Os meninos que venceram a partida

Os meninos que venceram a partida

Maria Inês Vasconcelos*

16 de fevereiro de 2019 | 10h00

Homenagens aos meninos do Ninho do Urubu. FOTO: WILTON JUNIOR/ESTADÃO

A vida do povo brasileiro é cheia de jogos e de partidas. De empates, bolas divididas, faltas e pênaltis. Vivemos de dribles. A identidade do Brasil se confunde com o futebol. Somos o futebol. Portanto, a morte dos meninos do Flamengo nos deixou uma orfandade inimaginável. Perdemos um pouco de nós, no dia que o incêndio ceifou a vida de dez jovens no Centro de Treinamento do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Ficamos como a rede do gol “balançados”, e o peito é como um campo, agora vazio. Estamos debruçados sobre nós mesmos, numa busca incessante de porquês. De quem é a culpa? Por que não estavam melhores acomodados? Por que as exigências da fiscalização foram ignoradas? Ficaríamos aqui uma semana buscando culpados e encontraremos, com toda certeza. Mas é preciso ir além e fazer aqui um desvio, saindo dessa aridez, pois a partida dos “anjos de chuteira” precisa continuar.

Esses meninos, quase todos, de origem humilde, vieram de algum lugar fora do Rio de Janeiro. Nas cidades das quais eram egressos, eram vistos como super-heróis. O sonho do bairro, da escola onde estudaram, era de que, em breve, um novo Neymar iria surgir. Mães, pais, familiares, colegas e professores, depositavam naqueles meninos uma esperança enorme.

Com alguma maturidade e experiências recentes, estamos certos que o caráter irreversível e do tempo, podem provocar fatos tão imprevisíveis e antinaturais, como a morte desses garotos. Para os que ficam, é necessário achar algo no que se apoiar e a saída é mergulhar nas boas memórias, em cada chute e nos sonhos deles. Aprender com o legado de sabedoria que estes garotos nos deixaram, também é indispensável. É nesse ‘lugar de aprendizagem’ que encontraremos motivos para continuar a “partida”, já começada por eles.

O primeiro passo é ir para o campo de futebol e lá permanecermos. De olhos fechados, ouvindo a respiração, os gritos de entusiasmos, as brincadeiras e o apito. Só assim ficaremos menos órfãos. É no campo, verde e brilhante, que a vida destes meninos está eternizada.

Iriam estrear no grande estádio do Maracanã, e as chuteiras já estavam preparadas. Pode se imaginar quanta alegria? Todos em harmonia, vivendo por um sonho e propósito: ser um jogador de futebol. Pode-se ter sonho melhor para sonhar? Então, me veio na lembrança uma canção de Milton Nascimento, chamada Bola de meia, bola de gude. Acredito que esse grande compositor mineiro a compôs sabendo que um dia iríamos precisar de seus versos para homenagear nossos garotos: “Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração. Toda vez que o adulto balança, ele vem para me dar a mão”.

Por isso, ainda que tenhamos saudades de seus sorrisos e de seus chutes, aprendemos muito com vocês. Athila Paixão, Arthur Vinícius, Bernardo Pisetta, Christian Esmério, Gedson Santos, Jorge Eduardo, Pablo Henrique, Rykelmo de Souza, Samuel Thomas e Vitor Isaías são a cara do Brasil: representam a juventude em busca de um sonho e alternativas. É isto que esses meninos nos deixaram: exemplo de grandeza, de garra e coragem.

Vocês estarão para sempre registrados na memória dos brasileiros. Afinal, vocês venceram a partida!

*Maria Inês Vasconcelos, advogada , pesquisadora, professora universitária e escritora

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