Os passos do Paço

Os passos do Paço

Valter Caldana Jr.*

30 de outubro de 2020 | 06h30

Valter Caldana. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nesta eleição, está colocada diante de nós, entre tantas outras, uma estrondosa, porém imperceptível, disputa cujo resultado será determinante para a qualidade de vida da cidade já no curto prazo.

Como se sabe, paços existem para simbolizar o caráter e a identidade de um povo. Existem para dizer ao mundo, urbe et orbi, per saecula saeculorum, quem somos, o que pensamos e do que somos capazes.

O Paço Cívico Municipal de São Paulo é o conjunto formado pela Praça da Bandeira e pelo Palácio Anchieta (Câmara Municipal), ponto culminante da entrada norte da cidade. Caminho triunfante, que se inicia na barranca do rio Tietê, na Ponte Grande, segue pela Avenida Tiradentes, Prestes Maia (que o desenhou), Anhangabaú e descortina a Bandeira com o Palácio ao fundo.

Vale lembrar que este é, hoje, um percurso árido, inóspito, congestionado, que impede a fruição dos belos exemplares históricos e arquitetônicos que o compõem. E que esta nossa praça cívica, a Praça da Bandeira, que emoldura o Palácio Anchieta é há anos, sintomaticamente, uma garagem/estacionamento de ônibus ilhada por vias de alta velocidade, e cortada por uma enorme passarela que liga pelos ares um lado ao outro da cidade, como que denunciando a indignidade a que foi reduzida.

Na escala metropolitana, a esta esplanada se agrega a recém reformada praça sobre o vale, tornando o conjunto Anhangabaú – Bandeira, conformado pelo triângulo composto pelo Palácio Matarazzo (Executivo), Teatro Municipal (Cultura) e Palácio Anchieta (Legislativo), uma possível versão piratininga das mais interessantes praças cívicas e paços municipais que se pode ter notícia.

Pois esta é a grande disputa que se estabelece na cidade-metrópole neste momento. Que cidade surgirá destas eleições? Para que os paulistanos usarão as urnas no dia 15 de novembro?

Para um brado político, mais genérico do que épico, visto que boa parte dos candidatos se serve da eleição como palanque e da cadeira de prefeito como trampolim para saltos mais “elevados”?

Ou para desenhar as diretrizes de construção da cidade do século XXI, que tem nas mãos sua última chance de superar as consequências nefastas do apagão urbanístico dos últimos 45 anos?

Lembrando ter sido este apagão que nos legou um modelo de desenvolvimento urbano que, se teve seus momentos, hoje é ultrapassado e anacrônico. Um gerador de desigualdade em nível insuportável e contraditório, que está corroendo toda a riqueza e pujança de que a capital tanto se orgulha. Ou se orgulhou.

E, mesmo que os paulistanos usem a urna mais para desenhar do que para bradar, que cidade será riscada? Quais valores serão afirmados e quais serão dispensados? Qual o projeto?

As respostas a estas perguntas são determinantes para a definição do caráter, da identidade, da eficiência e da autoestima de São Paulo nas próximas décadas.

O que nos coloca de volta no Anhangabaú, recém reformado e privatizado.

Apesar de todo o processo ter pontos de fragilidade, como abordado em artigo anterior, e da conta anunciada ser estranha, 6.5 milhões auferidos contra 92.3 milhões dispensados, esquisita mesmo, esta operação na verdade não deve ser vista com esta simplicidade, quase simplismo.

É hora de todos entendermos que a relação custo-benefício de projetos urbanos está muito mais ligada aos seus efeitos e decorrências do que sua arrecadação direta. Ou então, seria o caso de avaliar os benefícios de uma estação do metrô pela quantidade de bilhetes que ela vende por dia e não pela elevação da qualidade de vida e a valorização que ela provoca no entorno.

O fato é que as condições da transferência do Vale do Anhangabaú para a gestão e exploração privada não são tão ruins como parecem. Os números, chamativos, ofuscam alguns outros elementos que precisam ser considerados.

