Os monstros que nos habitam

Os monstros que nos habitam

Emanuela Carvalho*

05 de junho de 2017 | 11h35

Emanuela Carvalho. Foto: Arquivo Pessoal

Se eu fosse começar com um alerta seria: não falaremos sobre filmes de terror. Com um conselho? Pare de alimentar os seus monstros.

Seus monstros. Eles pertencem a você.

A questão é que nem só de bons sentimentos somos feitos. Há em nós um tanto de insegurança, medo, solidão, tristeza, angústia, ciúme, inveja, medo, medo, medo.

As pessoas desenvolvem alguns desses sentimentos com mais ou menos intensidade. São aquelas, por exemplo, que não se consideram invejosas, e realmente podem não se sentir assim, apesar de o sentimento estar ali, pronto para ter o seu gatilho disparado. Ou que são ciumento-possessivas e vivem a loucura da desconfiança total do outro.

Os monstros que nos habitam são alimentados por esses sentimentos, que se retroalimentam desses monstros. Eles são simbióticos. Mais um dos círculos viciosos que percorremos, sem saber ao certo como conseguir nos libertar. O medo – citado com a intensidade das repetições – é, sob o olhar pessoal, o mais assustador desses sentimentos. Ele torna o monstro maior, mais feio, mais forte, por vezes indestrutível. Claro que viver sem medo é um risco à capacidade de autopreservação, o medo nos protege também, mas basta uma pequena quantidade para que essa função seja cumprida. O “medo, medo, medo” não só atrapalha, como anula, destrói, desconstrói.

A fórmula mágica para não alimentar o tal círculo monstro-medo-monstro?

Desconheço.

Mas algumas táticas de apoio podem ser utilizadas. A primeira delas é se perguntar qual o medo que sente. São muitos! E em que contexto está esse medo. Se a crise econômica assombra e o seu medo é perder o emprego – justificado, já é fácil analisar que, possivelmente, desse monstro você não conseguirá fugir e se continuar o alimentando, ele só crescerá, até que te prejudique ao ponto de realmente comprometer o seu trabalho e concretizar aquilo que você imaginava. Você pode resolver a crise no país? Se sim, você é o Salvador da Pátria, não há o que temer. Se não, alimentar o monstro-medo de perder o seu emprego vai lhe trazer além de angústia, uma gastrite.

É claro que não é fácil deixar os monstros morrerem de fome dentro de nós. Se fosse, faríamos até uma campanha: “mate os seus monstros de inanição.”, mas não. Principalmente quando eles são vários e agem em bando. Quando o ciúme e a insegurança, acompanhados do medo, se juntam para encher esse minhocário que é a sua cabeça de situações fantasiosas, por exemplo, em relação a um companheiro, os monstros são capazes de lhe dizer ao pé do ouvido que ele está apaixonado pela Beyoncé, vivendo um tórrido relacionamento virtual, quase real, e você acreditar. Porque para os monstros, não existe absurdo, surreal. Existe a ameaça, que se tornará confirmação muito em breve.

Sobre os relacionamentos, há também outras táticas que ajudam a diminuir as doses diárias de alimento aos seus monstros. A mais eficaz delas: usar o diálogo. Falar sobre o que sente, o que teme, pode parecer constrangedor, porque o medo tem o objetivo de nos diminuir diante do outro. Sem ele seríamos sempre tão corajosos, imbatíveis, mas não somos! E é preciso que o outro perceba que o seu corpo tropical também é composto de algo além de água, suor e beleza. Você tem medo. Você tem monstros. E todos nós temos.

Então o primeiro medo a ser vencido é o de se expor. Quebrar a barreira, tirar a máscara de 100% forte e autoconfiante. Falar sobre o que angustia, preocupa, é sim a melhor de todas as opções: qual é o seu medo? Ele tem razão de existir? Ou novamente está se retroalimentando do monstro, também desconhecido, que nesse caso, pode ser nutrido pelo vazio de informação, consequência da falta de diálogo?

Deixar um monstro morrer de fome requer uma coragem imensa, porque isso significa matá-lo e às vezes você até já se apegou. Desapegue. Busque ajuda, grite socorro, mas não tenha pena. A morte – trágica ou silenciosa – desse(s) monstro(s) precisa ser um objetivo de vida, uma guerra a ser travada diariamente, com a determinação de quem busca a vitória. Leia Sun Tzu, se for o caso, só não fortaleça os monstros que te habitam e permaneça nessa troca desigual, onde eles se alimentam do que há de melhor em você, regurgitando, entre tantas coisas, o medo.

*Emanuela Carvalho é professora e autora do livro “Antes Feliz do que Mal Acompanhada”

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