Os novos engenheiros e engenheiras e o futuro da infraestrutura

Os novos engenheiros e engenheiras e o futuro da infraestrutura

Arthur Costa Sousa*

08 de maio de 2021 | 04h30

Arthur Costa Sousa. FOTO: DIVULGAÇÃO

O Brasil construiu, a partir da segunda metade do século passado, uma sólida reputação internacional quanto à excelência da sua engenharia, especialmente no segmento de infraestrutura. Obras como a usina hidrelétrica de Itaipu, a ponte Rio-Niterói e a construção de Brasília, para ficar nos três exemplos mais visíveis, entraram para o ranking dos principais feitos da engenharia civil no planeta e renderam às empresas brasileiras de projetos e construção presença em canteiros de obras desafiantes mundo afora.

No entanto, é inevitável reconhecer que o avanço vertiginoso das tecnologias imposto pela 4ª Revolução Industrial, a partir dos anos 1990, e a progressiva tomada de consciência pela humanidade quanto à finitude dos recursos naturais e à necessidade de uma partilha mais justa das riquezas geradas por esses recursos criaram os alicerces de uma nova sociedade. Para construir sobre esses alicerces, é preciso um novo engenheiro.

Em um mundo que se pretende mais parceiro, esse novo profissional deve ser o produto de uma colaboração mais estreita entre a academia e o mercado de trabalho, uma solução que caminhe no sentido de eliminar esse inexplicável fosso histórico no Brasil entre esses dois lados da mesma moeda.

As novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), que estão em processo de implantação nos cursos de engenharia de todo o país, explicitam de maneira clara o papel estratégico da maior presença do estudante no campo de ação como molde para o profissional multidisciplinar que se pretende construir – neste universo em que se busca colocar o incessante impulso inovador a serviço de um crescimento econômico mais equilibrado, social e ambientalmente.

O avanço da construção da infraestrutura brasileira pede engenheiros e engenheiras multidisciplinares, inventivos e com espírito empreendedor apurado. Profissionais capazes de participar de processos decisórios, de liderar e de construir, em um ambiente de múltiplos interesses socioeconômicos e ambientais, soluções que viabilizem a execução de projetos essenciais para a retomada do crescimento do país.

São demandas estreitamente alinhadas às novas DCNs e com elas comprometidas. Em outras palavras, as empresas querem contribuir para que as escolas formem os engenheiros que serão brevemente as molas propulsoras do crescimento da indústria da construção dentro dos princípios das boas práticas Ambientais, Sociais e de Governança – ou ESG, sigla em inglês para Environmental, Social and Governance que encerra o manual indispensável para quem deseja se estabelecer e crescer no universo corporativo a partir de agora.

No ciclo de crescimento mais acelerado que o Brasil experimentou recentemente, entre 2004 e 2011 (exceto 2009), o déficit de profissionais de engenharia ficou evidente. Precisamos de engenheiros e engenheiras com visão abrangente e formação adequada às demandas do mercado. É o que as novas DCNs prometem oferecer já a partir da segunda metade desta década.

A lacuna de investimentos em infraestrutura precisa ser preenchida em um ambiente de carência de recursos fiscais para investimento cada vez maior, sem perspectiva de reversão significativa no curto e médio prazo. A participação de um terço do setor público nos investimentos observada em 2019 aponta para uma redução, ficando o esforço cada vez maior concentrado nas mãos do setor privado.

O aumento dos investimentos privados em infraestrutura, somando a intrínseca busca por lucratividade do capital privado com as exigências de padrão de qualidade e desempenho impostos pelas agências públicas de regulação e fiscalização, cria um fator externo de pressão a mais sobre as empresas de engenharia e construção e, consequentemente, seu corpo de engenheiros. Esse olhar mais agudo sobre a eficiência operacional é um fator de mudança na forma de pensar e agir da engenharia – e não somente provocada pela visão empresarial do setor privado.

Especificamente, mas não exclusivamente, a engenharia voltada para o segmento de obras de infraestrutura necessita de um profissional capaz de atender a um mercado com enorme potencial, dada a demanda reprimida. Mas que irá exigir cada vez mais inovações, capazes de maximizar a eficiência, reduzir custos e produzir obras compatíveis com a mentalidade ESG. A construção deste novo profissional é o que tem sido buscado pelas organizações, em parceria com as universidades. Este é o chamado.

Caberá às organizações empresariais o papel de integrar as gerações mais novas em contato com as gerações maduras. De promover essa troca de conhecimentos, esse novo jeito de trabalhar, utilizando a ferramenta da inovação para crescer. E olhando para a valorização do planeta e da sociedade.

*Arthur Costa Sousa é vice-presidente executivo de Engenharia e Meio Ambiente da Concremat e integrante da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), iniciativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

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