O primeiro destes elementos a serem considerados é que a completa e acelerada, talvez apressada, privatização da cidade, aí incluídos sua governança, no melhor estilo OCP de Robocop, e seu patrimônio público, que tem levado a coisas como a venda do terreno do Anhembi e das vagas de estacionamento da Zona Azul, aparenta ser um desejo majoritário na sociedade, que deve ser respeitado. Este desejo, este projeto, defendido por vários candidatos, será confirmado nas urnas daqui duas semanas?

Outro ponto a considerar é que se comparada, por exemplo, com a venda do terreno do complexo Anhembi/Sambódromo ou com o esquartejamento do Ibirapuera, que apaga o maior símbolo da cidade pública, bela e pujante projetada e construída por nossos antepassados, esta privatização é até suave. Afinal, se fez um prazo sensato – dez anos – e a empresa vencedora parece ser do ramo de espetáculos, eventos e shopping, que é no que se pretende transformar os espaços públicos doravante. Isto também será reiterado na eleição?

Num país que está finalizando com antecedência e discutível louvor o processo global de liquefação ética e cultural e substituição do cidadão pelo consumidor, nada mais natural e lógico que o espaço, o lugar da fruição e do pleno exercício da cidadania seja substituído pelo território da necessidade e do prazer entorpecente da posse, delimitado e induzido pelo consumo. Qualquer consumo.

Vive-se a consolidação plena do ter, determinando o fim melancólico e definitivo do ser. Assim será após a eleição? O que se desenhará para o conjunto Anhangabaú-Bandeira?

Considerada a perpetuação da Praça da Bandeira como garagem, o que se dará com a já programada privatização do terminal de ônibus, somada à exploração de quiosques e barracas de comércio de alimentação, produtos leves e artigos de consumo rápido induzida pela privatização da nova praça sobre o Vale do Anhangabaú, o que acontecerá ao conjunto e à cidade?

O mix de produtos/consumo dos quiosques e barraquinhas do Anhangabaú se servirá e será complementar à fruição de lazer, cultural e estética do centro de São Paulo, com o Teatro Municipal encabeçando uma rede de alta qualidade composta por CCBB, Correios, Praça das Artes, SESC 24 de Maio e outros equipamentos já existentes e por vir, como o museu na Galeria Prestes Maia? Conseguirá lidar com as enchentes anuais do Saracura, do Itororó e do Anhangabaú, como a do último final de semana? Ou será o contrário?

Será um mix de produtos/consumo que se consolidará e será lucrativo e viável economicamente pelo necessário aproveitamento do volumoso movimento de pessoas no Terminal Bandeira (complementado pelo Terminal Correios), transformando-se num intenso ponto de comércio popular como ocorre comumente no entorno de equipamentos de transporte, vide Largo 13 Santo Amaro, Pinheiros, Lapa e tantos outros. Isso é ruim? É bom? É o esperado, desejado? Projetado?

Divirjo da ideia poética e bastante aceita de que a cidade é o espaço do encontro, do
diálogo, das respostas. Não. A cidade é o espaço do conflito, do discurso, das perguntas.

O encontro, o diálogo, as respostas, estes, devem ser carinhosamente projetados e construídos, pois deles vêm, aí sim, a possibilidade de resolução da dúvida e da superação do conflito.

O que se verá no conjunto Anhangabaú-Bandeira, a Esplanada Cidadã da cidade metrópole, em curtíssimo prazo, não é nem uma coisa nem outra. Será a resultante deste fascinante, complexo e paradoxalmente frágil movimento. Por isso é importante bem desenhá-lo, bem projetá-lo. E lembrar que este projeto se desenha nas urnas.

O passo que será dado dia 15 determinará a cara do paço, que será a cara do centro, que é a cara da cidade-metrópole. A nossa cara, no Século XXI.

*Valter Caldana Jr. é arquiteto e urbanista, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, coordenador do Laboratório de Projetos e Políticas Públicas, integrou a equipe que elaborou o estudo SP2040. É mestre em Planejamento Urbano e Regional e doutor em Projeto de Arquitetura pela USP

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