo que constatou a existência de falhas estruturais graves que deveriam ser corrigidas imediatamente, evitando o colapso total.

Nesse contexto, não podemos deixar de evidenciar o sucateamento que vem acontecendo na engenharia civil brasileira, como um todo, haja vista que a grande maioria das contratações, sejam públicas ou privadas, estão sendo pautadas unicamente pelo critério de menor preço, em detrimento do melhor preço.

Quando analisamos o menor preço, leva-se em conta somente a empresa que ofereceu o preço mais baixo, diferentemente do melhor preço, quando são analisados primeiramente os critérios técnicos ofertados, consecutivamente as condições de segurança e qualidade oferecidas, e igualmente, o preço que melhor condiz com a proposta apresentada.

Para realizar uma obra com o menor preço, quase sempre as construtoras ficam inviabilizadas de utilizar corpo técnico qualificado, recorrendo geralmente a profissionais recém-formados ou até estagiários, de forma que seja possível atender ao orçamento inicialmente acordado. Tal condição reflete negativamente na qualidade dos serviços prestados atualmente e devem ser imediatamente revistos, para que possamos alcançar novamente o patamar de engenharia de ponta historicamente desenvolvida no Brasil.

Retomando o tema das péssimas condições das pontes e viadutos da cidade de São Paulo, temos que considerar o baixo investimento realizado pela Prefeitura nos serviços de manutenção. No ano de 2018, por exemplo, somente 17% da verba total prevista para esses serviços foram efetivamente aplicadas, segundo dados levantados pelo Ministério Público.

Dentro desse cenário deve-se ressaltar também que a previsão orçamentária inicialmente aprovada para a manutenção das pontes e viadutos neste ano de 2019, por exemplo, é 30% menor do que o montante previsto para o ano de 2018, demonstrando que a cada ano a municipalidade tem dado menor importância a esse assunto.

Passo a passo da vistoria

A norma técnica que regulamenta a manutenção de pontes e viadutos no Brasil é a NBR 9452. No caso de estruturas já existentes, a principal vistoria exigida é a inspeção rotineira, a qual deve ser feita em todas as pontes e viadutos em prazo não superior a um ano. Essa inspeção pode ser somente visual, quando não houver a evidência de anomalias graves, ou com a utilização de aparelhos específicos, quando identificada alguma deformidade ou ruptura fora do normal.

Quando identificada uma anomalia grave nas pontes ou viadutos durante a inspeção rotineira deverão ser iniciados, de forma imediata, os procedimentos para a correção.

Após o término dos serviços corretivos, a norma técnica exige a realização de uma inspeção especial, na qual serão levantadas todas as informações sobre as novas condições das estruturas, devendo ser feita uma nova reclassificação da ponte ou viaduto.

Existe também a inspeção extraordinária, a qual deve ser realizada imediatamente após a ocorrência de impactos (veículos, trem ou embarcações), ou mesmo após a ocorrência de inundações, ventos fortes, abalos sísmicos, entre outros similares.

Classificação das estruturas e problemas frequentes

Ainda de acordo com a NBR 9452, a classificação das pontes e viadutos é feita através da aplicação de notas, variando conforme as condições das estruturas analisadas durante as inspeções. A nota 1 é aplicada quando a condição da estrutura se apresenta em estado crítico enquanto a nota 5 (cotação máxima) é creditada quando a estrutura se apresenta em condição excelente.

Geralmente, quando a classificação da ponte ou viaduto possuir nota abaixo de 2, devem ser realizadas intervenções emergenciais de correção na estrutura. Nesses casos, a ponte ou viaduto poderá ser completamente interditado até que sejam concluídas as obras de reforço. Também poderá ocorrer a interdição provisória do tráfego de caminhões sobre o local, de acordo com cada caso específico.

Numa análise ampla, as principais anomalias verificadas nas pontes e viadutos são os danos causados por impactos de veículos, que resultam na fissuração do concreto e na exposição das armaduras, fatores que enfraquecem o conjunto estrutural como um todo. Também são muito presentes as anomalias nas juntas de dilatação da estrutura, onde ocorre a inexistência de vedação, saliência, abertura ou depressão excessiva, ocasionando desconforto aos usuários e prejuízos ao conjunto estrutural.

Conflitos de posse

Um problema grave verificado na situação documental das pontes e viadutos da cidade de São Paulo, é que nem sempre esses equipamentos são de propriedade da Prefeitura, principalmente as pontes e viadutos das Marginais Tietê e Pinheiros, onde a propriedade ainda remete ao Departamento de Estradas e Rodagem (DER) ou à Desenvolvimento Rodoviário S.A. (DERSA), ambas companhias de controle do governo do estado de São Paulo.

Se levarmos em conta o viaduto que desabou na Marginal Pinheiros no final do ano passado, por exemplo, a propriedade ainda é do DER, órgão que foi responsável pela sua construção.

Esse impasse de posse e propriedade, infelizmente, tem prejudicado a execução de obras de manutenção e recuperação nessas estruturas, pois remete ao famoso “jogo de empurra-empurra”.

No final, os reais prejudicados são os usuários e a população em geral, que acabam arcando com os custos das obras emergenciais, e ao mesmo tempo sofrem com os impactos das interdições viárias inevitáveis nesses casos.

Diante dos recentes acontecimentos, devemos exigir uma reflexão sobre o rumo a ser tomado pela engenharia civil brasileira onde, num cenário ideal, a melhor técnica deve prevalecer sobre o menor preço, trazendo resultados na qualidade, na segurança, e na contínua inovação dos processos construtivos.

*Lucas Tatibano é especialista técnico em métodos executivos para a construção civil

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